Fiz o teste e tenho TDAH: ‘Quando a gente tem alguma coisa diferente do padrão, vale a pena buscar um diagnóstico’

A mãe e escritora Bebel Soares fala da importância de buscar um diagnóstico quando percebemos ter alguma coisa diferente do padrão

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Minha experiência com o teste neuropsicológico e o diagnóstico que recebi; Bebel e o filho Felipe estão deitados no chão com as pernas levantadas apoiadas na parede
Bebel e o filho Felipe | Foto @estudiolilliput

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Dia desses me “tranquei” fora de casa. Depois, deixei queimar o arroz e, por sorte, não esqueci a comida no fogo e saí para buscar meu filho Felipe na escola – sim, ele está indo para a escola, amém! Foi pura sorte, porque fui pegar uma máscara na lavanderia e passei pela cozinha, aí desliguei o fogo e a comida não virou carvão. Mas queimei a mão tirando uma travessa do fogo. E esqueci da aula de programação do Felipe. Tudo isso e mais umas coisinhas num dia só. E não era um dia de azar, era um dia como outro qualquer. Eu me distraio e essas coisas acontecem diariamente.

Tenho muita paciência, mas ela costuma ficar assintomática em determinados momentos. Tenho grandes variações de humor. Sou irritável, impulsiva, ansiosa. Acabo roendo as unhas, tenho bruxismo e a insônia sempre me pega.

Essas questões acabam me prejudicando embora a eu tente levar com humor.

Por essas e outras que eu fui encaminhada para fazer um teste neuropsicológico. Esse teste serve para definir diagnósticos para altas habilidades, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), autismo, transtornos de personalidade e de aprendizagem. Também ajuda a detectar alguma demência em pessoas idosas e serve para basear um laudo psicológico para bariátrica ou orientação vocacional, entre outros.

Para fazer o teste neuropsicológico, um profissional da saúde, um psiquiatra, psicólogo ou neurologista devem fazer o encaminhamento. São vários testes, em média sete sessões, e estas só podem ser aplicadas por neuropsicólogos. Antes dos testes é feita uma anamnese familiar para definir quais testes serão aplicados. 

Aproveitei que estava passando férias com meus pais perto de Belo Horizonte e agendei os testes na Clínica Cristina Silveira. Foi lá que Felipe fez os mesmos testes, a primeira vez, aos 6 anos, a segunda vez, aos 10 anos. Sim, o cérebro é plástico, ele muda, por isso pode haver necessidade de repetir os exames outras vezes.

Janaina Rocha Kiel, psicóloga e neuropsicóloga, aplicou os testes. Achei bem cansativo, foram dois dias e muitas horas respondendo perguntas, montando quebra-cabeças, testando minha memória, fazendo contas de cabeça. Interessante que, em determinado momento ela me disse: – agora vou aplicar esse teste aqui, é bem simples, tenho até vergonha… Gente, e não é que foi nesse que o bicho pegou pra mim?

Ela perguntou: fulano tinha tantos lápis azuis, tantos lápis vermelhos e tantos lápis amarelos, fez não sei o que com tantos lápis, qual a porcentagem de lápis não sei de que cor ele ficou? Já me embolei toda só pra me lembrar parcialmente da pergunta. Lá, na hora, eu só via um monte de lápis coloridos dançando a macarena. Ela terminou a pergunta e eu disse: porcentagem? Eu não me lembro nem quantos lápis eram, nem quais eram as cores, pode repetir a pergunta?

Nessa parte de percentuais eu me senti na quinta série, naquela sofrência que foi aprender matemática. Minha primeira recuperação. Eram contas simples, mas que eu só consigo fazer usando lápis e papel, tenho que escrever, ver os números ou nada feito.

Foi a Cristina Silveira, psicanalista, terapeuta cognitivo comportamental, psicopedagoga, neuro psicopedagoga e mestranda em educação quem fez a devolutiva sobre os meus testes. Numa conversa por vídeo ela pontuou as principais questões do relatório que depois enviou em arquivo. O relatório é enorme, tem 29 páginas. Tudo muito detalhado e explicado. E termina assim:

Hipótese diagnóstica

  • Altas habilidades, principalmente nas habilidades de raciocínio verbal, formação de conceitos verbais e memória.
  • Transtorno de Déficit de Atenção (Organização perceptual, desorganização) e Hiperatividade (agressividade, irritação, oposição e variação de humor). 
  • Ansiedade 

Encaminhamentos  

  • Avaliação psiquiátrica (TDAH e ansiedade)
  • Treinamento cognitivo para organização perceptual e processamento visual – Terapia Cognitivo comportamental focada no treinamento de habilidades referentes ao TDAH – Atividades físicas constantes (esportes, danças, etc.)
  • Inserção em programas para altas habilidades. 
  • Curso de línguas.
  • Nenhuma surpresa, mas tem coisa que a gente sabe, mas deixa guardado lá no fundo e, quando lê, tem a sensação estranha de ter sido descoberto. Como se ninguém soubesse das minhas variações de humor, da minha oposição…

O que é o TDAH, nas palavras da minha amiga Andrea Werner

O TDAH está presente em cerca de 5% da população mundial e é caracterizado pelo prejuízo na modulação da atenção. Não é uma simples distração, mas um conjunto de sintomas que afeta a vida diariamente.

O TDAH NÃO foi inventado pela indústria farmacêutica como dizem as fake news da internet. Pelo contrário, é um dos transtornos mais bem estudados e documentados da ciência.

TDAH não é doença e não é reconhecido como deficiência, mas é uma expressão da neurodiversidade que traz dificuldades. Por isso é tão importante buscar um diagnóstico.

Crianças com TDAH sem um diagnóstico adequado podem ser taxadas de mal educadas, preguiçosas e até pouco inteligentes.

Compreender a origem de algumas dificuldades liberta de angústias, ansiedade, cobrança.

Pessoas com TDAH precisam de apoio, suporte terapêutico e, se necessário, medicamentoso.

Pesquisas indicam que pessoas com TDAH costumam ser mais criativas. “Mentes que divagam” costumam chegar mais a ideias inovadoras.

Ou seja: todos podem contribuir e muito para a sociedade. É só tirarmos o capacitismo do caminho.

Sobre receber o diagnóstico:

Ter um QI alto é bom, dá um alívio confirmar sua inteligência num país onde a burrice está na moda. Até nisso eu sou do contra. Saber que tenho altas habilidades em algumas áreas. Ter sintomas de TDAH dá um alívio, existe um motivo para meus momentos de distração, para meus momentos de ira. Aliás, já melhorei demais nesse quesito, mamãe é testemunha, passei um mês com ela e ela disse que nunca me viu tão calma. Salve o mindfullness, minhas práticas diárias de meditação, de atenção plena, os exercícios de respiração e os remedinhos receitados pelo meu psiquiatra.

E por falar em psiquiatra, ele também é de Belo Horizonte, comecei o acompanhamento em 2016 quando tive uma crise forte de depressão, me mudei para São Paulo no ano seguinte, mas não abro mão do Luis Augusto Malta! Profissional maravilhoso que escuta e acolhe. Encaminhei o relatório para ele que ajustou minha medicação. Uma tentativa para equacionar melhor a irritação e a dificuldade em dar continuidade a tarefas já que o serotoninérgico que eu tomo há anos, pode piorar a capacidade de concentração se usado em prazos mais longos.

Andei sumida aqui da Canguru News, a explicação está aí, dificuldade de dar continuidade a tarefas comprovada com o teste neuropsicológico!

Quando a gente tem alguma coisa diferente do padrão, vale a pena buscar um diagnóstico. Lembrando que diagnóstico não é rótulo, pelo contrário, o diagnóstico direciona o tratamento quando algumas questões prejudicam nossa qualidade de vida.

Desde 2015, no início do ano letivo, eu tenho reunião com a coordenadora do Felipe, levo o laudo dele e, dessa forma, a escola orienta os professores e torna mais fácil a vida escolar dele. Sim, ele é muito inteligente, mas tem alguns comportamentos fora do padrão e os profissionais precisam saber lidar com isso. Como mãe, o diagnóstico de um filho me orienta, me ajuda a ter mais paciência, a ser mais compreensiva.

Se uma criança que tem TDAH é chamada de chata, mal educada, e afins, a mãe explica: não é nada disso, ele tem TDAH e, por isso, tem mais dificuldade para lidar com determinadas situações. Isso não tem nada a ver com a educação que eu dou para ele.

Sobre os teste neuropsicológico

E a grande maioria das pessoas que fazem teste neuropsicológico é encaminhada para clarear TDAH (déficit de atenção e hiperatividade). A hiperatividade só aparece nos testes de personalidade. TDAH não tem cura, mas tem tratamento. A partir do teste descobrimos qual é a área do TDAH e o treinamento cognitivo será feito de acordo com essa área. Esse treinamento ele tem hora para começar e para terminar. É um tratamento com metas baseado em ciência.

Os testes são muito completos, o investimento no material é alto. Essa é uma área nova, muito técnica, baseada em ciência! Meu agradecimento à Clínica Cristina Silveira por me orientar e direcionar há tantos anos.

Antes de escrever sobre o diagnóstico do meu filho, pedi a autorização dele. A vida dele não me pertence, por isso, sempre que vou falar dele, peço autorização. Ele tem altas habilidades e TDAH, diagnóstico que, como qualquer outro, não é vergonha, não precisa ficar escondido, pelo contrário, quanto mais a gente se libertar para falar sobre a nossa neurodiversidade, melhor. Somos todos diferentes.


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3 COMENTÁRIOS

  1. Bebel,
    Como vim parar neste texto não me lembro.
    Acabei de receber um resultado de uma prova: passei! Adiei por anos. Nunca conseguia estudar por tempo suficiente. Tenho TDAH e hoje estou melhor que há vários anos atrás graças ao remédio recomendado. Há mais que isto, como você descreveu: um treinamento ajuda a diminuir a chance de eu me atrapalhar. A compreensão de quem mora em casa tira muitos motivos que podiam levar a briga, e transforma esquecimentos em soluções. Por exemplo: ao invés de achar que não me importo, achar uma ferramenta para não esquecer da próxima vez.

    Seu texto mostra a claridade que eu gostaria de ter tido e tive que buscar há alguns anos. Tenho a certeza de que ajudará outras pessoas também!
    Abraço!
    Sandra Crosara.

  2. Bebel, acompanho você nas redes sociais e amo seus textos e reflexões. Mais uma vez fui agraciada com suas palavras. Sou mãe de um garoto autista grau II, que apresenta muitas características específicas do autismo e diagnosticado aos 2 anos. Mãe também de uma menina que sempre apresentou comportamentos um tanto temperamentais desde cedo e sempre foi considerada mimada e manhosa. Como havia o histórico de autismo na família, ela passou por avaliação quando pequena devido alguns sinais de alerta que eram observados, porém o autismo foi descartado e consideravam que seus comportamentos eram limitações do irmão. Enfim, com o início da adolescência alguns comportamentos ficaram acentuados e surgiram outros que sinalizaram novamente o autismo. Ela está passando por uma avaliação psicodiagnostica no momento e espero que tenhamos um norteamento para ajuda-la. Ela é muito inteligente, se interessa por assuntos diversos, apresenta uma maturidade para alguns assuntos e perde totalmente o controle em outras. Tem dificuldade em fazer amigos o que lhe causa grande sofrimento. Espero que seja o caminho para ela se entender e consequentemente seja compreendida.

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