A difícil arte de pedir e receber ajuda

"O 'pedir ajuda' e o 'receber ajuda' está associado à fraqueza e infelizmente, na sociedade moderna em que vivemos, não há lugar para pessoas fracas", comenta o educador parental Mauricio Maruo

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A difícil arte de pedir e receber ajuda
"Quando você não banaliza "o pedir ajuda" e consegue pedir ajuda de coração, você cria empatia e conexão com a outra pessoa", afirma Mauricio Maruo

Assim começo esse texto que está recheado de complexidades humanas. Sim, hoje vamos entender que o pedir ajuda pode ser tão complexo e difícil quanto o receber ajuda.

O puerpério pode ser o período mais tenso para os pais de primeira viagem, pois é onde tudo muda, lidar com os cuidados de uma nova vida, que depende exclusivamente de você, muitas vezes assusta.

Mas eu digo também que o puerpério é o período onde conseguimos acessar uma das maiores transformações da nossa vida, e como todas as transformações, ela pode ser bem pesada.

Conheço muitos casais que passam por essa transformação sozinhos e carregam esse peso todo em seus ombros solitários.

É neste ponto que começa nossa complexidade.

Um ótimo exemplo para começar é a amamentação, a maioria dos casais que escolhem ter seus bebês em uma maternidade, já recebem orientação de como amamentar no próprio hospital, porém a realidade quando chegam em casa pode ser bem diferente.

Segundo algumas amigas consultoras de amamentação, cerca de 7 a cada 10 mães procuram ajuda para conseguir amamentar, mas até chegar ao ponto de pedir ajuda, elas passam por um período grande de sofrimento solitário, onde a impotência e a culpa falam muito alto e as tentativas de resolver o problema sozinha podem ser bem frustrantes.

Isso porque nem mencionei a questão do pai, que em muitos casos nem sequer sabe como pode ajudar ou para quem pedir ajuda e consequentemente acaba deixando essa responsabilidade para a mulher.

A amamentação tem um outro ponto super importante a ser comentado que alimenta ainda mais a complexidade do “pedir ajuda”, que é o não saber para quem pedir ajuda.

A propagação de informações não verdadeiras que muitos profissionais da saúde passam aos pais de primeira viagem, como dizer que o leite não é suficiente ou que o leite é fraco e por aí vai, ajuda a criar essa barreira.

Imagine que você é um pai ou uma mãe de primeira viagem e escolhe um pediatra para seu filho, o próprio pediatra lhe diz isso sobre a sua amamentação.

É claro que a primeira reação será acreditar no pediatra, afinal ele é um profissional, mas precisamos lembrar de um fato bem importante, a escolha do pediatra é sua, assim como a escolha de procurar um profissionais específicos para a amamentação.

Mas até os pais chegarem a essa compreensão de que podem pedir ajuda de outros profissionais, provavelmente a fórmula já estará em uso.

Como falei de um ponto muito importante e de certa forma muito delicado, que é a questão da amamentação, vou dar um outro exemplo mais tranquilo, que dê certo modo pode parecer meio bobo, porém tem um nível de complexidade comportamental grande.

Estou falando dos almoços ou jantares familiares.

Alguém já presenciou uma mãe (coloco a mãe porque é mais comum acontecer com a mulher, mas pode acontecer com o homem também) comer depois que todo mundo já comeu (isso quando não come comida fria), pois estava cuidando do bebê?

Essa é uma cena muito comum nas grandes famílias, afinal o pensamento moderno talvez seja:

– Meu filho, minha responsabilidade.

Esse pensamento pode até ser real, mas vai contra a famosa frase.

É preciso uma aldeia para criar uma criança.

Pensando dessa forma, eu acrescento uma outra frase que me foi dita um ano atrás.

É preciso sabedoria para pedir ajuda e coragem para aceitá-la.

A complexidade também pode ser vista de forma contrária ao “pedir ajuda”, neste caso seria o “receber ajuda”.

Quando essa mesma mãe ou pai recebe ajuda de alguém para ficar com o bebê, para que eles possam comer junto com todo mundo, nesse momento aposto que passa pela cabeça deles algo parecido com essas frases:

– Está tudo bem, não quero incomodar.

– Depois eu como, não tem problema.

– Preciso comer rápido para liberar a pessoa.

Como estou dando exemplos das complexidades comportamentais, vou dar um exemplo real que aconteceu comigo, alguns dias atrás.

Estava com minha filha no espaço de brincar do prédio em que vivo e de repente observei uma mãe meio desesperada, pois seu filho mais velho havia jogado a chave de casa dentro da piscina de bolinhas (que é grande), ela estava com sua bebê de uns 3 meses no colo.

Ela olhou para todos os lados, me viu, e mesmo assim estava quase disposta a entrar com a bebê na piscina de bolinhas para procurar a chave.

Foi quando eu disse para ela:

– Você não quer que eu segure sua bebê por alguns instantes, só para você procurar a chave mais tranquila?

Adivinhem o que ela me disse?

– Não quero incomodar.

Adivinhem qual foi meu primeiro pensamento?

– Tudo bem, então.

A reação dela foi super normal e comum, pois não somos parentes e nem amigos, somente vizinhos que se encontram com uma certa frequência quando as crianças estão brincando, nem pensar em deixar sua bebê comigo.

Então foi nessa hora que me veio um estalo e eu inverti a ordem e disse:

– Deixa que eu entro então e procuro para você.

Nessa hora, ela abriu um sorriso meio sem jeito e disse:

– Muito obrigada mesmo por isso.

É incrível, mas essas são as nossas atuais relações humanas modernas, algo que construímos ao longo de muitos anos de solidão e desconfiança.

Tudo isso parece normal ou um pouco estranho para você?

Se você disser que é no mínimo estranho, saberia responder por que agimos assim?

Suposta explicação

É interessante lembrar que ainda vivemos em um sistema de cultura patriarcal, mas o que isso tem haver com a complexidade de pedir ajuda?

A cultura patriarcal vem distorcendo há muito anos alguns aspectos comportamentais que deveriam ser considerados valores, tais como a nossa fragilidade.

Hoje a ideia de ser uma pessoa responsável está associada erroneamente com à questão de ser forte, afinal, se somos responsáveis por todas as nossas ações e escolhas, devemos arcar com nossas consequências, ou seja, devemos ser fortes para isso.

É com essa ideia que a maioria de nós, em nosso subconsciente, vem interpretando que o “pedir ajuda” e o “receber ajuda” está associado à fraqueza e infelizmente na sociedade moderna em que vivemos não tem lugar para pessoas fracas.

Enfrentar nossos problemas é bom, mas não precisa ser de forma solitária.

Um caminho

Para muitas pessoas, o ensinamento que tivemos em nossa infância sempre foi o de não aceitar nossas fraquezas.

E se eu te disser que o pedir ajuda e aceitar ajuda é sim um sinal de fragilidade e pasmem! É bom!

Quando você não banaliza “o pedir ajuda” e consegue pedir ajuda de coração, você cria empatia e conexão com a outra pessoa.

Talvez esse seja o caminho para que possamos ensinar nossos filhos a serem menos fortes e mais frágeis, quem sabe esse seja um lindo caminho para que eles descubram como se conectar verdadeiramente com eles mesmos.


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É pai da Jasmim, 4 anos, e companheiro da Thais. Formado como artista plástico, atua como educador parental desde 2016. É fundador do "Paternidade Criativa", uma empresa de impacto social que cria ferramentas de transformação masculina através do gatilho da paternidade. Criador do primeiro jogo de Comunicação Não Violenta direcionado para pais e crianças do Brasil.

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