A criança questionadora: como evitar o rótulo de ‘gênio forte’ e lidar com os desafios

O ambiente em que a criança cresce, suas experiências de vida e o comportamento dos pais influenciam na formação dos pequenos com temperamento forte; ser argumentativo e desafiador não significa que seu filho é desobediente

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Menino de blusa listrada com gênio forte observa com expressão de raiva
Crianças com "gênio forte" são argumentativas, questionadoras e podem ser interpretadas de diferentes formas por cada adulto.

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Elas têm argumento para tudo, querem tomar suas próprias decisões sozinhas desde cedo e questionam normas e regras com frequência. Você tem uma criança assim em casa? Elas são comumente descritas como as crianças de gênio forte. Costumam ser vistas pelos próprios pais como um grupo de crianças mais difíceis de lidar e educar, exatamente por serem mais desafiadoras. Entretanto, esse tipo de personalidade da criança não deve e não precisa ser tratado como um aspecto negativo.

Cecilia Prado, psicóloga com especialização em neuropsicologia, explica que as crianças de gênio forte são aquelas que sabem se expressar e expressar seus desejos de forma bastante clara, e possuem um comportamento mais ativo perante algumas situações – o que pode exigir mais esforço dos pais para que sigam normas e aceitem pedidos, por exemplo. “O contraponto que eu vejo são as crianças ‘boazinhas’, que não entram em desacordo, são sempre dispostas e disponíveis, são boas de se lidar, isso no imaginário dos pais. Então o gênio forte na verdade é um agrupamento de comportamentos que os pais nomeiam de crianças que eles têm dificuldade de lidar, ou pela criança não obedecer rápido, questionar muito ou por não ser muito flexível”, pontua a psicóloga.

Cecilia Prado, psicóloga com especialização em neuropsicologia
Cecilia Prado, mãe, professora, psicóloga com especialização em neuropsicologia e administradora do perfil @crescer_devagar | Imagem: acervo pessoal

Rótulos ignoram contextos

Cecilia Prado ressalta que é importante ter cautela com denominações, pois isso pode se tornar uma espécie de etiqueta para definir a criança, mas que não a representa por completo. “Se minha filha é teimosa, por exemplo, não digo isso só pra ela, mas sim para todas as pessoas que convivem com ela, ‘ela é assim porque ela é teimosa’. Eu atribuo uma qualidade precedente à pessoa. Se esquece o contexto, esquece a situação que a criança está vivenciando, as habilidades que ela tem ou não, a capacidade que ela tem de se regular ou não”, diz. E da mesma forma funciona essa classificação sobre o gênio forte, alerta a neuropsicóloga. 

“É muito mais fácil eu dar um nome a esse desconforto que eu sinto de lidar com uma criança que tem um jeito mais ativo e questionador e colocar tudo isso num mesmo ‘pacotinho’ para explicar que a criança é desse jeito, porque tem gênio forte. Então vira um rótulo, porque eu esqueço todo o resto das experiências para classificar a criança dentro de uma caixinha”, completa Cecilia.

Essa forma de chamar uma criança com um comportamento mais ativo e questionador, quando é usada para descrevê-la aos outros e para ela mesma, pode até tornar mais difícil uma modulação ou mudança dos comportamentos ao longo de suas vivências. Ana Loch, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que isso ocorre pois dessa forma a criança atribui para si mesma o fato de ter o “gênio forte” como parte da personalidade.

“Não se deve usar rótulos para expressar o temperamento ou personalidade de uma criança, pois ela pode passar a usar esse comportamento como um padrão, visto que a mesma já foi ‘rotulada’ como uma criança de gênio forte”, pontua a pediatra.

Ana Loch, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
Ana Loch, pediatra pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) | Imagem: divulgação

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Gênio forte não é desobediência

Segundo as especialistas, outro ponto importante a ser considerado para os pais em relação ao temperamento e postura dos filhos perante a certas situações é que a criança de gênio forte não necessariamente faz birra e desrespeita os pais, professores e outros responsáveis.

Ser mais questionador ou argumentativo não é sinônimo de uma criança que age de forma desrespeitosa. “Muitas crianças com gênio forte acabam sendo rotuladas por seu temperamento difícil, mas é importante nós diferenciarmos, por exemplo, comportamento de birra, falta de limites e de educação com gênio forte, para que os pais e professores possam lidar com elas”, ressalta a professora e psicóloga Célia Regina da Silva Rocha, coordenadora do Programa de Educação Especial da Universidade Cruzeiro do Sul. 

Célia também pontua que, nesse contexto, é importante que os pais atuem e estabeleçam limites, mesmo que seja trabalhoso e mais desafiador. “É necessário que se tenha atenção à colocação dos limites e regras, no sentido de a criança não sentir que está sendo colocada de forma autoritária, ou deixá-la fazer o que quiser, mas fazendo-a sentir-se participante da decisão. É preciso conscientizá-la sobre si mesma e naquilo que sua ação poderá acarretar para si e para o outro.” 

Célia Regina da Silva Rocha, coordenadora do Programa de Educação Especial da Universidade Cruzeiro do Sul. 
Célia Regina da Silva Rocha, coordenadora do Programa de Educação Especial da Universidade Cruzeiro do Sul. | Imagem: Divulgação

Como lidar com essa personalidade

Apesar de englobar um conjunto de comportamentos similares, a definição de perfis de personalidade pode variar de acordo com a compreensão de cada um. “Uma criança com gênio forte pra você pode ser uma criança absolutamente tranquila pra mim, depende do que cada pessoa entende como gênio forte”, diz a psicóloga Cecilia Prado.

“Posso ter uma criança que para mim é extremamente fácil de lidar, e para você ela possui um gênio fortíssimo, ela é resistente, porque a vinculação que você tem com ela é de outro nível, ou porque você não consegue acessar ela direito, ou porque ela não confia em você e por isso ela não se entrega”, completa a psicóloga.

Assim, para que os pais possam compreender os comportamentos e características dos próprios filhos e lidar com o que entendem como um ‘gênio forte’, é essencial que não repreendam o modo de agir da criança, mas a entendam e ajudem-na a regular melhor suas emoções e respostas frente a situações, controlando melhor os impulsos. Para que isso aconteça, ter as próprias habilidades socioemocionais desenvolvidas faz parte do processo.

“Os pais precisam estar tranquilos, entender seus próprios temperamentos, formas de reagir, suas feridas, gatilhos e necessidades, tudo isso para poder ajudar a criança. Se eu sei me regular, eu vou conseguir ajudar meu filho a se regular. Se eu sei manejar minha raiva, vou conseguir ensinar meu filho a manejar a raiva dele. Então os pais possuem um papel fundamental não só de respeitar o temperamento da criança, mas de entender que eles são guias”, explica a psicóloga.


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Lapidando o temperamento difícil

Apesar de ter influência também de características comportamentais vindas dos pais e presentes desde o início da vida, muito do chamado ‘gênio forte’ de uma criança é influenciado por suas experiências de vida e o ambiente em que cresce. Logo, proporcionar um ambiente com afeto, paciência e compreensão também é a chave para não repreender a personalidade dos filhos, mas educá-los e lidar da melhor forma, explica a pediatra Ana Loch: 

“Um ambiente calmo, com bastante conversa e paciência ajuda a ‘lapidar’ um temperamento difícil. Importante sempre mostrar respeito e amor à criança com gênio forte, para que sua personalidade vá se transformando e a criança tenha um temperamento forte, porém com limites, educação.” 

“Não podemos simplesmente ceder a gritos, choros e exigências descabidas, e nem tampouco reagir com irritação e gritos às atitudes de uma criança com gênio forte”, pontua a pediatra.

Para Cecilia Prado, essa influência do contexto em que a criança cresce também é determinante no modo com que essa criança irá agir ao longo de seu crescimento, e como irá levar moldar seu temperamento e personalidade para sua vida.

“Todo ambiente responsivo, amoroso, cuidadoso, positivo, vai criar crianças responsivas, empáticas, amorosas, criativas, seguras. Então mesmo que a criança tenha um temperamento mais forte, ou que ela seja mais resistente, esse ambiente pode ser acolhedor e transformador de outras respostas. Os pais são os principais atores nessa história”, finaliza.


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