‘Mãe, eu te odeio’: como agir em casos de disputa de poder com o seu filho

Enquanto adultos, conseguimos manejar essa agressividade e conter o desejo de xingar a mãe. Mas para a criança isso é mais difícil

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'Eu te odeio, mãe.' Frases como essa são comuns na sua casa?; menina de olhos fechados e blusa amarela tampa ouvidos com os dedos, no fundo, mulher adulta olha para ela
Adriana Drulla explica que quando a criança diz que odeia a mãe é um ódio de sentir-se impotente, afinal, não é fácil ter alguém ditando as regras a todo tempo

Você já tentou de mil maneiras… Com chantagem emocional, ameaçando dar castigo, gritando, falando baixinho, deixando o filho escolher qual parte da rotina ele quer fazer primeiro… Mas fato é que quando chega a hora de parar a brincadeira, a resposta é “não”! Se você insiste, ela vem seguida de cara feia, choro, discussões e alguns desaforos. Em uma dessas ocasiões meu filho mais novo, que tem 4 anos, disse “eu te odeio”.  “Se você me odeia, então não vou mais te levar para brincar”, respondeu a pessoa que cuidava dele. Se antes tínhamos um problema, agora eram dois. Quer entender como lidar com a disputa de poder? Vem comigo!

Primeiro entenda que na disputa por poder NÃO EXISTE cooperação.

Imagine que você planejou uma viagem. Você arrumou cuidadosamente as malas, pesquisou e reservou o hotel… Mas ao chegar no aeroporto, o agente do embarque diz que seu documento de identidade está vencido, portanto você não pode viajar. Você pode até continuar a conversa de forma educada, mas na hora dá vontade de dizer alguns desaforos para o ser humano que está tolhendo o seu desejo de entrar no avião. Na disputa por poder algo bastante similar acontece. A criança tem um desejo, por exemplo, continuar brincando, até que você anuncia que é hora de tomar banho. Quando temos um desejo e somos impedidos, o nosso cérebro – tanto da criança quanto do adulto – interpreta este impedimento como uma ameaça. E nosso organismo é programado para reagir a ameaças por meio da luta ou da fuga. A raiva nos motiva a lutar, por isso é mais do que natural reagirmos com agressividade quando alguém nos diz que não podemos. Enquanto adultos, conseguimos manejar essa agressividade e conter o desejo de xingar a mãe do agente de embarque. Mas para a criança isso é mais difícil – e é nessa hora, que frases como “eu te odeio, mãe” costumam aparecer. O manejo da agressividade requer treino e maior desenvolvimento cerebral. E se olharmos em volta, nem os adultos fazem um bom trabalho quando o assunto é o autocontrole.

O ponto é que na disputa por poder duas pessoas competem. Quando uma ganha, a outra perde. Portanto, a reação natural do ser humano é reagir com agressividade e não colaborar com a pessoa com quem ele disputa. É claro que se reagirmos gritando ainda mais alto, ou ameaçando a criança de alguma forma, podemos conseguir que ela faça a nossa vontade. Como diz o ditado, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Mas isso não é colaboração, é submissão. A criança cede porque se vê impotente. Essa estratégia é sedutora porque funciona no curto prazo, mas infelizmente traz como consequência o distanciamento emocional com relação aos pais, e ensina a criança a submeter-se ao outro – sim, hoje este outro é você, mas amanhã? Não sabemos.    

As emoções (dos adultos e das crianças) são reguladas por diferentes sistemas neuroafetivos. Na disputa por poder, estamos estimulando o sistema de ameaça, que incita emoções como a agressividade e o comportamento de luta. Mas o ser humano também é um ser social, cooperar é algo bastante intuitivo e prazeroso para a nossa espécie. Então para termos cooperação, precisamos aprender a nos relacionar com a criança de um modo que estimule outros sistemas. Sistemas que estimulam o desejo de cooperar.


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A criança coopera com quem entende os sentimentos dela e se importa com eles.

Queremos cooperar com quem inspira proteção, segurança e empatia em vez de ataque, medo e raiva. Portanto, se você quer cooperação, reconheça o desconforto do seu filho, e auxilie a criança entender o que ela sente. Quando a criança diz “eu te odeio, mãe”, é um ódio de sentir-se impotente. Não é fácil ter alguém ditando as regras a todo tempo. Na disputa por poder o foco da criança é a autonomia que ela deseja e não o amor que ela sente. Mas é comum interpretarmos a raiva e as emoções negativas que surgem na disputa de poder como falta de amor ou rejeição. Perceba que na resposta “se você me odeia, não te levo pra brincar”, tem um adulto que briga por respeito, amor e reconhecimento enquanto a criança luta por autonomia. Então lembre que a agressividade é direcionada a você não porque ele te odeia, ou porque não te respeita, mas porque ele deseja mais autonomia. Respire, e não leve a agressão para o pessoal. Então, ajude o seu filho a entender o que ele sente. “O que você está sentindo agora é raiva. Você gostaria de brincar mais, mas eu te disse que está na hora de irmos embora. É normal sentirmos raiva quando não podemos fazer algo. Quando eu sinto raiva, eu respiro para me acalmar, assim ó… quer fazer também?” Se você se colocar no lugar da criança, fica mais fácil validar os sentimentos dela em vez de entrar na disputa. Isso não significa que você vai alterar os limites, apenas que vai reconhecer e normalizar a frustração de não ser dono do próprio nariz. Explique que os limites existem para o bem dele, mesmo que em um primeiro momento causem muita frustração. Pergunte como você pode ajudá-lo a se acalmar neste momento, ou conte pra ele como você se acalma quando fica frustrado também. Quando a criança percebe que você está protegendo, ajudando, e não atacando, ela sai do sistema de ataque e pode então cooperar.


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Foque e elogie o comportamento que você quer ver, em vez de reclamar dos comportamentos contrários

Se você já teve um chefe, cliente ou parceiro que reconheceu o valor do seu trabalho, que elogiou a sua forma de executar tarefas, você sabe o prazer que sentimos em cooperar com quem nos valoriza e nos considera importantes. O seu filho quer ser reconhecido por suas conquistas, e sentir-se valorizado por você. Queremos mostrar nossa competência pra quem acredita nela. Então, se você quer que seu filho pendure a toalha do banho, elogie toda vez que ele, de fato, fizer isto. Valorize e reconheça a ajuda que ele te dá. Diga como você se sente importante quando ele lembra de fazer algo que você pediu. Diga como a casa está mais limpa e sua rotina mais leve porque ele ajudou com a louça do almoço. Se você acha que ele precisa ser mais organizado, elogie os pequenos comportamentos de organização, mesmo que eles sejam pequenos e pouco frequentes. Elogie o comportamento que você quer ver para que ele sinta o prazer de ter o seu esforço reconhecido. Nada é mais gratificante do que nos sentirmos valorizados por quem amamos. Isso fará com que ele queira repetir a dose, e produz mais resultados do que se você gastar o seu tempo reclamando sobre o que ele não faz. Mais do que isso, quando ressaltamos o comportamento indesejado, a criança se sente desmotivada. Quando focamos naquilo que elas não fazem bem, elas se sentem desmoralizadas, ofendidas, se tornam defensivas e irritadas. Ou então ela pode concluir que ela é assim mesmo, bagunceira, desatenta, desorganizada, e, portanto, incapaz de acertar.  

Por último, é importante entender que você pode aprender a lidar com a disputa por poder, porém é natural que ela continue existindo no relacionamento com os seus filhos. Principalmente nas fases em que a criança dá um salto de desenvolvimento, como no “terrible two” e na adolescência. Isso acontece porque junto com o salto de desenvolvimento vem um desejo por mais autonomia, e a disputa por poder é uma luta por autonomia. Os papéis dos pais e dos filhos são dinâmicos, eles se transformam ao longo do tempo. Começamos como os adultos responsáveis até que eles se tornam adultos como nós. Essa transformação se dá ao longo dos anos em um movimento em que a criança testa os limites buscando alargá-los, e os pais resistem ou cedem conforme o filho se torna capaz de andar com as próprias pernas. Este é um movimento natural e bastante saudável, contanto que saibamos lidar com ele.


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Adriana Drulla é mestre em Psicologia Positiva pela University of Pennsylvania (Estados Unidos), facilitadora do programa americano Mindful Self-Compassion para o desenvolvimento da autocompaixão, pós-graduanda em Terapia Focada na Compaixão pela University of Derby (Inglaterra). Autora do artigo científico Intergenerational Transmission of Self-Compassion, que trata da relação entre autocompaixão e parentalidade, escrito com Karen Bluth, pesquisadora e autoridade mundial nos temas autocompaixão e adolescência. Mãe da Chiara, 9 anos, e do Matteo, 4 anos.

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