“Seria lindo falar em ‘paternidade ativa’ se a ‘maternidade ativa’ também existisse”

Valorizar o papel do pai é importante desde que o mesmo seja feito com as mães, ressalta o educador parental Mauricio Maruo

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Menino brinca com pai na cama
Buscador de educadores parentais
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Você já ouviu falar do termo “paternidade ativa”? O termo se popularizou bastante para definir os pais que manifestam ações de cuidados físicos, psicológicos e emocionais com os filhos.

Porém, como eu disse, o termo se popularizou e com isso criou-se inconscientemente um estereótipo de “super pai”, não que isso seja ruim, acredito sinceramente que quanto mais pais conscientes do seu verdadeiro papel, estaremos construindo uma sociedade bem melhor.

Mas cuidado, existem grandes problemas quando essa atribuição é dada ao pai, que ainda não atingiu essa consciência.

Para explicar melhor, vou ilustrar três situações que aconteceram comigo semana passada e vamos ver se vocês conseguem identificar os problemas.

1ª situação

Tive que passar no shopping para trocar um presente que ganhei (eu raramente vou ao shopping) então resolvi jantar com minha filha de 5 anos e meu filho de 9 meses. Quando chegamos no restaurante, pedi para minha filha escolher o que ela queria comer, ela me disse: 

‒ Vou ver o que tem.

Mas o balcão das comidas estava muito alto para ela ver e eu não conseguia levantá-la, pois estava com o bebê no colo, então disse a ela:

‒ Vou agachar e você sobe na minha coxa, assim você fica maior e consegue ver tudo e não preciso tirar seu irmão do colo.

Tudo resolvido, então fui pagar a conta, nesta hora, a moça no balcão me fala:

‒ Parabéns viu, é raro ver um pai assim.

Eu rapidamente respondi:

‒ Desculpa mas não entendi.

Ela disse:

‒ Um pai que consegue se virar com uma filha e um bebê.

Eu olhei para ela sorrindo e disse:

‒ Obrigado moça, mas não deveria ser raro, concorda?

2ª situação

Estávamos, eu, minha filha e meu filho matando tempo em um espaço de brincar, enquanto esperávamos a mensagem da minha companheira para buscá-la no metrô. Quando deu a hora de ir a minha filha disse:

‒ Só mais um pouquinho.

Eu perguntei quanto tempo mais ela queria e ela pediu trinta minutos. Eu respondi que isso era muito tempo e propus dez minutos para depois ir buscar a mamãe.

Ela respondeu:

‒ Então pode ser 15 minutos papai?

Eu disse que tudo bem e ficamos combinados em mais 15 minutos de brincadeira.

Obs: Todos nossos combinados selamos com um aperto de mão.

Depois de 15 minutos, eu disse:

‒ Vamos?

‒ Vamos sim papai.

Quando estava saindo do espaço de brincar um casal me abordou e disse:

‒ Achamos fantástico o que você fez com sua filha, sem choro, sem gritos, sem discussão, que lindo!

Até aí, estava tudo lindo mesmo, mas eles complementam com um:

‒ Ainda mais vindo de um pai!

Ouvindo isso, eu olhei para minha filha, e ela com um olhar de dúvida responde para o casal:

‒ Mas foi a minha mãe que ensinou ele a fazer os combinados.

E fomos embora.

3ª situação

No meio da semana fui com meu filho para um parque perto de casa, a ideia era fazer um piquenique.

Até aí tudo bem, pois ele é um bebê, mas o tanto de coisas que levei não era para um bebê – mochila, tapete de piquenique, lancheirinha e o bebê no sling. O parque fica dez minutos andando, então resolvi ir a pé.

A ironia é que no meio do caminho (nesse percurso de dez minutos) duas pessoas me ofereceram ajuda e ao chegar no parque mais duas também. No parque vejo algumas mães com suas crias, então imaginei se elas também recebem a oferta de ajuda assim como eu recebi, ou será que recebi só por ser um pai?

Caso você tenha percebido o problema, existem muitos pais que exercem a tal da “paternidade ativa”, porém para muitos isso acaba se tornando um título ou um tipo de troféu, já que para a maior parte da sociedade um pai que cuida ativamente dos seus filhos ganha involuntariamente o estereótipo de “super pai”, e esse estereótipo é uma tremenda armadilha pois alimenta e muito o ego do homem, que inconscientemente não consegue enxergar e valorizar o papel da mulher com sua maternidade.

Ou você acha mesmo que alguém iria elogiar uma mãe por dar a coxa como apoio para sua filha, ou ser elogiada por fazer combinados com seus filhos ou até mesmo receber ofertas de ajuda por um simples picnic?

Na minha opinião  seria lindo usar o termo “paternidade ativa” se existisse também o termo “maternidade ativa” com a mesma valorização que a sociedade dá para o termo paterno.

E você conhece algum pai que vive recebendo medalhas e alguma mãe que vive recebendo migalhas?


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