Ômicron nas crianças: variante mais transmissível deve ser motivo de alerta para os pais?

Nova cepa do coronavírus tem gerado muitas dúvidas, principalmente, entre pais de crianças não vacinadas. Afinal, há motivos para se preocupar? Veja o que dizem o pediatra e infectologista Renato Kfouri e o médico geneticista David Schlesinger

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Criança de máscara observa com o rosto preocupado desenhos da variante ômicron e os efeitos da ômicron em crianças
Muitos pais se preocupam com a variante ômicron, devido à não vacinação dos filhos. Entretanto, não é preciso pânico.

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Após a confirmação durante o mês de novembro de uma nova cepa do coronavírus na África do Sul, algumas incertezas a respeito da covid-19 e o cenário pandêmico surgiram novamente entre a população. Agora presente em vários outros países além do continente africano, incluindo o Brasil, a variante ômicron gera preocupações devido a sua maior transmissibilidade, e gera dúvidas principalmente entre os pais de crianças não vacinadas. O aumento no número de casos em adultos e aumento nas internações de bebês e crianças na África do Sul acentuou o alerta, e tem deixado os pais preocupados com a possibilidade de um cenário semelhante no Brasil. 

Entretanto, não há motivos para pânico. David Schlesinger, médico geneticista e CEO (chefe executivo) da Mendelics, laboratório que participa ativamente do sequenciamento do vírus para monitoramento de novas cepas, explica que as características da nova variante ainda precisam de mais dados para serem avaliadas, e não há nada que comprove uma maior suscetibilidade das crianças para essa cepa. “Pessoas não vacinadas em geral estão mais suscetíveis a contrair Covid, mas ainda não há informações suficientes para afirmar que as crianças estão mais vulneráveis a essa infecção pela variante ômicron”, diz o especialista.

David Schlesinger, médico geneticista e CEO da Mendelics
David Schlesinger, médico geneticista e CEO da Mendelics | Imagem: Divulgação

Recentemente, em seu Instagram, o pediatra Flávio Mello também ressaltou que, apesar de os cuidados com as crianças serem essenciais, assim como a preocupação com a vacinação, o surgimento da ômicron não é um pretexto para grande alerta dos pais em relação aos filhos pequenos. Ele cita em seu post um relatório feito a respeito do número de casos e hospitalizados em Tsuane, município da província de Gauteng, a mais populosa da África do Sul, que revela um aumento significativo nas infecções por SARS-CoV-2 na região, mas, dentre os admitidos nas alas de covid-19 do hospital, a maioria não foi dependente de oxigênio. De um grupo de 42 pacientes na ala em 2 de dezembro, 29 deles não precisaram de oxigênio, ou seja, 70% do grupo. O pediatra também ressalta que os internamentos de crianças foram por no máximo 3 dias, com quadros leves e, na grande maioria, feitos por precaução dos médicos.

Variante de preocupação

Parte da insegurança em relação à ômicron nas crianças e também nos adultos, de forma geral, vem do fato de que a variante foi classificada como uma variante de preocupação pela OMS. “O nome é dado justamente quando uma variante acumula mutações que a tornam mais transmissível, fazendo com que ela ganhe um protagonismo na região em que ela foi identificada pela primeira vez”, explica Renato Kfouri, infectologista, pediatra e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações.

O especialista pontua que as mutações se concentram em geral, para ser uma variante de preocupação, na porção que adere o vírus ao nosso tecido respiratório. Logo, como essas mutações às vezes fazem com que a proteína S, que adere à nossa superfície, ganhe mais afinidade e se integre mais facilmente em nossas vias respiratórias, ela traz essa preocupação. “Ainda é cedo para dizer em relação a outras características, como gravidade e vacinas, mas essa primeira característica chamou atenção porque ele acumulou muitas mutações. Muitas que já vinham na alfa, na beta, gama e delta, com outras novas que tornaram essa afinidade do vírus pelas nossas vias respiratórias maior”, completa Kfouri.

David Schlesinger também ressalta que com as mutações e outras alterações na região codificadora da proteína Spike, proteína usada pelo novo coronavírus para entrar nas células humanas e alvo dos anticorpos produzidos pelo sistema imunológico depois da contaminação pelo SARS-CoV-2 ou vacinação, foi observada uma transmissão em maior escala da ômicron após o primeiro caso confirmado no continente africano. “Após a identificação da variante, as infecções do novo coronavírus aumentaram abruptamente na África do Sul, indicando que as mutações impactam na transmissibilidade do vírus. Assim, ela passou a ser considerada uma variante de preocupação.”


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Ômicron nas crianças: é mais grave?

Apesar da não vacinação das crianças ainda ser motivo de cuidado com os pequenos, não há sinais ou comprovações de que a variante ômicron atinge com mais frequência ou com maior gravidade as faixas etárias menores, ou qualquer outra. “Não há nenhuma evidência de que crianças tenham uma maior ou menor sensibilidade a essa variante. Para qualquer variante, as crianças hoje respondem por uma porcentagem maior de casos em função da vacinação dos adultos”, ressalta o infectologista Renato Kfouri. Ele explica que há um aumento percentual de casos entre crianças e adolescentes, mas isso não representa um aumento efetivo no número total de casos de covid-19 entre esse público: “Quando nós tínhamos cem casos e dois eram em crianças, as crianças representavam 2% dos casos. Hoje a gente tem trinta casos, em função da vacinação, e os mesmos dois em crianças. As crianças passaram de dois em cem para dois em trinta. Consequentemente, o percentual nessa faixa aumentou.”

“É percentual, há um aumento proporcional das crianças, e não em número absoluto. Porque se você vacina os adultos, você desvia para as crianças, para os não-vacinados, uma proporção maior de casos. Mas a variante ômicron não possui nenhuma predileção por crianças até agora demonstrada”, completa Kfouri.

Infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, fala sobre a ômicron nas crianças
Infectologista Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações | Imagem: Divulgação

Cenário ainda é incerto, mas vacinação traz mais segurança

Devido a sua descoberta ainda recente, é cedo para concluir diversas dúvidas a respeito da gravidade, transmissibilidade e comportamento da variante, assim como o impacto da vacinação nos sintomas e no número de casos. “Ela ainda vai ser desafiada em diversos cenários. Com populações mais vacinadas, menos vacinadas, vacinadas com vacina A, B e C, populações vacinadas recentemente, outras há mais tempo, com ou sem dose de reforço. Então nós precisamos de mais tempo para entender se esses casos que serão causados pela ômicron terão quais comportamentos nesses diferentes cenários e países”, diz Renato Kfouri.

Entretanto, já se sabe que o avanço da vacinação é fundamental para evitar a piora no cenário pandêmico, e pesquisas já demonstraram que a vacinação permanece importante para proteger contra casos graves, inclusive em infectados pela ômicron. A cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan, também declarou em coletiva que a variante é realmente muito transmissível, mas isso não é motivo para pânico a respeito do cenário pandêmico, pois o desenvolvimento das vacinas tornou o mundo mais bem preparado para enfrentá-la: “Até que ponto devemos ficar preocupados? Precisamos estar preparados e cautelosos, não entrar em pânico, porque estamos em uma situação diferente de um ano atrás”, disse a especialista durante a entrevista.

Além disso, testes laboratoriais da Pfizer e BioNtech apresentados na quarta-feira (08), embora tenham mostrado, a partir de dados preliminares, uma queda na proteção da vacina diante da nova variante, também revelaram um aumento significativo no número de anticorpos neutralizantes com a aplicação de uma terceira dose, que já está sendo aplicada em crianças de 5 a 11 anos em países como Estados Unidos e Canadá. Outros fabricantes, como a Moderna, já consideraram a produção de uma vacina específica para a ômicron para 2022, visando garantir uma maior cobertura contra a nova cepa.

Enquanto mais estudos ainda são feitos, não é preciso uma preocupação diferenciada em relação à ômicron nas crianças. Assim como nas outras variantes, cuidar dos pequenos, manter uso de máscaras e evitar aglomerações ainda é importante enquanto a vacinação para essas faixas etárias não iniciam no país. “Apesar de crianças em geral sofrerem sintomas de Covid mais brandos, elas podem transmitir o vírus”, lembra David Schlesinger.


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