7 critérios que os pais devem observar na hora de escolher a escola do filho

A proposta pedagógica, o ensino híbrido, os protocolos sanitários, a gestão de conflitos e defasagens na alfabetização são alguns dos aspectos destacados por gestores e educadores ouvidos pela Canguru News

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Temporada de matrículas: 7 critérios a observar na escolha da escola
Perdas e sofrimentos vividos na pandemia podem se manifestar nos conflitos nas escolas, relata a professora de psicologia Luciene Tognetta

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É preciso muita pesquisa, visita e conversa com diretores e coordenadores pedagógicos para poder tomar uma decisão acertada quanto à escolha da escola para os filhos. Se antes essa já era uma tarefa trabalhosa e que exigia tempo, agora, com a pandemia, alguns pais se tornaram ainda mais críticos, após acompanhar “de perto” o trabalho em sala de aula durante o ensino remoto. Alguns gostaram do que viram, outros, não muito, a ponto de fazê-los querer mudar o filho de escola. A maneira como a instituição conduziu o ensino híbrido é um dos aspectos apontados pelos especialistas como um dos motivos que deve movimentar a mudança de escola de muitas famílias neste ano. Os protocolos adotados para evitar a transmissão da Covid-19 no ambiente escolar também têm sido levados em conta. Ainda, um possível retorno do ensino público ao privado e de escolas mais baratas para mais caras também é previsto entre famílias que tiveram de fazer essa mudança devido a dificuldades para pagar a mensalidade escolar, mas frente a uma pequena melhora financeira tendem a procurar por escolas que atendam melhor suas demandas.

E para começar essa busca é fundamental averiguar qual é a proposta pedagógica da instituição, seus princípios e valores, e se eles estão alinhados com o da família e o perfil do aluno. Renato Júdice, diretor da unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco, em São Paulo, comenta a importância e os riscos da falta desse alinhamento. “Combinar a metodologia da escola com o perfil de seu filho é essencial, e o risco de não analisar isso é muito grande, pois vai fazer os três sofrerem – a família, que vai ver que algo não está funcionando; a escola, porque vai ter que fazer atendimentos com aqueles pais questionando seus valores e crenças pedagógicas; e o que é pior, a criança vai sofrer, pois ela vai estar em um lugar que não conversa com ela, que não é apropriado ao jeito e ao perfil dela”, afirma o diretor.

“Recomendo fortemente que os pais se dediquem a tentar entender o perfil do filho e qual escola melhor se adapta a esse perfil”, afirma Renato Júdice, diretor da unidade Higienópolis do Colégio Rio Branco, em São Paulo.

Renato recorda que diferentemente de outros aspectos, como a infraestrutura da instituição, o projeto pedagógico pede uma pesquisa mais atenta. “Minha recomendação aos pais é que gastem tempo nesse aspecto porque é importante e complexo. É diferente de visitar uma escola que tem salas amplas e bem arejadas, o que pode ser observado durante a visita. Já a metodologia exige interações, pesquisas, buscas, às vezes até fora da própria escola. Recomendo fortemente que os pais se dediquem a tentar entender o perfil do filho e qual escola melhor se adapta a esse perfil”, afirma o diretor. A seguir, saiba mais sobre esse e outros aspectos destacados por diretores e educadores ouvidos pela Canguru News que os pais devem considerar durante a escolha da esocla para os filhos.

1. Visão de mundo

Além dos conteúdos básicos obrigatórios, a escola tem um papel importante na formação pessoal do aluno. Habilidades como autonomia, senso crítico e respeito ao outro devem ser trabalhadas no dia a dia escolar, segundo os valores e princípios de cada instituição. Por isso, durante a escolha da escola, é preciso entender a filosofia da escola e sua visão de mundo. “A gente vive hoje em um mundo polarizado, com muitas ideias sobre a vida política, a educação, e acho que escola é uma extensão da família, então, então em primeiro lugar a família deve escolher uma escola em que essas visões estejam muito bem alinhadas”, ressalta Marcia Regis, diretora geral do Colégio Mackenzie São Paulo.

2. Proposta pedagógica

Toda escola tem um projeto político-pedagógico (PPP) que detalha objetivos e metas a alcançar e ações concretas para realizá-los. Como os conteúdos são trabalhados em sala de aula, os livros didáticos ou apostilas adotados e a maneira de avaliar os alunos em cada nível de ensino são alguns dos aspectos explicados no documento, que terá como viés a linha educacional da escola. Entre as mais conhecidas estão a metodologia tradicional, que costuma dar mais ênfase ao conteúdo, aulas expositivas e processos seletivos para ingresso em universidades; e a construtivista e socioconstrutivista, que valorizam a construção do conhecimento com participação do aluno. Há também a linha Waldorf, que busca desenvolver plenamente as capacidades dos alunos e prioriza trabalhos manuais; e a pedagogia montessoriana, mais comum na educação infantil, que estimula a concentração e as percepções ligadas a sentido e movimento para promover o aprendizado. A diretora do Mackenzie diz que o ideal, durante escolha da escola, é procurar uma instituição que dê continuidade aos valores da famílias. “Aquelas com uma visão mais liberal, o ideal é procurar uma escola que não seja tão rígida a conceitos disciplinares. A gente vê muitos pais que querem colocar o filho numa instituição tradicional, que prepara para o vestibular, mas o filho tem um viés mais artístico. É preciso alinhar expectativas da família com o que a escola oferece”, avalia Marcia Regis.

3. Ensino híbrido

Fazer funcionar as aulas remotas foi um desafio para muitas escolas, principalmente aquelas que até então faziam pouco ou nenhum uso de ferramentas tecnológicas. Além disso, manter a interação com os alunos e saber avaliá-los à distância e dosar o tempo de aula e de tarefas exigiu um bom preparo por parte de professores e gestores pedagógicos. As escolas que conseguiram manter a rotina escolar online sem grandes percalços chamaram a atenção de pais que valorizam essa característica. “Nesse período pós-pandemia, fica o aprendizado de poder oferecer opções de aula online e metodologias ativas, a personalização do ensino, com uma composição de diferentes tipos de avaliação, que permitam avaliar com segurança. Acho que isso é um olhar interessante na hora da escolha da escola, porque mostra que ela está preparada para o que possa vir a acontecer daqui para a frente”, comenta Marcia Regis.

4. Protocolos sanitários

É válido lembrar que as escolas são regularmente acompanhadas e inspecionadas pela secretaria de educação do governo local, por meio das diretorias de ensino. Para reabrir, todas as instituições tiveram que apresentar um plano de retomada, de acordo com as exigências estabelecidas pelos órgãos público e autoridades de saúde em cada fase da pandemia. “Aspectos na entrada e saída dos alunos, se as máscaras continuam sendo obrigatórias, se há dispositivos para higienização de quem chega da rua, se o distanciamento está sendo respeitado, todos esses fatores são indícios de que isso será cobrado do aluno dentro da escola também”, comenta o diretor do Colégio Rio Branco. Ele diz ainda que o colégio só tem permitido a entrada na instituição de estudantes e funcionários, como forma de aumentar a segurança. “Outro aspecto que pais podem olhar durante a escolha da escola é quanto à comunicação. Os pais podem questionar como a escola está comunicando às famílias os casos suspeitos e confirmados de coronavírus, e os alunos que são afastados. Isso pode dar muito indício para os pais, tanto de aspectos de responsabilidade da escola, quanto de vontade na definição da parceria família-escola”, relata Renato Júdice.

5. Socialização e acolhimento

O longo período de isolamento social, sem contato com amigos e professores, pede um olhar atento dos pais às estratégias promovidas para receber os alunos. “Se há planejamentos bem estruturados, que contemplem desde projetos de acolhimento, socialização, troca e escuta ativa aos conteúdos conceituais”, destaca Evelyn Cassillo, professora de pedagogia e pós-graduação em Alfabetização e Letramento na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid). Em relação às crianças menores, da educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental, Evelyn diz que na primeira infância, dos zero aos seis anos de idade, as crianças estão em formação de personalidade e aprendem por meio da interação com seus pares, com a troca, as experiências concretas e vivências, o que foi bastante afetado durante o período de isolamento social. “É importante que os pais procurem saber se o planejamento envolve as dimensões cognitiva, motora e afetivo/social, trabalhando dessa forma, o desenvolvimento integral da criança”, diz a professora.

6. Bullying e a gestão de conflitos

Questões de saúde mental vieram à tona com o isolamento social, devido às perdas para a Covid-19 e ao distanciamento de familiares e amigos. Crianças e adolescentes, tanto quanto os adultos, também foram afetados e sofrem com preocupações e sentimentos como medo, tristeza e falta de expectativa de futuro. Para Luciene Tognetta, professora doutora do Departamento de Psicologia da Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara (SP), é bem provável que com a volta às aulas esses sentimentos se manifestem e provoquem conflitos como brigas, desrespeitos e ofensas. “O impacto da ausência de relacionamentos e da experiência em resolver conflitos com seus pares, somando-se a tudo o que a criança/adolescente pode ter vivido no momento de pandemia, inclusive agressões domésticas e crises entre os pais, serão sentidos no retorno às aulas. Assim, situações de bullying, de outras violências ou mesmo sofrimentos, podem acontecer”, prevê Luciene, que coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) na Unicamp/Unesp. Neste momento de escolha da escola, ela orienta os pais a que procurem uma instituição que seja acolhedora e tenha como princípio a convivência, o que, salienta, é garantia da lei no Brasil. Trabalhos em pequenos grupos, tempo para os recreios, atividades em roda e planejamentos coletivos são exemplos que Luciene dá de como a escola pode atuar em relação aos conflitos. “Muiita gente vai achar que é preciso uma escola que tenha mais adultos, mais câmeras e mais e mais regras, mas o que faz com que o bullying não esteja presente não é a maior presença de adultos, e sim a experiência de poder participar da elaboração das regras da escola, dizer o que pensa, dizer o que sente, resolver os conflitos diretamente com os envolvidos e não com punições como os bilhetes aos pais ou suspensões”, reforça a professora.

7. Defasagens na alfabetização

“Neste momento de retorno, é crucial que a escola mapeie as dificuldades dos alunos e, no caso da alfabetização é possível que o professor faça uma avaliação diagnóstica com cada criança para saber em qual nível da alfabetização ela se encontra, ou seja, o que a criança sabe sobre o sistema de escrita”, explica a professora da Unicid. É a partir dessa avaliação que o professor pode planejar atividades com habilidades e objetivos de aprendizagem que precisam ser desenvolvidos de forma a garantir o progresso de cada criança. Ana Kerina França, psicopedagoga e professora de Educação Infantil há quase 30 anos, do Rio de Janeiro, explica que nessa fase de alfabetização, é preciso mostrar as regularidades das letras, semelhanças e diferenças, e fazer com que as crianças percebam os sons iniciais e finais das palavras, por meio da escrita em caixa alta. ”Durante escolha da escola, os pais podem procurar saber se há textos expostos em blocões, canções, poesias, parlendas e advinhas para auxiliar as crianças na prática da leitura e escrita, mesmo que durante as aulas remotas”, diz Ana Kerina. Ela complementa que estímulos visuais também são necessários para que as crianças avancem em suas pesquisas sobre a língua escrita. “Os pais também podem questionar sobre o projeto pedagógico da escola, para entender como se dá a avaliação das crianças, nesse processo de letramento”, pontua a psicopedagoga e co-fundadora do Projeto Professor Feliz e da Plataforma Educacional MultiSaberOnLine.



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