Os rótulos e padrões que prejudicam a infância

Em conversa com o colunista Mauricio Maruo, a terapeuta e pedagoga Maria Rozas fala dos riscos de induzir atitudes e comportamentos nas crianças e assim moldar a personalidade delas

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Os rótulos e padrões que prejudicam as crianças
Tanto os rótulos negativos – "chorona"e "manhosa" –, quanto os positivos – "obediente" e "boazinha" podem ser prejudiciais às crianças

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Você, que tem um recém-nascido, certamente, já ouviu ou presenciou alguém fazer a seguinte pergunta:

– Mas ele é bonzinho?

Essa é uma pergunta clássica que todos ouvimos quando temos um recém-nascido, e normalmente quando a nossa criança começa a crescer essa questão muda para:

– Nossa, que bonzinho, aposto que não dá trabalho nenhum.

Essas são frases muito comuns e escutamos o tempo todo, mas alguém já se perguntou se isso tem algum impacto no desenvolvimento infantil?

Na verdade tem um impacto bem grande, pois a maioria dessas frases são ditas na presença das crianças, que desde pequenas ganham rótulos como os de “boazinha” ou “bagunceira”, isso quando não se estende para “chorona”, “manhosa”, “nervosinha” ou a pior “manipuladora”.

Mas não são só os rótulos “negativos” aos quais precisamos ficar atentos. Os rótulos “positivos” também são muito prejudiciais, tais como “boazinha”, “inteligente”, “forte” e mesmo “obediente”.

Se sabemos que isso é prejudicial, por que então esses rótulos parecem ser tão comuns e naturais?

Para entender melhor o assunto, precisamos voltar um pouco no tempo, basicamente nas décadas de 50, 60 e 70.

Imagine que nesse período era comum uma família ter mais de quatro filhos, que ficavam, quase sempre, aos cuidados das mães, já que na cultura patriarcal então dominante o homem passava mais tempo fora para prover o sustento da casa. Nesse cenário, as crianças (e olha que eram muitas) que cooperavam com o bom andamento da rotina eram consideradas “boazinhas”, já as que não cooperavam eram as “bagunceiras”.

Com o passar dos anos, esses rótulos ganharam ainda mais força, a partir do momento que as famílias modernas se afastaram do processo natural de comunidade para criar algo novo, porém, mais individual e solitário. Nesse novos moldes familiares, a demanda na criação dos filhos se tornou mais pesada, mesmo quando sendo somente uma criança, já que não há mais os laços de comunidade para ajudar esses pais. Sozinhos e sem apoio, a tendência a avaliar o comportamento dos filhos e rotulá-los cresceu: as crianças que dormem bem ou que comem bem, ou mesmo as que não tem cólicas e não “dão trabalho” para os pais, são consideradas crianças “boazinhas”.

Já disse em outros textos que as crianças são como esponjas, elas absorvem todas as informações que estão a sua volta. Então se elas estão em uma idade em que compreendem o que é ser “boazinha” isso pode afetar drasticamente o desenvolvimento da sua personalidade, à medida em que farão de tudo para fazer jus ao “título” que ganharem, ainda que isso exija passar por cima de seus próprios desejos e vontades.

Conversei com a terapeuta e pedagoga Maria Rozas @mariarozas.criarconsciente para entender melhor o assunto.

Os perigos dos rótulos

Maria Rozas me disse que os rótulos não são apenas palavras, eles também podem induzir atitudes e comportamentos nas crianças. Ela me explicou que as crianças são muito sensíveis e estão sempre buscando acolhimento e uma segurança que garanta que elas sejam aceitas pelos pais. Se os pais acreditam que o filho é realmente bonzinho por dormir a noite toda e verbalizam essa percepção, isso leva a uma atitude por parte da criança, que poderá se comportar de maneira a atender tal rótulo, trazendo talvez uma carga mais leve para os pais na criação do filho. Mas se a atitude dos pais muda caso a criança não durma, ela sente essa mudança, e essa experiência pode ser um molde de como será sua personalidade.

Maria Rozas me contou que na terapia muitos adultos relataram quantas coisas eram esperadas deles quando crianças e como é difícil se libertar desses padrões, pois os rótulos já fazem parte de sua personalidade.

Por outro lado, ela afirma que essa personalidade, ou como ela mesma disse, esse “vestido”, pode ajudar, apesar de ser limitado e baseado em não verdades: é a forma como nos apresentamos a outras pessoas.

Porém quando nos libertamos, entendemos que não precisamos ser apenas uma personalidade e sim muitas ao mesmo tempo. Posso ser corajoso em um dia e no outro não, posso chorar na frente de todo mundo e outro dia não querer chorar, posso ser “bonzinho” e “bagunceiro” ao mesmo tempo.

As personalidades não são fixas, pois todo ser humano é plural.

Maria finaliza dizendo que ter muitas personalidades não é problema, desde que essas personalidades brotem de um lugar que esteja conectado com seu “eu” e não com o que os outros esperam que você seja.

Agora que sabemos o quanto podemos influenciar no desenvolvimento da personalidade dos nossos filhos, devemos lembrar também o quanto é importante dar a liberdade, principalmente de escolhas e o acolhimento para todas as decisões. Assim conseguimos criar a segurança para que nossos filhos consigam transitar entre seus diversos “vestidos”.


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