Soluço em crianças, entenda as causas e como evitá-lo

Ao surgir o sintoma, é importante que os pais se tranquilizem e evitem soluções sem comprovação, como assustar a criança, pedir para ela não respirar ou comprimir a barriga

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Criança com as duas mãos na boca, segurando o soluço
O soluço nas crianças e bebês é geralmente autolimitado, ou seja, passa naturalmente por si só

O soluço é um sintoma muito comum tanto em adultos, quanto em bebês e crianças. Entretanto, muitas vezes não entendemos muito bem como o soluço começa, por que ele termina e quais comportamentos podem favorecer seu surgimento ou ajudar a pará-lo. Ao ver os filhos com soluço, muitos pais podem ficar apreensivos, ao não saber bem o que fazer, especialmente entre os bebês, que podem soluçar desde a fase intrauterina.

Francielle Tosatti, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e especialista em emergências pediátricas pelo Instituto Israelita Albert Einstein, explica que o soluço pode surgir em qualquer idade, e é ainda mais comum em crianças do que em adultos. “Bebês têm mais soluço por uma própria imaturidade do sistema nervoso em controlar as contrações do músculo diafragma. Além disso, é comum que ocorram soluços quando a barriguinha está cheia, como após mamar, ou ao engolir ar, quando o bebê chora, por exemplo”, diz a pediatra. “Até mesmo o frio pode causar soluços, o que acaba sendo muito comum na prática do consultório os pais relatarem soluço na hora do banho”, completa.

Ela explica que o soluço acontece devido a um espasmo, uma contração do músculo diafragma, que está logo abaixo dos pulmões, intimamente ligado à respiração. “A principal causa para esse espasmo ocorrer é a irritação do nervo frênico, que aciona os movimentos do diafragma. Essa contração involuntária do diafragma faz com que as cordas vocais se fechem rapidamente, causando o famoso som ‘hic’”, explica Franciellle.

Pediatra Francielle Tosatti, da Sociedade Brasileira de Pediatria, esclarece dúvidas sobre soluço nas crianças
Pediatra Francielle Tosatti, da Sociedade Brasileira de Pediatria | Imagem: Divulgação

O soluço em bebês

Em bebês, o soluço está diretamente ligado à amamentação e respiração. Dr. Paulo Telles, pediatra pela SBP, pontua que na gestação, quando o feto se encontra no útero, acredita-se que o soluço tenha a ver com exercícios respiratórios, e após o nascimento, a continuidade desse sintoma se relaciona tanto com a musculatura, quanto com a respiração. “No bebê, acreditamos que por ter musculatura mais imatura e sensível, o soluço tenha relação com a distensão do estômago após a mamada, por deglutição de ar ou por excesso de leite. Pode ocorrer também por refluxo gastroesofágico, ou ainda por diminuição do CO2 causado por uma respiração mais acelerada.”

Algumas ações simples podem contribuir para que o soluço pare, e também podem evitar que ele ocorra com mais frequência. Vera Lúcia Sdepanian, gastropediatra e presidente do Departamento de Gastroenterologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) afirma que “o simples fato de aquecer o bebê e dar de mamar, regulariza a contração do músculo diafragma, e consequentemente, o soluço desaparece.” Mas se a criança apresenta muito soluço deve ser investigada, pois se confirmado o refluxo, é preciso tratá-lo, ressalta Vera.

Além de ficar tranquilo em relação ao soluço, já que este é um sintoma normal e comum na infância, o pediatra Paulo Telles ressalta outras medidas simples feitas pelos pais que podem ajudar: “Colocar o bebê para mamar um pouco mais, estimular o arroto deixando o bebê na posição vertical, manter o bebê aquecido, observar se a pega e posição na mamada estão corretos e também colocar o bebê mais levantado na mamada.” O médico destaca ainda que o mais importante é acalmar e tranquilizar os pais, já que na grande maioria dos casos o soluço terá resolução espontânea.

Pediatra Paulo Telles, da Sociedade Brasileira de Pediatria, esclarece dúvidas sobre soluço nas crianças
Pediatra Paulo Telles, da Sociedade Brasileira de Pediatria | Imagem: Divulgação

Soluço e desenvolvimento infantil

Segundo um estudo publicado por pesquisadores da University College London (UCL) no periódico Clinical Neurophysiology, o soluço em crianças e bebês pode ter conexão com o próprio desenvolvimento da criança, conectando a respiração e o cérebro. A pesquisa, feita a partir do monitoramento da atividade cerebral de 13 bebês, concluiu que a atividade resultante do soluço pode estar ajudando o cérebro do bebê a aprender a controlar seus músculos respiratórios, o que teria influência no controle da contração muscular do diafragma. É possível que, com o som gerado pelo soluço (“hic”), o bebê consiga criar um vínculo do soluço à sensação gerada pelo movimento do diafragma, uma das primeiras atividades fisiológicas que acontecem de forma regular no útero, expica a pesquisa.


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Como ajudar a parar o soluço nas crianças

É importante lembrar que o soluço é um sintoma, e não uma doença, não é prejudicial e é autolimitado, ou seja, na maioria das vezes para naturalmente por si só. Logo, os especialistas alertam para que os pais não testem soluções sem comprovação para tentar ajudar a criança com o soluço, o que corre o risco de trazer alguma complicação com o método. “O principal é evitar medidas populares e crenças de atitudes que podem ‘parar o soluço’, pois algumas podem inclusive colocar em risco a saúde da criança. Portanto, não a assuste, nem peça para que pare de respirar, pois isso pode ser prejudicial”, pontua Francielle Tosatti.

“Nada de soluções caseiras, sem nenhuma comprovação e que podem colocar a saúde da criança em risco como sustos ou sacudir bruscamente, comprimir a barriga ou superaquecer o bebê”, diz Paulo.

Em algumas excessões, pode acontecer de o soluço nas crianças durar mais do que o esperado, por mais de um dia, e até atrapalhar a rotina. Francielle Tosatti pontua que, como o soluço é um sintoma que resulta de processos fisiológicos, ou seja, independentemente de patologias, não requer tratamento. No entanto, há casos em que o soluço pode estar relacionado a pneumopatias, problemas ligados ao sistema nervoso central ou aos refluxos gastroesofágicos, e nesse caso é recomendado um tratamento para a doença por trás do soluço.

“Quando o soluço se torna frequente com duração superior a 48 horas, deve-se investigar sua causa. Há diversas outras causas para esta ocorrência como medicamentos, outras doenças gastrointestinais além do refluxo, doenças cardiovasculares, doenças do sistema nervoso central, distúrbios metabólicos, endócrinos e psicogênicos. O tratamento será realizado de acordo com a causa do soluço”, complementa Vera Lúcia Sdepanian. Dessa forma, com o acompanhamento de um especialista, qualquer incômodo maior ou forma persistente do soluço poderá ser administrada da melhor forma, visando o bem-estar do bebê ou da criança e dos pais.


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