O desafio de enfrentar diabetes na infância

Crianças diabéticas precisam se adaptar a uma nova rotina após diagnóstico, com controle alimentar, aplicação de insulina e medição da glicemia, mas mães contam que, com o tempo, o tratamento e mudanças de hábitos são introjetados no cotidiano

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O diagnóstico de diabetes em crianças é sempre um desafio para os pais e exige uma série de adaptações na rotina para controlar a alimentação, medir a glicose e aplicar a insulina diariamente na dosagem e hora corretas.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o diabetes mellitus, ou simplesmente diabetes, é uma doença caracterizada pela elevação da glicose no sangue (hiperglicemia). Pode ocorrer devido a defeitos na secreção ou na ação do hormônio insulina, que é produzido no pâncreas. 

Diversas condições podem levar ao diabetes. A grande maioria dos casos está dividida em dois grupos: diabetes tipo 1 (DM1) e diabetes tipo 2 (DM2). O diabetes tipo 1, que representa a minoria dos casos, é uma doença crônica em que o pâncreas produz pouca ou nenhuma insulina. Já no diabetes tipo 2, que inclui cerca de 90% dos casos, a insulina é produzida pelo pâncreas, porém sua ação é dificultada. 

A endocrinologista Hermelinda Pedrosa, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e do Departamento de diabetes da SBEM, explica que o diabetes tipo 1 ocorre mais frequentemente entre as crianças e adolescentes. 

“O diabetes tipo 1 é bem menos frequente e decorre de uma reação autoimune, enquanto o diabetes tipo 2 compreende 90% dos casos. No DM1 o sistema imunológico é acionado mediante um estímulo, que pode ser um vírus (como o da caxumba, rubéola ou influenza) ou até mesmo uma situação de estresse, desenvolvendo anticorpos contra a célula beta do pâncreas, que é a responsável pela produção de insulina. Os anticorpos passam a considerar as células beta do pâncreas como um corpo estranho e atuam contra ela através de reação inflamatória. Esse processo inflamatório conduz a uma incapacidade das células beta de produzir insulina”, explica a endocrinologista. 

Já o diabetes tipo 2, acrescenta a médica, “não tem reação autoimune envolvida”. “Há produção de insulina, mas pela resistência à ação do hormônio, a utilização não é eficaz. O processo se instala de maneira silenciosa e gradual, e os níveis de glicose se elevam quando os mecanismos para compensar a ineficiência da insulina se esgotam. Por isso, existem graus variados de diminuição de insulina à época do diagnóstico. Outros mecanismos também estão envolvidos, como ação de hormônios gastrointestinais e alterações de reabsorção de glicose pelo rim.” 

A médica explica que o diabetes tipo 2 possui fatores de risco como histórico familiar, sedentarismo, obesidade, maus hábitos alimentares, dislipidemia (colesterol e triglicerídeos altos), hipertensão arterial, mulheres que tiveram diabetes na gestação, histórico de doença cardiovascular. O tipo 2 é mais comum em adultos, mas também pode ocorrer em adolescentes.

Segundo a endocrinologista, os principais sintomas do diabetes tipo 1 – a mais comum em crianças – são perda de peso, urina frequente, muita sede e fraqueza. Estes sintomas precisam ser identificados em tempo hábil. Caso contrário, a criança pode evoluir para um quadro metabólico grave e ficar desnutrida, já que a insulina é um hormônio armazenador. 

Descoberta da insulina, marco memorável

A médica destaca que este ano celebramos 100 anos da descoberta da insulina produzida artificialmente, um marco memorável no tratamento do diabetes que rendeu à equipe de estudiosos o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. 

O feito permitiu que os pacientes diagnosticados com diabetes pudessem ter uma vida normal, desde que se adaptem ao tratamento. “Temos que saudar, nesses 100 anos de avanço, o quanto o tratamento do diabetes evoluiu. A primeira criança tratada com insulina produzida artificialmente (Leonard Thompson) era caquética, com um grau de desnutrição muito alto. Hoje isso não acontece mais”, celebrou.

“O grande desafio de tratar o diabetes é a adaptação à insulinoterapia e ao controle das taxas de glicose no sangue, já que não há produção natural de insulina pelo organismo. Se a criança crescer com a noção de que precisa conviver com a doença de forma tranquila e relaxada ela terá uma vida normal. A doença não é um impedimento para se viver”, completou a médica.

A médica explica que atualmente existem vários tipos de insulinas, de ação prolongada, ultraprolongada, rápida e ultrarrápida. Para cada condição existem formas distintas de fazer a insulinoterapia. “Temos sistemas de infusão de insulina, dispositivos que podemos colocar através de catéteres e fazer uma programação para que aquela insulina seja liberada para o organismo. Na linguagem popular, são chamadas de bombas de insulina.” 

Existem também medidores de glicose que não precisam de perfurar o dedo e até aplicativos de celular que ajudam na medição, contou a médica.

“As dificuldades mudam ao longo do tempo”

A fisioterapeuta Julia Dias Santana Malta é mãe do André, 10 anos, diagnosticado com diabetes quando tinha um ano e dez meses. “Ele estava muito mole, vivia desesperado por água, urinava muito e tínhamos que trocar a fralda com muita frequência. Por isso começamos a desconfiar que ele estivesse com diabetes.” Hoje, depois de nove anos do diagnóstico, Júlia conta ter passado por várias dificuldades relacionadas à adaptação do filho ao tratamento.

As dificuldades mudam ao longo do tempo. Quando ele era bebê tínhamos dificuldade de identificar a hipoglicemia porque ele não sabia se expressar e tínhamos que medir a glicose dele toda hora. Depois veio a fase da escola. Foi difícil encontrar uma escola que o aceitasse, ele foi negado algumas vezes. Eu precisava de uma pessoa que cuidasse do meu filho e ele precisava entender, por exemplo, que não podia pegar comida dos colegas nem comer o que todos comem a qualquer hora.”

Julia, mãe de André, soube do diagnóstico de diabetes quando ele tinha
um ano e 10 meses: no início a rotina era tensa, mas hoje o menino
já se adaptou

Atualmente, conta a fisioterapeuta, “a dificuldade está relacionada à independência”. “Ele já quer sair sozinho, ir pra casa de amigos e ir ao cinema. O meu maior medo é que ele passe mal e não tenha ninguém por perto.” Julia diz que seu filho come praticamente de tudo, desde que seja de forma equilibrada. A aplicação de insulina depende do cardápio alimentar. “Ele já sabe, por exemplo, a quantidade de insulina que deve aplicar após comer um brigadeiro ou um pastel.”

“Foi um diagnóstico complicado e assustador”

As dificuldades na adaptação ao tratamento do diabetes também fazem parte do cotidiano da Influenciadora digital Isla Gomes Prata, mãe de Gabriel Prata, 7 anos, que recebeu o diagnóstico aos 3 anos de idade. 

“Ele estava urinando muito e bebendo quantidades de água fora do comum. Fiz uma pesquisa na internet sobre as possíveis causas destes sintomas e caí em páginas sobre diabetes. Depois da pesquisa, levei meu filho ao pediatra e, mesmo o médico dizendo que poderia ser apenas uma fase para chamar a atenção dos pais, eu insisti para fazermos os exames. Os resultados mostraram uma glicemia de 264 mg/dl, sendo que o normal é de no máximo 100.” 

Com o diagnóstico positivo para o diabetes, Isla precisou se adaptar ao tratamento. “Foi um diagnóstico complicado e assustador, porque não sabíamos lidar com a situação. Mas como eu e meu marido somos muito ligados à alimentação, a adaptação foi mais fácil.” Isla conta que seu filho Gabriel faz uso de dois tipos de insulina. Uma delas é usada uma vez ao dia e faz efeito durante o dia todo. A outra é usada após as refeições, depois de medir a glicose e calcular a quantidade de insulina que precisa ser aplicada. 

Isla Prata e o filho Gabriel, diabético: família investiu na alimentação controlada e conta com apoio da escola para o controle da glicemia

“Meu filho é muito responsável, não come nada sem me pedir e normalmente é acompanhado de algum responsável no qual ele confia, além de conversar comigo pelo WhatsApp.” 

Ao contrário de Julia, Isla não teve problemas relacionados à rejeição escolar:

“Na hora do lanche os professores me ligam, medem a glicose e eu corrijo a quantidade de insulina de acordo com o que ele vai comer. Normalmente ele leva um pouco de mel para tomar em caso de hipoglicemia. Hoje, depois de 4 anos de diagnóstico, ele já sente e percebe quando a glicemia está alta ou baixa.”

A função principal da insulina é promover a entrada de glicose para as células do organismo de forma que ela possa ser aproveitada para as diversas atividades celulares. A falta da insulina ou um defeito na sua ação resulta, portanto, em acúmulo de glicose no sangue, o que chamamos de hiperglicemia. 

Hereditariedade e histórico familiar

Hermelinda Pedrosa esclarece que podem existir questões genéticas relacionadas ao diabetes tipo 1 já que envolve um defeito no sistema imunológico, mas é uma relação diferente do diabetes tipo 2, em que há uma predisposição hereditária. “Para o diabetes tipo 2, o histórico familiar é um fator de risco importante. No caso do diabetes tipo 1 isso não acontece necessariamente. A criança pode ser o primeiro indivíduo do seu núcleo familiar que passou a desenvolver a doença.”

O endocrinologista Rodrigo Nunes Lamounier, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de Minas Gerais (SBEM-MG), afirma que o diabetes tipo 2 tem uma relação de familiaridade, o que não acontece necessariamente com o diabetes tipo 1. “Na maioria dos casos, a criança não tem parentes diabéticos.”

Lamounier acrescenta que o aleitamento materno é uma forma de prevenção ao diabetes tipo 2 para as mães. Uma pesquisa publicada na revista médica JAMA Internal Medicine, revelou que o ato da amamentação pode diminuir o risco das mães de desenvolverem diabetes do tipo 2. O trabalho acompanhou um grupo de 1.238 mulheres por mais de três décadas e concluiu que o diabetes tipo 2 foi menos frequente nas lactantes. Durante a realização da pesquisa, as mães que amamentaram por seis meses ou mais tiveram redução de 48% no risco de desenvolver diabetes tipo 2. 

Complicações e prevenção 

Lamounier esclarece que a hiperglicemia (excesso de glicose no sague) pode levar a problemas nos olhos como a retinopatia, além de doenças renais, neurológicas e até ao déficit cognitivo. Já a hipoglicemia (baixa de glicose) causa déficit cognitivo e leva à perda de consciência. “Para prevenir estas complicações, é preciso aprender a monitorar a insulina e controlar a glicose no sangue adaptando as doses de insulina em relação à sua alimentação. É muito importante ter uma alimentação saudável e praticar atividades físicas.” 

Hermelinda Pedrosa afirma que a dieta mais adequada para as pessoas com diabetes é a dieta do Mediterrâneo, que inclui frutas, legumes, cereais, proteínas à base de pescados e frutos do mar, aves, pouca carne vermelha e elaborações grelhadas. 

Ela acrescenta que a prática de atividades físicas estimula a captação de glicose pelos músculos, o que reduz as necessidades de insulina. Porém, os exercícios devem ser feitos com orientação de especialistas, pois podem levar à hipoglicemia ou queda dos níveis de glicose no sangue. “Os exercícios físicos são aliados importantes no controle da doença, mas é preciso ter cuidado em relação à aplicação da insulina antes e depois.”

Os especialistas alertam para os perigos da ingestão de álcool por adolescentes diabéticos. “O álcool inibe a produção hepática de glicose, que é justamente aquela glicose armazenada no organismo. Isso aumenta as chances de haver hipoglicemia, que pode levar a um quadro de agravamento na condição cerebral. É uma substância que pode ter uma resposta bastante negativa, principalmente quando é consumida de forma exagerada por pessoas com diabetes”, explica a endocrinologista

Diabetes gestacional

A gravidez, segundo Hermelinda Pedrosa, é “diabetogênica”, pois a partir do segundo trimestre da gestação a mulher produz hormônios na placenta que agem contra a insulina que ela própria produz. 

“O bebê de uma mulher com diabetes gestacional sofre as consequências da doença, podendo nascer muito grande ou nascer de parto prematuro. Há, inclusive, o risco de morte perinatal.” Ela destaca que a condição é da mãe , não significa que o bebê vá nascer com diabetes. Ele nascerá com as repercussões da doença da mãe. 

O tratamento de diabetes gestacional pode acontecer sem a necessidade de usar insulina, sendo controlada através de alimentação saudável e atividades físicas. Mas alguns casos evoluem de uma forma mais grave e as gestantes passam a utilizar insulina. “Geralmente as mulheres que têm a necessidade de usar insulina durante a gravidez têm mais chances de seguirem com o diabetes após o parto. A mulher que desenvolveu diabetes gestacional deve voltar ao endocrinologista dois meses depois do parto para ser reavaliada.”

O acesso ao tratamento

Avançamos no sistema público, mas hoje até países ricos como os EUA reclamam do custo das insulinas”, afirma Hermelinda Pedrosa.

Para Lamounier, há três desafios para o diabetes infantil. “O primeiro é o desafio técnico. Os pais precisam aprender a lidar com o monitoramento e controle da glicose, fazendo os cálculos necessários para que não haja hipoglicemia. O segundo desafio é o acesso ao tratamento, pois ele é caro, complexo, confuso e dá trabalho para ter um tratamento adequado. O terceiro desafio é lidar com a doença de uma maneira positiva, acreditando no futuro sem perder o otimismo.”

Hoje, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza de forma gratuita a Protamina Neutra de Hagedorn (NPH), que é uma insulina de liberação prolongada, e a insulina de ação rápida Asparte, que será substituída pela Insulina Glulisina (Apidra), com sistema de aplicação. 

Em 2018, o SUS passou a disponibilizar as insulinas análogas de ação rápida, que o Ministério da Saúde incorporou como uma nova tecnologia. “Se passaram 14 anos para que o SUS oferecesse a insulina análoga de ação rápida como uma nova tecnologia”, explica Pedrosa. A médica afirma que as insulinas trazem um grande ganho para a vida do paciente. “Aqui no Brasil apenas 10% das crianças e adolescentes com diabetes possuem controle adequado. Isso é muito triste e preocupante porque mostra o quanto temos que avançar.”


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