Diagnóstico precoce e reabilitação são cruciais em casos de surdez na infância

Causas da surdez em crianças podem estar relacionadas ao período intrauterino, medicações, malformações, mas a perda auditiva também pode ocorrer ao longo da vida da criança; reabilitação promove desenvolvimento emocional, educacional e social

172
Menino é examinado por médico, que analisa seus ouvidos com as mãos.
A surdez na infância pode apresentar diversos graus; causas e diagnósticos também são variados

Leia em 7 minutos

Assistir TV em um volume mais alto do que o dos outros membros da família, parecer frequentemente desatento, se frustrar facilmente com falhas de comunicação e até apresentar uma diminuição no rendimento escolar podem ser sinais de que algo não está normal com a audição da criança. Isso pode representar um quadro de surdez na infância e requer cuidados especiais para que a criança possa ter um desenvolvimento regular e sociabilidade saudável.  

Quanto mais cedo a avaliação auditiva e o diagnóstico for realizado, mais fácil será para a criança receber o tratamento ideal tanto por parte dos pais, quanto por parte de um profissional capacitado para lidar com o quadro de surdez.           

De acordo com o censo de 2010 realizado pelo IBGE, o Brasil contava com 10 milhões de surdos, o equivalente a cerca de 5% da população brasileira. Outro estudo, realizado em conjunto pelo Instituto Locomotiva e Semana da Acessibilidade Surda em setembro de 2019, contabilizou 10,7 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência auditiva no país. Apesar de a condição ser mais comum entre os mais velhos, 15% das pessoas com surdez adquirida foram diagnosticadas com a deficiência antes dos 17 anos. 

Causas são diversas

Na infância, a surdez pode surgir em qualquer idade e não há uma causa única, como ressalta a otorrinolaringologista Daniela Capra: “Desde o período intrauterino, durante toda a primeira infância e até depois, vários fatores podem ser responsáveis pelo aparecimento de surdez”.

Segundo a médica, durante o período intrauterino e neonatal, a permanência da criança em CTI por mais de 5 dias, o uso de alguns tipos de antibióticos que agridem o ouvido (medicamentos ‘ototóxicos’), a falta de oxigenação durante o parto e malformações na região da cabeça são algumas das causas principais de surdez.

No caso das crianças maiores, também é possível que ocorra perda auditiva: “Tanto de forma permanente, como nas perdas de origem genética de aparecimento tardio, infecciosas e traumas, por exemplo, como de forma transitória, ocasionadas por acúmulo de catarro na orelha média e outras alterações de orelha média”, explica Daniela Capra.

Otorrinolaringologista especializada em surdez na infância em consultório, com otoscópio e computador sob a mesa.
Daniela Capra é doutoranda em neurociência e especialista em Otorrinolaringologia pela Associação Médica Brasileira. | Imagem: arquivo pessoal

Até mesmo questões mais simples, como rolhas de cerúmen, também podem acarretar em algum grau de perda auditiva. Segundo o otorrinolaringologista Alexandre Colombini, alguns comportamentos podem contribuir para que a cera seja empurrada pelo ouvido, o que pode gerar complicações na audição tanto de adultos, quanto de crianças.

“Nunca usar nos ouvidos as hastes flexíveis com algodão na ponta, o famoso cotonete. Se você pegar a embalagem, está escrito para não introduzir no canal auditivo, pois você pode empurrar o cerúmen, levando à uma perda de audição transitória, pode fazer uma perfuração na membrana timpânica e machucar o ouvido”, comenta. Com isso, o especialista lembra que é importante que, caso seja feito o uso dos cotonetes, ele permaneça apenas na área externa dos ouvidos. 

Otorrinolaringologista Alexandre Colombini, de jaleco branco e braços cruzados
Dr Alexandre Colombini, médico otorrinolaringologista formado pelo Instituto Felippu, ressalta que a prevenção é muito importante para a saúde auditiva. | Imagem: arquivo pessoal

Diagnóstico precoce faz a diferença

Daniela Capra ressalta que existe uma série de testes e procedimentos específicos que são capazes de identificar a surdez na infância, dentre eles, o Teste da Orelhinha. “Esse teste é obrigatório por lei, ou seja, toda maternidade é obrigada a fornecê-lo.  É um teste de triagem auditiva, capaz de encontrar aqueles bebês com maior chance de ter algum problema no ouvido.”

Gabriela R. Ivo Rodrigues, fonoaudióloga especialista em audiologia e diretora clínica na Casa Caracol, explica que, se a criança não obteve um bom resultado no teste, é muito importante retornar e realizá-lo novamente. “A criança que continua com o exame alterado no reteste é encaminhada para uma avaliação auditiva realizada por meio de medidas objetivas. O PEATE [Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico] por frequência específica, também conhecido como BERA, deve ser realizado nestas crianças para determinar o tipo e o grau da alteração auditiva.”

Fonoaudióloga Gabriela Rodrigues, de óculos e jaleco branco
Gabriela Rodrigues é fonoaudióloga e diretora clínica da Casa Caracol. | Imagem: arquivo pessoal

O BERA é uma forma mais precisa de encontrar a surdez em bebês e crianças pequenas, avaliando todo o sistema auditivo. No caso de crianças maiores, as especialistas citam o uso da avaliação auditiva comportamental ou audiometria, dependendo da idade da criança.

“Atualmente temos inúmeros tratamentos disponíveis para a surdez e o diagnóstico precoce é fundamental para essa etapa. Quanto antes o diagnóstico da perda auditiva ocorrer e o tratamento for instituído, maiores as chances dessa criança se desenvolver de forma muito parecida a uma criança que nasceu ouvinte”, completa Daniela Capra.

Para isso, os pais devem prestar atenção em alguns sinais nas crianças e buscar a ajuda de um profissional o quanto antes, preservando a qualidade de vida da criança com surdez na infância.

Como perceber os sinais?

No caso de uma surdez adquirida após o nascimento, Daniela Capra exemplifica alguns comportamentos que podem ser sinais de que a criança não está ouvindo bem: falar mais alto do que o costume, chegar mais exausto da escola do que o normal e falar “o quê?” ou “ahn?” com frequência quando está conversando são alguns deles. Além disso, se seu filho olha para você com muita intensidade quando fala com ele – como se dependesse dos sinais visuais para interpretar a conversa – é possível que algo não esteja normal com a audição.

Em bebês, é possível também identificar sinais de surdez por meio do acompanhamento de alguns comportamentos esperados para cada fase do desenvolvimento, listados pela especialista:

  • Bebê recém nascido a 1 mês: chora como uma reação biológica à dor, fome, sono ou desconfortos, e apresenta vocalizações esporádicas. Acorda, assusta-se com sons intensos: uma porta batendo ou panela caindo, por exemplo. Presta atenção e acalma-se com a voz da mãe.
  • De 2 a 3 meses: o bebê já cresceu um pouco, e o choro passa a ser diferenciado (choro de fome é diferente de choro de dor, por exemplo). As vocalizações apresentam variação quanto à altura e duração, e a criança reage à fala humana: sorri, olha, vocaliza e apresenta atenção ao som.
  • A partir de 6 meses: a quantidade de vocalizações (vogais e consoantes) já aumenta, e barulhinhos com a garganta e balbucios já ocorrem. O bebê brinca com os sons que produz e apresenta balbucio diferenciado, com repetição de diferentes sílabas, como “aguuuu”, “rururu”. Nesta fase, o balbucio é uma forma de experimentar vários tipos de sons, e representa uma preparação importante para a linguagem falada.

Perceber algum tipo de atraso nas respostas auditivas dos filhos e no desenvolvimento ao longo do caminho para se expressar pela fala pode ser também um sintoma de perda auditiva. Caso os pais percebam alguns desses sintomas de forma significativa, é importante procurar um fonoaudiólogo com experiência em avaliação infantil para obter o melhor diagnóstico possível.

Reabilitação auditiva e estímulo da família

Quando a surdez é diagnosticada na infância, a reabilitação auditiva é um processo muito importante que deve ser buscado para garantir um bom desenvolvimento social, emocional e educacional da criança. “Reabilitar é proporcionar para alguém a possibilidade de recuperar suas funções ou habilitar uma função, e quando nos referimos à reabilitação auditiva incluímos aí desde o diagnóstico bem feito até os dispositivos existentes, que proporcionam o acesso aos sons”, explica Rilana Nascimento, fonoaudióloga especialista em linguagem e reabilitação auditiva em crianças e reabilitadora da Casa Caracol. 

Ela comenta que, como a criança desenvolve suas habilidades da fala também ouvindo sons e conversas, a surdez impacta nesse processo. “Existem vários métodos diferentes que podem ser utilizados com crianças deficientes auditivas, mas o objetivo de todos eles é que a criança tenha acesso aos sons de forma a desenvolver e estimular as habilidades auditivas.” São realizados exercícios que estimulem essas habilidades não de forma isolada, mas em conjunto para desenvolver também a linguagem e fala, que são essenciais para uma boa comunicação. 

Rilana Nascimento é fonoaudióloga e reabilitadora da Casa Caracol. | Imagem: arquivo pessoal

O bom desenvolvimento da criança e sua vivência em sociedade, na visão da reabilitadora, depende da junção entre “envolvimento da família, tecnologia certa e terapia especializada”.

A otorrino Daniela Capra também ressalta a importância da família quando é diagnosticado um quadro de surdez na infância em qualquer grau. Ela considera essencial que a criança “não seja reduzida apenas à condição funcional de seu corpo”.

 “É preciso estimular sua autonomia, sua capacidade plena de brincar, estudar, conviver com seus colegas, tomar suas decisões desde pequenininha, assumindo que essa criança não é diferente das demais”, finaliza a especialista.


LEIA TAMBÉM:


Gostou do nosso conteúdo? Receba o melhor da Canguru News semanalmente no seu e-mail.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, deixe seu comentário
Seu nome aqui