Como falar sobre a morte com as crianças

Se para os adultos esse é um momento de dor e sentimentos confusos, para as crianças, falar sobre a morte pode ser ainda mais complexa

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Para falar sobre a morte com as crianças não é preciso inventar histórias e sim dizer a verdade de forma simples e em linguagem acessível à idade dos pequenos. Nessa imagem, é possível ver os braços do pai segurança os do filho, no que parece ser uma conversa honesta
Falar sobre morte com as crianças

Leia em 4 minutos

Falar sobre a morte hoje, infelizmente, se tornou algo mais comum. Aqui e ali, se ouve algum adulto conversando sobre isso. Em plena pandemia, é normal que o assunto venha à tona com mais frequência – e que as crianças escutem. Sua família ou famílias próximas podem ter perdido alguém querido para a Covid-19. Mas como falar sobre morte com os pequenos? Muitos pais não sabem como agir – alguns optam por criar metáforas como ‘virou uma estrela”, outros usam o recurso da religião ou ficam adiando o assunto para não ter que revelar a verdade. Vivenciar uma morte na família é uma experiência pela qual ninguém quer passar. E quando ocorre de forma trágica ou inesperada, pode ser anda mais traumática. Se para os adultos a situação é dolorosa, para as crianças pode ser ainda mais complexa. Nessas horas, é importante saber como falar com os pequenos sobre o tema, para que possam viver o luto de forma saudável.

“Se a morte nos causa um sentimento tão confuso, tão dolorido e as vezes até cheio de culpas, imaginem o que se passa na cabecinha das nossas crianças. Como assim, ‘morreu’?  Foi ali e já volta?”, comenta Fernanda Mappa, presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (seção Espírito Santo).

Como a criança entende o assunto, a depender de sua idade

Ela explica que até aos três anos a criança não consegue entender que a morte é definitiva e irreversível. Dos 4 aos 7 anos, já há compreensão do aspecto irreversível da morte. “A criança entende que o avô falecido não volta mais e o gato que morreu não estará mais na casa. Porém, não faz distinção entre o valor de uma perda humana ou de seus animais”, relata Fernanda.  

A partir dos sete anos, a criança já tem uma capacidade maior de compreender o significado da morte e de sentir o quão doloroso e angustiante é perder para sempre alguém que lhe é querido, seja uma pessoa da família e/ou animal de estimação.

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Segundo a psiquiatra, os adultos devem falar sobre a morte com as crianças de forma verdadeira e honesta, abordando o assunto com respostas claras e acessíveis às suas curiosidades e dúvidas. Nessas horas, muitos pais tendem a querer proteger os filhos, evitando contar a verdade, mas essa não é a melhor saída. “Quando uma criança é protegida desse impacto emocional e nenhum familiar clarifica esse assunto, ela irá crescer num mundo de ilusão e terá, mais tarde, dificuldades em lidar com a perda e o luto”, ressalta Fernanda. As crianças personificam a morte. Imaginam que ela seja uma figura da qual podem escapar ou enganar. É preciso explicar que não é assim que funciona.

Dizer que a pessoa “virou uma estrelinha” é recomendando?

Ao falar sobre a morte com as crianças, a psiquiatra orienta evitar explicações como que “a pessoa dormiu para sempre”, “descansou e virou estrelinha” ou ainda “foi fazer uma longa viagem”, “foi embora”. “A criança leva tudo ao “pé da letra” e pode ficar com medo na hora de dormir ou achar que a pessoa que morreu acordará. A expressão também pode confundir a criança e levá-la a acreditar que todos aqueles que farão uma viagem nunca mais voltarão ou, então, que a pessoa morta poderá voltar um dia”, explica a psiquiatra.

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Já a psicóloga infantil Flavia de Arruda Gomes diz que não existe uma metáfora ou mesmo uma explicação certa para falar sobre a morte com as crianças. O importante é encontrar o modo mais verdadeiro de se expressar, de acordo com seus valores e crenças. “Alguns falam que quem morreu virou estrelinha, outros usam o recurso da religião. Se uma família não for religiosa, pode falar que a vida acabou e que a pessoa vai retornar à terra e se transformar numa sementinha que vai crescer”, esclarece a psicóloga. Mais do que o impacto das palavras, segundo a especialista, as crianças percebem e absorvem o comportamento ao seu redor.

3 questões importantes para falar sobre a morte com as crianças

Segundo a psiquiatra infantil Fernanda Mappa, há três aspectos importantes que as crianças precisam entender aos poucos com a ajuda dos pais: 

  • A universalidade – tudo que é vivo um dia vai morrer.
  • A irreversibilidade – se uma pessoa ou animal morre, não há mais volta.
  • A não-funcionalidade – depois de morto, o ser não corre, não dorme, não pensa, não age.

Sinais que indicam dificuldade de aceitar a perda

Em situações como essa, algumas crianças voltam a falar como bebê ou fazer xixi na cama, o que pode indicar uma dificuldade em superar a perda. Alguns se tornam mais introspectivos e passam a esconder os sentimentos e nesse caso buscar um tratamento com terapeuta pode ajudar muito. 

Algumas crianças também podem passar a “brincar de morto”, que é a forma que elas encontram de formular o assunto de maneira lúdica. “Junto com as pequenas mortes do dia a dia, como a dos insetos, plantas e pequenos animais, são um bom treino para entender a sequência da vida e pode facilitar na hora de lidar com a morte de alguém próximo”, relata Fernanda.

Passado um tempo, acontece o chamado luto saudável, quando a criança percebe que é possível se lembrar do ente querido de forma leve e sem sofrimento. 

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