Alimentação na infância molda o cérebro e influencia gostos na vida adulta

Estudo analisou, a nível cerebral, de que forma o que comemos na infância influencia preferências alimentares quando mais velhos; nutricionistas destacam importância de evitar oferta antecipada de açúcar e sua relação com a ansiedade

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Menino pequeno come laranja em rodelas
Evitar o açúcar nos primeiros anos de vida é importante para que a criança não se habitue ao gosto doce
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As experiências alimentares ocorridas na infância influenciam nossos gostos por determinadas comidas na idade adulta. É o que mostrou um estudo realizado por pesquisadores da Stony Brook University, nos Estados Unidos, que verificou existir uma forte relação entre o que comemos no início da vida, como bebês ou crianças pequenas, e as preferências alimentares dos adultos. Essa relação depende dos efeitos que nossa experiência inicial com a comida tem sobre o cérebro.

“Este estudo mostra que a experiência gustativa tem efeitos fundamentais no cérebro”, afirma Arianna Maffei, uma das autoras da pesquisa, que é professora do Departamento de Neurobiologia e Comportamento da universidade americana. Ela explica que para desenvolver a preferência gustativa é preciso passar por uma experiência completa, que inclui a detecção do gosto na boca, sua associação com o olfato e a ativação de sensações gastrointestinais. “Todos esses aspectos influenciam a atividade dos circuitos cerebrais, promovendo seu desenvolvimento saudável”, acrescentou.

Publicado na Science Advances, o estudo destaca a importância de as crianças serem expostas, desde cedo, a uma variedade de sabores, visto que essa exposição não tem a mesma influência quando feita em adultos. Daí a importância, por exemplo, de não oferecer alimentos como o açúcar, para que o organismo não se habitue a seu consumo.

O açúcar e a relação com ansiedade e hiperatividade

“A criança ainda não sabe o que é açúcar, não é uma boa saída portanto oferecer esse alimento. Além do mais, a criança fica mais agitada e inquieta – existem estudos que mostram a relação de hiperatividade com o aumento e a oferta antecipada do açúcar”, ressalta a nutricionista Renata Brasil.

Estudos recentes também mostraram a relação entre o cérebro e intestino através do nervo vago, reforçando que, quanto mais açúcar, mais o intestino se habitua a captar esse ingrediente, estimulando o nervo vago, e chegando ao cérebro de forma a disparar reações de ansiedade. “O nervo vago é um nervo que trabalha ansiedade emocional com disparos dessa ansiedade no trato digestório. Isso é super importante em crianças que têm TDAH e autismo“, relata a nutricionista Patrícia Alves Soares Lara, da Clínica Soloh de Nutrição. Ela lembra que produtos que misturam açúcar e excesso de sódio (sal) têm esse efeito de ansiedade potencializado.

“Infelizmente, no caso de crianças autistas, por exemplo, por causa da seletividade alimentar, esse é um problema sério. Os pais optam por deixar a criança comer o que consegue, em vez de comer o que seria saudável”, destaca Patrícia. Segundo a especialista, essas crianças já costumam ter problemas gastrointestinais crônicos que se agravam com a alimentação inadequada, alterando a permeabilidade intestinal, assim como sua resposta neural. “São geradas reações imunológicas que podem agravar os sintomas como irritabilidade, ansiedade, dificuldade para dormir. Para auxiliar essas crianças, a orientação é de exclusão de açúcar, glúten, soja e caseína, devido à essa alteração da permeabilidade intestinal”, complementa.

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O estudo

As análises foram feitas em camundongos, que possuem um sistema gustativo, ligado ao sentido do paladar, semelhante ao dos mamíferos. Filhotes e adultos dessa espécie foram expostos a uma variedade de sabores diferentes durante uma semana. Após o período, os camundongos voltaram à dieta original, com ração e água. Um outro grupo foi usado como controle, seguindo com a alimentação padrão para efeitos de comparação.

Tempos depois, os pesquisadores ofereceram aos animais uma solução adocicada para observar a preferência deles em comparação à água. Aqueles que eram filhotes durante o primeiro experimento se mostraram mais atraídos pelo sabor diferenciado na idade adulta, o que não ocorreu entre os camundongos que participaram da análise quando já eram mais velhos.

Os resultados indicaram que a experiência com a diversidade de sabores influencia a preferência alimentar, desde que aconteça dentro de uma janela de tempo restrita durante a infância.

“Foi impressionante descobrir como os efeitos duradouros da experiência inicial com o gosto eram nos grupos jovens. A presença de um ‘período crítico’ do ciclo de vida para o desenvolvimento da preferência pelo gosto foi uma descoberta única e empolgante”, diz Hillary Schiff, pesquisadora da universidade e autora principal do estudo, em comunicado.

Embora feito com animais, os cientistas afirmam que os resultados são replicáveis para humanos.

Manipulação do cérebro

Os cientistas também investigaram se manipular os chamados neurônios inibitórios na fase adulta poderia “reabrir” a janela de sensibilidade em relação à experiência com a diversidade de sabores. Os resultados mostraram que a intervenção “rejuvenesceu” as sinapses no córtex gustativo e restaurou a plasticidade em resposta à experiência gustativa. Para os cientistas, isso reforçou o papel dos neurônios inibitórios no processo de desenvolvimento da preferência alimentar.

Maffei acredita que os achados podem ajudar a esclarecer diversas questões relacionadas ao ato de se alimentar. “Expandir nosso conhecimento dos circuitos neurais do desenvolvimento de sabores – com estudos como este – contribuirá para nossa compreensão das escolhas alimentares, distúrbios alimentares e doenças associadas a distúrbios cerebrais”, diz a pesquisadora. (Com informações do jornal O Globo)

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