As férias escolares e os dilemas dos pais nesse período

O educador parental Mauricio Maruo reflete sobre a carga mental que as famílias enfrentam ao ter de lidar com maiores demandas dos filhos durante os meses sem aula na escola

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Criança corre em casa ao redor da mãe que tenta trabalhar
Lidar com o recesso escolar e o trabalho ao mesmo tempo pode ser desafiador para os pais
Buscador de educadores parentais
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Em um mundo onde a produtividade comanda e a pressão para sermos pais melhores nos deixa muitas vezes com a sensação de frustração, os pais precisam se virar nos 30 para enfrentar o período das férias escolares.

Ser uma mãe ou um pai afetuosos e antenados nas várias formas de criação respeitosa com os filhos também significa estar disponível para essas tarefas, porém sabemos que o mundo não gira em torno disso.

Para muitas empresas, o relacionamento com os funcionários é estritamente de produção, ou seja, o tempo exige produtividade.

Mas e quando as férias chegam? 

Como conciliar o tempo de qualidade x tempo de produção?

Muitas famílias optam por tirar férias do trabalho junto com as férias escolares, mas normalmente as férias escolares são maiores do que as férias do trabalho, o que gera um grande gap de tempo.

E aquelas famílias que não conseguem tirar férias junto com as férias escolares, como ficam?

Bom, o texto de hoje, não é para dar dicas do que fazer nas férias, pois temos muitas informações espalhadas pela internet a respeito disso, inclusive aqui mesmo na Canguru News.

O texto de hoje é sobre como estamos enfrentando essa carga mental.

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Um ponto importante que devemos lembrar é que nem sempre os cuidados com as crianças estiveram exclusivamente ao cargo dos pais ou das escolas. Sabe aquela famosa frase: “É preciso uma aldeia para criar uma criança”? Pois é, devemos lembrar que em algum tempo muito, muito distante tínhamos ajuda de muitas outras pessoas, tios, tias, avós, avôs, amigos, primos, enfim, uma comunidade em prol de cuidar das crianças.

Foi somente entre os anos 1980 e 1990 que a maioria das famílias deixaram de desenvolver laços comunitários e passaram a desenvolver laços individuais.

Isso se deu porque muitas famílias passaram a criar seus filhos de forma a não replicar ensinamentos que foram herdados dos seus antepassados, então, uma onda de novas metodologias de criação de filhos surgiu, justamente para dar suporte a essa ruptura, mas trouxe também o distanciamento das redes de apoio naturais, com isso criamos novos problemas, como é o caso das férias.

Outro ponto importante, como disse antes, é a incompatibilidade de tempo entre as férias escolares x férias do trabalho. As férias de trabalho (regime CLT) são de 30 dias ao ano, enquanto na maioria das escolas as férias são de no mínimo 50 dias ao ano (com algumas escolas chegando até 90 dias), uma diferença de pelo menos 20 dias.

Isso porque nem estou cogitando os autônomos, que muitas vezes não têm férias ou tiram férias em outro período que não seja junto com as férias escolares.

Pensem comigo, essa incompatibilidade é bem grande não?

Podemos tentar encontrar muitas justificativas para essa incompatibilidade, mas acredito que no final, talvez, chegaremos sempre na mesma pergunta, quem está ganhando com tudo isso?

Desde a ruptura dos laços de coletividade para a criação dos laços individuais temos que nos preocupar com muitas coisas sozinhos, como:

  • Os tipos de educação que queremos para nossos filhos.
  • O que fazer com as férias.
  • A exposição excessivas às telas (principalmente nas férias).
  • O tipo de alimentação que vai rolar nesse período.

Isso porque estamos falando somente do recorte “férias”, mas, e o resto do ano, como fica? 

Vivemos tão no modo automático, que nem conseguimos nos questionar se esse é o cenário ideal que queremos para nossas vidas. Ou será que simplesmente estamos sobrevivendo dentro de um sistema que não está nem aí para a qualidade de vida das nossas famílias e sim para o lucro que podemos proporcionar para aqueles que já têm o poder (resposta para a pergunta que lancei antes sobre quem ganha com tudo isso).

Imagine se todas as escolas do Brasil fossem públicas e com ensino de alta qualidade (arrecadação de imposto para isso o Brasil tem), e a maioria das empresas desse opções aos funcionários de tirar férias com o mesmo número de dias que as férias escolares? Seria lindo, não?

Pois é, e se eu te contar que em muitos outros países isso já é uma realidade, você acreditaria?

Como não temos isso “ainda” no Brasil, temos que nos desdobrar para dar conta desse período, mas existe algo muito poderoso que consegue acolher as nossas preocupações e angústias em relação às incompatibilidades das férias e outros perrengues. Porém, para muitas famílias que foram obrigadas a se acostumar com os laços individuais, isso pode ser um grande desafio.

Estou falando da criação de comunidades compatíveis, ou seja, aquelas comunidades que todos pensam de forma semelhante a você em relação à criação dos filhos e muito outros assuntos. Há, por exemplo, comunidades de apoio materno que surgiram nas instituições de acolhimento ao parto como A Casita, Casa Moara e Commadre. Há também comunidades de criação, que surgem do mesmo propósito de criação com respeito dentro das escolas de ensinamento Waldorf, como a Escola Waldorf Pomar, Escola Waldorf Caliandra e Escola Waldorf Jardim dos Jasmins.

Embora pareça algo difícil, acredito que seja extremamente possível. Quem quiser uma direção e orientação de como se cria uma comunidade compatível, me manda uma mensagem que ficarei imensamente feliz em ajudar.

*Este texto é de responsabilidade do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.

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Mauricio Maruo
É pai da Jasmim e do Kaleo, e companheiro da Thais. Formado como artista plástico, atua como educador parental desde 2016. É fundador do "Paternidade Criativa", uma empresa de impacto social que cria ferramentas de transformação masculina através do gatilho da paternidade. Criador do primeiro jogo de Comunicação Não Violenta direcionado para pais e crianças do Brasil.

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