Você corrige o dever de casa do seu filho?

Especialistas em educação explicam que prática de corrigir dever de casa das crianças pode prejudicar o processo de aprendizagem

Mãe ajuda filha a fazer dever de casa, em ilustração à matéria que fala se os pais devem corrigir o dever de casa dos filhos.
Pais devem garantir a organização para que os filhos consigam fazer o dever de casa, mas não devem fazer o dever pelos pequenos

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Ao revisar a tarefa de casa do filho, quem nunca ficou com vontade de dar aquela “mexidinha” no texto ao ver que a resposta não estava correta? Para muitos pais, é mesmo difícil resistir à tentação e deixar de corrigir possíveis erros. Mas especialistas em educação são unânimes em afirmar que cabe às crianças – e não aos pais – fazer os seus deveres, para que não haja distorção da visão que o professor tem do aluno, o que poderia interferir no processo de aprendizagem. 

“É muito comum as famílias sentirem o ímpeto de corrigir o dever de casa do filho até mesmo na expectativa de que estão fazendo o melhor, mostrando a ele o ‘jeito correto’ de se fazer as atividades”, diz Christine Lourenço, coordenadora pedagógica do Pensi, no Rio de Janeiro. “Mas essa prática é altamente prejudicial às crianças, considerando-se aspectos emocionais, cognitivos e acadêmicos”, afirma ela. 

Christine aponta a importância dos erros para o processo de aprendizagem. “A neurociência nos mostra que os erros são cruciais para o aprendizado de estudantes, portanto é importantíssimo que escola e família criem um ambiente tolerável ao erro de forma que crianças possam maximizar a consolidação da aprendizagem”, declara. Ela destaca também que, dependendo da forma como for feita essa correção pelos pais, ela pode gerar ansiedade na criança.

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Elody Nunes Moraes, professora do quinto ano do ensino fundamental na Escola Nossa Senhora das Graças, em São Paulo, também afirma que é importante que as crianças façam os deveres sozinhas. “De modo geral, o aluno precisa fazer a tarefa de casa com autonomia. Porque, com a tarefa, queremos avaliar se o aluno conseguiu aprender os conteúdos, se quando ele lê o exercício ele consegue entender sozinho”, explica a professora. 

Pais adeptos da prática de corrigir o dever de casa dos filhos podem estar, na verdade, mais preocupados em como a identidade da criança pode refletir nas próprias identidades deles. É o que afirma a psicanalista Elisama Santos, autora dos livros “Educação não violenta” e “Por que gritamos”. Em uma live realizada no Instagram @filhosweb, com a psicopedagoga Christiane Fernandes, Elisama falou um pouco sobre o tema. 

“Eu não sou somente Elisama. Eu sou Elisama, a mãe de Miguel. Se Miguel for uma criança que não estuda e que tira zero, eu sou Elisama, mãe do menino que tira zero”, explica. “Eu não quero ser a mãe desse menino, eu quero ser a mãe do menino perfeito. Nós queremos ser mães e pais de crianças perfeitas”, acrescenta. Segundo a psicanalista, os pais devem refletir sobre isso, pois a correção das atividades interfere na relação das crianças com os estudos. “Quanto mais eu resolvo, menos as crianças serão capazes de resolver o problema sozinhas”, declara. 

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O que os pais podem fazer para ajudar nos estudos dos filhos de forma efetiva? 

O papel dos pais é crucial, mas eles devem agir como mediadores e curadores no processo de aprendizagem, de acordo com a coordenadora pedagógica Christine. “Cabe aos alunos o protagonismo em relação à sua aprendizagem e aos docentes o papel de mentoria dos estudantes. Os pais não são educadores e nem deveriam sê-lo. São incentivadores dos filhos e filhas”, defende. Ela aponta como papel dos pais incentivar o gosto pelo estudo, auxiliar na organização de matérias e conteúdos e ajudar na mediação de dificuldades, guiando-os às melhores formas de conseguirem superar obstáculos. 

Já a professora Elody aponta que os pais devem cuidar da rotina, estabelecendo um horário para os estudos, garantindo um espaço para que a criança possa fazer seu dever de casa e garantindo o silêncio para que a criança se concentre. Também é preciso sempre se certificar de que a criança faça a tarefa e não passe o horário estabelecido para os estudos jogando ou brincando. 

Quando há dúvidas das crianças e os pais souberem a resposta, não há problema em responder. O que não pode acontecer é os pais fazerem as atividades de dever de casa para os filhos. Christine acrescenta que os pais podem ensinar os filhos a buscarem respostas quando as dúvidas aparecerem. “Quando as crianças apresentarem dúvidas, os pais podem descobrir junto com a criança, conduzindo-a no processo de abrir o livro e procurar, procurar na internet mostrando sites confiáveis e não confiáveis, anotar para perguntar a alguém que tenha expertise no assunto”, sugere. 

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“Mais importante que encontrar a resposta é a criança entender o processo para se chegar a essa resposta. Assim, ela CONSEGUE criar mais autonomia em relação aos estudos. Não é apenas sobre ‘aprender’ e sim sobre ‘aprender a aprender'”, diz Christine Lourenço, coordenadora pedagógica. 

No entanto, se a dúvida for sobre algum conteúdo mais específico das aulas, Elody incentiva procurar os professores, principalmente agora com o ensino a distância durante a quarentena pela pandemia do novo coronavírus. “O que incentivamos, nos alunos e também conversando com as famílias, é que as crianças, em vez de falar com a mãe ou o pai quando tiverem dúvidas, enviem a pergunta para o professor. É claro que perguntas simples os pais podem responder, não tem problema. Mas se é em relação ao conteúdo, a gente incentiva que eles busquem os canais de comunicação com o professor”, explica. 

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Heloisa Scognamiglio
Jornalista formada pela Unesp. Foi trainee do jornal O Estado de S. Paulo e colaboradora em jornalismo da TV Unesp. Na faculdade, atuou como repórter e editora de internacional no site Webjornal Unesp e como repórter do Jornal Comunitário Voz do Nicéia. Também fez parte da Jornal Jr., empresa júnior de comunicação, e teve experiências como redatora e como assessora de comunicação e imprensa.

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