Contar às crianças que Papai Noel não existe pode acabar com o momento mágico do Natal?

Em entrevista para o educador parental Mauricio Maruo, a terapeuta Maria Rozas diz que "é papel do adulto orientar a criança em relação à reflexão, mostrando fatos reais sobre o personagem"

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Você diz a seu filho que Papai Noel existe e traz presentes para diexar na árvore de Natal, conforme mostra ilustração?
Para a terapeuta Maria Rozas, já que estamos sendo honestos com nós mesmos e com nossos filhos, sobre a origem do Papai Noel, por que não sermos sinceros sobre a questão de dar presentes no Natal?

Hoje a reflexão é sobre a relação da educação infantil com o bom velhinho, popularmente conhecido como Papai Noel. Mas para entender todo o contexto precisamos primeiro compreender a origem do Papai Noel, o que farei de forma super resumida, visto que existem inúmeras teorias sobre esse assunto.

O personagem do Papai Noel se originou de São Nicolau de Bari, um bispo grego que viveu no século III dc. Ele ajudava muitas pessoas e dava presentes para as crianças que eram “comportadas.

Reza a lenda que ele prezava muito pelas orações e acreditava que as crianças que faziam suas orações toda noite eram crianças comportadas, por outro lado a lenda diz também que existia uma entidade chamada Krampus que aparecia junto com São Nicolau. Esse personagem tinha uma sacola enorme que usava para levar embora as crianças com mau comportamento.

A partir do século XIX, mais especificamente na América do Norte, muitos poemas foram associados à tradição que São Nicolau de Bari acreditava, espalhando a cultura de um personagem que hoje conhecemos como Papai Noel. Entre todos os poemas, dois fatos permaneceram bem fortes, a ideia de dar presentes e o bom ou o mau comportamento.

Então com essa pequena explicação sobre a origem do Papai Noel, vamos às reflexões.

O que é comemorado no Natal?

O Natal é uma festa religiosa cristã, que comemora o nascimento de Jesus Cristo.

Então, por que é o Papai Noel quem entrega os presentes se ele nem foi um dos três reis magos, os quais, segundo a tradição cristã, teriam visitado Jesus logo após o seu nascimento, trazendo-lhe presentes?

A tradição do Papai Noel se tornou muito forte e favoreceu bastante a indústria do comércio, já que Jesus ou os três reis magos não seriam bons personagens para impulsionar as vendas de produtos, principalmente com o público infantil.

Por que o Papai Noel mora no Polo Norte?

Na verdade, o personagem mora na Finlândia, na montanha de Korvantunturi, perto da fronteira com a Rússia. Foi em 1950 que o governo da Finlândia resolveu criar uma Vila na Lapônia e decretar ao mundo a moradia oficial do Papai Noel, visando o turismo no país.

Quem deu o nome ao bom velhinho de Noel?

O Brasil já incorporou milhares de palavras que vieram da França, como é o caso do sutiã, champignons, souvenir, etc. Então por que vocês acham que o Noel iria ficar de fora? Noel em francês significa Natal.

Mas as reflexões vão além das perguntas acima, existem perguntas muito mais complexas e que influenciam bastante o modo de criação dos nossos filhos. Conversei com a terapeuta e consultora em educação infantil Maria Rozas sobre três pontos importantes para refletirmos:

1. Você tem o costume de dizer ao seu(sua) filho(a) que o Papai Noel existe e que é ele quem traz os presentes, caso seu filho tenha sido “bonzinho” durante o ano?

Segundo Maria Rozas, a criança deve ter a opção de escolha, entre as quais está também acreditar ou não que o Papai Noel existe. É papel do adulto orientar a criança em relação à reflexão, mostrando fatos reais sobre o personagem, ou seja, não minta para seu filho. Se você não acredita que o Papai Noel exista, por que você vai orientar seu filho do contrário?

Em relação aos presentes, Maria disse que a opção de dar ou não presentes através do Papai Noel é inteira responsabilidade dos pais, ou seja, não há problemas em presentear seu filho através do personagem, contanto que você seja sincero, e não minta, quando ele te questionar quem deu o presente.

Em relação ao comportamento “bonzinho” acreditamos que seja o ponto mais prejudicial dessa pergunta, pois condiciona a criança e tira a liberdade através da chantagem emocional, podendo levar até a um problema sério de personalidade no futuro.

2. Você se recorda, na sua infância, de ter acreditado que o Papai Noel existia?

Essa é uma pergunta muito interessante e que nos leva a conhecer mais sobre nossa ancestralidade. 78% dos pais com quem já conversei, em minhas rodas de conversa,  confessam ter lembranças muito acolhedoras da época de Natal, porém uma memória coletiva que a maioria relatou, é de nunca ter conhecido o Papai Noel pessoalmente, restando somente a emoção de acordar no dia de Natal e encontrar seu presente no pé da árvore. E é claro, muitos adultos reforçando que foi o Papai Noel que deixou o presente.

Quando perguntei se eles já haviam sentado no colo do Papai Noel quando eram crianças e qual foi a sensação que eles sentiram, muitos responderam que a sensação foi de medo, vergonha e insegurança. Isso nos leva a pensar como as crianças devem sentir quando são forçadas a fazer isso por uma vontade exclusivamente dos adultos.

3. Você acredita que se contar ao seu filho que o Papai Noel não exista ou que você ou ninguém é obrigado a dar presentes no Natal, estará destruindo o momento mágico que é o Natal?

Existem três pontos nessa pergunta a refletir. O primeiro é o fato de alimentar uma ilusão coletiva. Segundo Maria Rozas, há uma grande diferença entre alimentar a ilusão ou a criatividade.

A criatividade é guiada por apoiar as decisões e descobertas, lógicas ou emocionais dos nossos filhos, através do que é verdadeiro e genuíno, ou seja, seu filho tem a liberdade criativa de optar em acreditar ou não que o Papai Noel existe.

O personagem do Papai Noel é uma ilusão criada com um propósito comercial ou publicitário, afinal ele já nasceu atrelado ao fato de distribuir presentes, uma ilusão que alimenta a mentira capitalista.

Esse questionamento nos leva ao ponto dois.

Já que estamos sendo honestos com nós mesmos e com nossos filhos, sobre a origem do Papai Noel, por que não sermos sinceros sobre a questão de dar presentes no Natal?

Pense comigo, o ano tem 365 dias, por que somos obrigados a dar presente justo no dia 25 de dezembro?

Está certo que assim como a ilusão coletiva do Papai Noel está presente, existe também a questão do pertencimento, afinal não queremos que nossos filhos fiquem de fora desse lindo sistema capitalista que já foi implantado há muitos anos e que nos faz tão bem. #serámesmo?

E por último…

Não, pai ou mãe, vocês não têm tanto poder a ponto de conseguir destruir o momento mágico do Natal, afinal, a questão não é sobre dar ou não presentes, ou mesmo acreditar ou não que um personagem exista, o Natal é sobre celebrar a compaixão e as conexões que fizemos e sentimos durante o ano.

E qualquer outro momento mágico pode deixar que a indústria do capitalismo se encarregue de criar.

“Busque sempre respeitar, compreender e acolher as duas crianças mais importantes da sua vida, seus filhos e a criança que mora dentro de você”.

Feliz conexões natalinas para todos e todas!


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É pai da Jasmim, 4 anos, e companheiro da Thais. Formado como artista plástico, atua como educador parental desde 2016. É fundador do "Paternidade Criativa", uma empresa de impacto social que cria ferramentas de transformação masculina através do gatilho da paternidade. Criador do primeiro jogo de Comunicação Não Violenta direcionado para pais e crianças do Brasil.

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