Responsabilidade e autonomia: a importância da mesada para a educação financeira das crianças

A mesada contribui para o desenvolvimento do senso de comprometimento e escolha

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A importância da mesada para a educação financeira das crianças; menina sorrindo segurando um cartão de crédito preto e branco com duas sacolas penduradas no braço, uma azul e outra rosa
A educação financeira na infância auxilia na formação de um adulto economicamente consciente

Leia em 7 minutos

A mesada é um ótimo recurso para começar a ensinar as crianças a lidarem com o dinheiro. Desde cedo, os pequenos já podem ser introduzidos à educação financeira, para se tornarem mais responsáveis e autônomos quando crescerem. “A mesada permite que as crianças comecem a exercitar a questão da escolha, porque obviamente o dinheiro que elas vão receber não vai ser suficiente para fazer tudo o que elas gostariam de fazer”, diz Carlos Eduardo Freitas Costa, especialista em educação financeira e colunista da Canguru News

Com isso, já logo na infância as crianças vão aprender a superar a frustração de querer algo que não conseguem comprar e aprender a esperar e poupar para alcançar o seu objetivo. Para Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, o processo da educação financeira deve começar antes mesmo da criança ser alfabetizada, quando tiver cerca de 3 anos. Não é preciso utilizar dinheiro de verdade com crianças dessa idade, a mesada pode ser apresentada de uma forma lúdica e, conforme a criança for crescendo, pode ser introduzido o dinheiro. “É importante implementar cedo para que essa criança já comece a entender o processo de equilíbrio entre consumo e poupança”, aponta.


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A educação financeira vai além de dar mesada

A mesada é uma das ferramentas que pode ser utilizada para uma boa educação financeira com as crianças, mas é preciso que os pais participem e implementem um sistema de mesada, explica Reinaldo Domingos. “A mesada pode contribuir para a educação financeira desde que tenha metodologia”, indica. Apenas entregar o dinheiro na mão das crianças não as ensinará nada sobre o mundo financeiro, é preciso que os pais tirem um tempo para explicar como lidar com a quantia que receberam. 

É fundamental ensinar que a criança pode gastar, mas também precisa poupar. Caso ela receber duas moedas, uma pode ser usada agora e a outra deve ser guardada para mais tarde, por exemplo. “A criança precisa entender esse movimento de equilíbrio entre o hoje e o amanhã, que deve ser instaurado no início dessa jornada de aprendizado em relação à mesada. Parte do dinheiro para realizar os desejos e sonhos e parte do dinheiro para o consumo imediato”, explica Reinaldo Domingos.

Os adultos não devem ditar as regras de como o filho deve gastar o seu dinheiro, mas o acompanhamento dos gastos é indispensável. Dessa forma, os pais estarão educando a criança para se tornar um adulto financeiramente consciente. “A criança não se torna ‘pedinte’ e consumista, sabendo que assim que acabar o dinheiro ela pode pedir mais. Ela entende a necessidade de blindar o dinheiro que ela está poupando para os desejos futuros”, relata o presidente da Abefin.

Reinaldo Domingos/Abefin: divulgação

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Mesada não pode ser utilizada como prêmio ou castigo

“O conceito da mesada é uma doação para a criança, se é uma doação, não pode ter contrapartida”, relata Reinaldo Domingos. Os especialistas concordam que a mesada é um instrumento de ensino e não deve ser alterada, independentemente do comportamento da criança. “O dinheiro não pode virar algo que premie ou castigue a criança, isso vai contra todos os conceitos da educação financeira. A mesada deve ser respeitada e nunca considerada uma moeda de troca entre pais e filhos”, enfatiza Domingos. 

É importante ressaltar que a realização de tarefas domésticas ou qualquer outra atividade, como hobbies, não devem ser remuneradas. “A criança pode crescer com um espírito mercenário, que faz tudo por dinheiro e acha que tudo requer uma remuneração”, afirma Carlos Eduardo Costa, que também é autor do livro “Meu Dinheirinho”. Assim, a criança corre o risco de se tornar mesquinha. “Você vai estar criando um monstro dentro de casa, uma pessoa que, amanhã, no mercado de trabalho, só vai fazer aquilo que foi contratado, ela não vai querer ampliar o seu leque de conhecimento nem doar um pouco do seu tempo para outras finalidades”, completa Reinaldo Domingos.

Por outro lado, essa atitude dos pais pode tornar a criança mais desleixada e menos motivada em fazer as tarefas solicitadas. “Na educação dos nossos filhos, temos que ensinar muitas outras lições, entre elas, que existem coisas que precisam ser feitas, porque houve um pacto combinado, como arrumar a cama ou ajudar a lavar a louça”, diz Carlos Eduardo Costa. Quando essas atividades são atreladas à mesada, a criança pode decidir deixar de arrumar a cama, por exemplo, porque sabe que o máximo que vai acontecer é não ganhar o dinheiro. “O objetivo da mesada é preparar as crianças para se relacionarem com o dinheiro, isso vai acontecer independente se a gente fizer algo que gostamos ou não”, indica o especialista.

“Dentro de um lar, é imprescindível realizar as contribuições combinadas sem remuneração para formar uma criança altamente colaborativa, senão ela vai virar uma criança de cobrança. Temos que criar um lar colaborativo”, acrescenta Domingos.


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Comprometimento e confiança

A mesada é um grande comprometimento dos pais, mas às vezes pode acontecer de esquecerem do pagamento. Acidentes acontecem, mas é importante comunicar que não irá ocorrer novamente para mostrar que, mesmo depois do prazo, o comprometimento foi lembrado. Os especialistas recomendam que um calendário por escrito pode ser uma boa forma de registrar os dias em que a mesada ou semanada deve ser recebida.

“A criança precisa de algumas certezas. Se você assumiu um compromisso, ele tem que ser respeitado, caso contrário, como é que a criança vai gerenciar esse recurso se a cada momento ela recebe a mesada ou semanada em um dia diferente?”, indaga Carlos Eduardo Costa. Claro que o valor tem que respeitar a condição econômica da família, caso aconteça algum imprevisto, como o pai ou a mãe perder o emprego, o educador financeiro diz que não tem problema nenhum em repactuar a mesada com a criança, porém, é crucial estabelecer este diálogo e deixar os novos combinados bem claros.

Carlos Eduardo Costa/ Canguru News: reprodução

Existe um valor recomendado para começar?

“Não, cada caso é um caso”, diz Carlos Eduardo Costa. O valor da mesada deve ser negociado de acordo com a renda familiar e deve estar de acordo com o hábito de consumo da criança. Os pais precisam saber para o que será destinado o dinheiro inicialmente, seja para ir ao cinema com os amigos ou apenas para comprar algum brinquedo que a criança tenha interesse.

Reinaldo Domingos tem um bom sistema para determinar o valor inicial: observar a criança por 30 dias e ver quanto dinheiro ela gasta.  Nesses 30 dias, os pais vão anotar a quantidade de dinheiro que cada um dá para a criança e deduzir o valor das anotações. O especialista indica que a mesada com dinheiro comece quando a criança tiver por volta de 7 anos. “O regime mensal ajuda a compreender a realidade, já que contas de luz e água e o próprio salário também são mensais”, finaliza.


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