‘Quero ver jovens líderes mudando o mundo’, diz Malala

Em curso online, Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz ressalta que educação é muito mais do que ler e escrever, aborda seu papel transformador e diz ter esperanças no ativismo

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‘A educação realmente pode transformar a vida de uma pessoa’, diz Malala Yousafzai
Malala diz acreditar no poder transformador da educação, especialmente, na vida das meninas | Créditos: Apple/Divulgação

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Ícone global, hoje com 24 anos, Malala Yousafzai, ativista em defesa da educação e Prêmio Nobel da Paz, entende o processo formal da educação como uma ferramenta para abrir oportunidades e permitir o desenvolvimento de outras habilidades no futuro. “Percebi que a educação era mais do que ler e escrever, para mulheres e meninas. Se tratava do empoderamento, da emancipação delas”, afirmou, ao longo de aula, produzida em formato de entrevista, no curso online gratuito “Certificação em Liderança, Capacidade de Aprender e Resiliência”, promovido pela PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).

No momento em que a tragédia do Afeganistão com o retorno do Talibã ao poder atrai as atenções mundiais, a fala de Malala é ainda mais emblemática. Em 9 de outubro de 2012, aos 15 anos, Malala Yousafzai voltava da escola para casa em Swat Valley, no Paquistão, quando foi atingida na cabeça por um tiro vindo de membros do grupo extremista Talibã. O movimento tinha como parte de suas diretrizes proibir o acesso de mulheres à educação, e a estudante desde então lutava publicamente pelo direito das meninas de frequentarem a escola.

Conteúdo da educação formal X habilidades adquiridas

Agora Graduada em Filosofia, Política e Economia na Universidade de Oxford, curso que completou em 2020, Malala disse que é uma “formanda da covid”. Na aula gratuita, ela falou sobre sua experiência acadêmica, “quando você vê que não aprende apenas com aulas e livros, mas também com as pessoas que estão ao seu redor, professores e amigos”. A formação em Oxford, além de relevante para sua vida não só acadêmica, mas social, possui um papel essencial em sua visão para desenvolver habilidades de processar novas informações. “Para mim existem duas coisas: uma é o conteúdo e a informação que você recebe na sua vida acadêmica, que são importantes. Mas, além disso, há as habilidades que você desenvolve.” Assim, a educação permite que os indivíduos possam discernir o que é fato e o que não é em meio ao grande volume de informações às quais tem acesso, advogou.

Segundo Malala, “a educação realmente pode transformar a vida de uma pessoa”. “E para uma menina, o impacto da educação é imenso, especialmente se você vive numa sociedade patriarcal, onde há misoginia. As oportunidades são limitadas apenas por causa do gênero, a educação lhe dá os meios e as ferramentas através dos quais você pode ter acesso a oportunidades que não teria.” Em muitos países, complementou, “a educação se tornou um meio de proteção”. Ajudar a tornar realidade a garantia de direitos e oportunidades de acesso à educação para meninas ao redor do mundo é parte de sua vida, disse.

“Quando uma mulher é educada, ela pode cuidar de si mesma, e também de seus filhos, para que haja uma sociedade saudável.”


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Malala disse, ainda, que os “exemplos têm um papel fundamental na vida”. “Fui inspirada pela jornada de Martin Luter King e Nelson Mandela”, afirmou, acrescentando também Benazir Bhutto (primeira mulher a ser primeira-ministra paquistanesa) como uma de suas referências e inspirações.

“Quero ver jovens líderes, e quero ver essas jovens mudando o mundo. E se isso acontecer, quero ver em todos os cantos do mundo.” O impacto que o acesso à educação traz para a vida das pessoas ocorre tanto na esfera pessoal, quanto na profissional.“A educação lhe dá as ferramentas e os meios através dos quais você pode ter acesso às oportunidades, de que outra maneira você não teria”, diz. Malala transmite esperança em relação ao futuro, e ressalta o papel importante da educação das crianças para mudar o mundo: “Vemos meninas ativistas pelo mundo, elas estão desafiando leis de armamentos, falando sobre a mudança climática, estão dizendo a verdade aos líderes. Isso me dá esperança, e o que quer que venha no futuro, estou animada para isso”, finaliza.

Malala revelou cobranças internas que tem consigo mesma para ajudar outras jovens que não possuem a oportunidade de estar na escola. “Quando você está em uma posição melhor, quando você tem os privilégios e as oportunidades, quando pode fazer alguma coisa, por que não fazer?”, ela questiona.

Hoje, por meio do Fundo Malala, ela atua em prol do acesso de crianças à uma boa educação em oito países ao redor do mundo, incluindo o Brasil. Especialmente no caso de meninas negras e indígenas, o trabalho é diminuir as taxas de evasão escolar e garantir sua educação em parceria com ativistas brasileiros. “Posso não ter as respostas de como resolver os problemas no Brasil, mas sei que nós podemos trabalhar junto com a sociedade civil para criar uma sociedade onde as meninas possam ter acesso a oportunidades iguais.”

Crise humanitária urgente

No momento em que o curso da PUCRS foi gravado, no mês de julho, o cenário geopolítico global ainda não contava com a retomada de poder do Talibã no Afeganistão. Contudo, em entrevista recente ao The Guardian utilizada como parte da fala de Malala na aula, a jovem comenta sobre sua preocupação com o cenário de volta do grupo e das restrições aos direitos das mulheres afegãs. “Esta é uma crise humanitária urgente, para a qual devemos prover nossa ajuda e suporte. Não podemos apenas focar em nossas questões e não fazer nada a respeito, e não apenas politizar sobre o que deve acontecer, o que não deve acontecer. Isto faz parte do nosso trabalho futuro, mas agora devemos garantir a segurança das pessoas no Afeganistão”, diz.

As demais aulas do curso da PUCRS foram disponibilizadas na quarta-feira (25), com a participação do professor e historiador Leandro Karnal e do empreendedor Flávio Augusto.


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