Amigo imaginário: até quando esta ‘companhia’ é saudável e natural?

Fenômeno normal da infância, essa fantasia é uma ferramenta psíquica para a criança entender seu mundo interior e a relação com o outro, além de ajudar os pequenos a lidar com frustrações; pais devem ficar atentos quando filho se isola e mistura fantasia e realidade

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Amigos imaginários: este tipo de companhia é saudável para as crianças?; ilustração de criança correndo segurando a mão de seu amigo imaginário, que é uma criatura grande azul semelhante a um gato
Ter amigos imaginários, a princípio, é normal e comum durante a infância

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“O amigo imaginário surge como um prolongamento da imaginação da criança, ou um prolongamento da própria criança, e tem relação direta com os aspectos emocionais”, explica Daniela Araújo, psicóloga, psicanalista e coordenadora do Núcleo Infantojuvenil da Holiste Psiquiatria. O amigo imaginário pode trazer diversos benefícios para as crianças, sendo uma maneira particular de externalizar suas relações, seus sentimentos e aprendizados no dia a dia. No entanto, existem alguns sinais que os pais precisam ficar atentos. “Devemos ligar o alerta quando a ‘desconexão’ com a realidade não se desfaz”, destaca a psicanalista.

De acordo com Mônica Eulália, psicanalista, professora e especialista em psicologia infantil, a princípio não tem nada de errado em ter um amigo imaginário. Inclusive, a fantasia é um recurso da vida psíquica de todos. Mesmo os adultos criam suas próprias fantasias, mas encontram outras maneiras de expressá-las. Este amigo surge da capacidade inventiva natural das crianças. “Ele aparece a partir de uma idade em que a questão da linguagem já está bem desenvolvida. Por volta dos 4 ou 5 anos o amigo imaginário já pode surgir”, explica Mônica Eulália.

Segundo as especialistas, esses amigos inventados também podem ser uma forma de a criança mostrar a sua personalidade, o que ela gosta e os assuntos que estão se apresentando naquele momento da vida dela. “A criação dos amigos imaginários faz parte do processo de constituição do próprio ‘eu’ da criança, da sua tentativa de encontrar um lugar nas relações com os outros”, diz Araújo. Os pais devem lidar com eles com naturalidade, pois é um fenômeno muito comum na infância. “Amigo imaginário não é sinal direto de loucura e não se deve ter medo de ‘dar corda’ a essa história sem que se perca o aspecto saudável de tudo isso”, aponta a psicóloga.


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Aumento da capacidade inventiva e perceptiva

A criação dos amigos imaginários pode trazer diversos benefícios para a criança, principalmente em relação à engenhosidade. “É um recurso em que há uma grande liberdade de construção e de invenção”, destaca Mônica Eulália. Inclusive, segundo Araújo, é possível que a criança que tem um amigo imaginário apresente uma maior capacidade inventiva quando for mais velha. Os pequenos podem criar histórias e brincadeiras com este amigo, o que pode contribuir até mesmo no seu desenvolvimento cognitivo.

Além disso, os amigos imaginários podem ajudá-los a entender a realidade ao seu redor. “A capacidade perceptiva e crítica da criança também está em outro tempo de desenvolvimento, ela ainda está criando ferramentas subjetivas e emocionais para encarar o mundo e as relações que estabelece nele”, explica Daniela Araújo. Assim, a criança traz o amigo imaginário como uma forma de tentar analisar o que aconteceu. 

“Ela consegue reviver as situações com os amigos imaginários e resolver aquilo que não deu certo”, afirma Mônica Eulália. O brincar sempre faz com que os pequenos desenvolvam essa capacidade de compreender o que ocorre ao seu redor e buscar soluções para encarar os acontecimentos. Com o amigo imaginário não é diferente. “A criança vai inventando seus modos de lidar com algumas situações, vai montando suas cenas e mantendo-se mais apaziguada frente a possíveis angústias”, completa Daniela Araújo.

Daniela Araújo, psicóloga e psicanalista/ Reprodução: Holiste Psiquiatria

Amigo imaginário ajuda a lidar com as frustrações

O amigo imaginário também pode funcionar como um mecanismo de defesa, utilizado para aprender a encarar as decepções e perturbações mentais que aparecem. “Ele é um ‘eu’ que a criança cria no seu mundo interior e tem a função de tentar compensar um pouco as frustrações do dia a dia”, afirma Mônica Eulália. É um amigo idealizado, que falaria, vivenciaria e compartilharia todas as coisas que a criança não se sente à vontade em fazer com os colegas reais. O amigo imaginário nem sempre surge por acaso, ele também pode estar relacionado com alguma mudança na vida da criança.

Quando a criança é apresentada a alguma coisa que tira a estabilidade com que ela estava ambientada, ela pode recorrer a outros tipos de relações, como a imaginária, em busca de um conforto. “Geralmente, o amigo imaginário aparece quando a criança é colocada em uma condição de confronto. Mudança de casa, de cidade, ir à escola ou o nascimento de um irmãozinho são exemplos de situações que a deixam de certa forma insegura em relação ao lugar que ela ocupa”, aponta Eulália. 

Como esse universo é inventado pela criança e ela tem a capacidade de construir o roteiro dos acontecimentos, ela sabe que é uma alternativa confiável à sua realidade repleta de instabilidades. Os amigos imaginários também podem cumprir uma função afetivo-emocional e ajudar as crianças a cooperar com traumas, angústias, solidão ou até com a perda de alguém, segundo as especialistas.

“A criança está tentando se resolver com o mundo e com os outros. Os amigos imaginários são um dos recursos subjetivos que ela usa para buscar soluções”, diz Daniela Araújo.

Porém, é importante lembrar que o amigo imaginário não é a resposta para tudo. “É uma compensação que só funciona no mundo imaginário, quando a criança é chamada de volta ao mundo real, não funciona”, acrescenta Mônica Eulália. Dependendo da situação em que a criança se encontra, pode ser necessário buscar psicólogos e psiquiatras para auxiliar a criança a superar aquilo que está incomodando.

Mônica Eulália, professora e especialista em psicologia infantil/ Foto: arquivo pessoal

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Sinais para prestar atenção

Apesar de o amigo imaginário ser benéfico para os pequenos, os pais devem ficar atentos para que ele não mascare problemas reais dos filhos. Em casos mais alarmantes, as especialistas acreditam que é necessário buscar uma avaliação psicológica para encontrar a raiz do problema, se é que existe um problema de fato.

“Na dúvida, procure um profissional que possa orientar os pais sobre a forma mais adequada de lidar com a situação e esclarecer o que de fato está ocorrendo”, destaca Mônica Eulália. Confira alguns sinais que os pais devem prestar atenção, de acordo com as psicólogas.

Ter amigos imaginários após a puberdade

Segundo Daniela Araújo, até os sete anos ainda é comum que as crianças tenham amigos imaginários. “Por ser um recurso infantil, se a criança já está entrando na puberdade e ainda usa esse recurso pode ser um sinal de que ela está tendo dificuldades em entrar nessa nova etapa da vida: a adolescência”, diz Mônica Eulália.

Não ter vida social

A maior preocupação está na vida social, se a criança costuma ficar mais isolada somente com o seu amigo imaginário, é um sinal de alerta. “O problema não é ter o amigo imaginário, mas apenas ter o amigo imaginário”, ressalta Eulália. Isso pode revelar problemas de insegurança, pois mostra que a criança não está se permitindo colocar à prova nos relacionamentos reais.

“O amigo imaginário só deixa de ser um facilitador quando a criança se fixa nele, quando se torna uma relação de dependência que a impede de experimentar outras situações”, afirma a professora. A criança pode estar com medo de não ser aceita ou de precisar lidar com frustrações e decepções. “Também pode ser que tenha acontecido alguma outra coisa que os pais não tenham percebido e esse recuo dela para o mundo imaginário ocorra no sentido de se proteger de algo que a marcou de forma até traumatizante”, aponta.

Amigos imaginários adultos

Outro fator que se deve prestar atenção é o tipo de amigo imaginário que a criança cria. De acordo com Daniela Araújo, se ele é um adulto, pode ser que tenha algum significado por trás da escolha da criança. “É possível que ela esteja expressando algo de sua relação com determinados adultos, ou mesmo tentando construir uma forma de lidar com eles”, explica. Amigos imaginários adultos podem representar ausência dos pais, traumas relacionados a separações, abusos ou mortes de familiares e é importante conversar com a criança sobre isso.

Misturar fantasia e realidade

Além disso, se a conexão com o mundo imaginário se torna muito forte, os pais também precisam ficar mais atentos, pois existe a possibilidade da criança começar a misturar a fantasia com a realidade. Um exemplo é sempre pedir que seja colocado um prato na mesa para o seu amigo imaginário. “Se isso está acontecendo e a vida social da criança está restrita a esse amigo imaginário, é importante ficar alerta, parece que existe uma opção por viver as relações sociais a partir de um mundo inventado”, aponta Mônica Eulália. 

No entanto, nem sempre é necessário se preocupar, pois isso pode estar vindo de um lugar lúdico e a criança também precisa desse recurso fantasioso.

“Se tudo vem como uma brincadeira, de forma leve, descontraída e os pais percebem que o restante da vida social da criança está normal, tudo bem”, completa.

O problema aparece caso ela começar a acreditar muito neste universo que ela mesma criou. “Se ela colocar um alto nível de certeza nessa história e que perdure por um bom tempo, caberá cuidar e acompanhar para ver se ela estará vivendo mais ‘influenciada’ sob o aspecto desse mundo imaginário do que o da realidade”, afirma Araújo. Segundo ela, caso o efeito do amigo imaginário seja contrário ao esperado, isto é, em vez de ajudar, o encontro com os amigos imaginários causem mais angústia na criança, também é um importante sinal.


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