‘Vacinando os professores, conseguimos voltar às aulas em agosto’, prevê especialista

Naércio Menezes Filho fala sobre impacto da covid-19 no desenvolvimento das crianças e o agravamento da desigualdade

Impacto da covid-19 na educação: 'crianças só voltarão à escola em agosto', diz pesquisador Naercio Menezes Flho (foto)
O pesquisador Naércio Menezes Filho alerta que a geração covid vai experimentar uma desigualdade social ainda maior

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Coordenador do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância, o economista, professor e pesquisador do Insper Naércio Menezes Filho analisa, em entrevista à Canguru News, o impacto da covid-19 no desenvolvimento das crianças. Para o especialista, a retomada das aulas presenciais, com segurança, só ocorrerá após a vacinação dos professores e a imunização em massa. “Enquanto não vacinarmos, não há jeito. Temos que ficar parados mesmo”, diz ele. A previsão mais otimista do pesquisador é que a partir de agosto, com a vacinação dos professores e dos grupos de risco, as aulas presenciais possam ser retomadas com menos imprevisibilidade. O economista, em suas pesquisas e artigos mais recentes, tem abordado o impacto da pandemia na “geração covid”, crianças e jovens que tiveram os estudos interrompidos e sofrerão sérias consequências no desenvolvimento psicológico e motor. Pensar em políticas públicas para minimizar esse impacto e os déficits de aprendizagem, sustenta, é fundamental. Caso contrário, o fosso da desigualdade social no Brasil ficará ainda maior no futuro. Confira a entrevista:

Canguru News: O que podemos esperar do futuro das crianças brasileiras, considerando que estão há mais de um ano no ensino remoto, sem a socialização proporcionada pela escola? Quais são as consequências disso no desenvolvimento infantil, sobretudo para as mais pobres, mais vulneráveis?

Naércio Menezes Filho: A situação dessas crianças, especialmente as mais pobres, é muito grave, porque ficaram sem ir para a escola por todo esse período, desde o ano passado, e continuam assim, neste ano, com a segunda onda da covid-19. A situação faz com que as crianças percam muito. Em primeiro lugar, as crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. Não é a mesma coisa fazer a aula à distância e ter aula na escola com os professores, alfabetizadores com experiência. Muitas dessas crianças não podem ser apoiadas e ajudadas pelos pais, porque eles próprios são analfabetos funcionais. E mesmo quando os pais têm ensino médio e curso superior, muitas vezes eles não têm a didática e a paciência para ensinar as crianças neste processo tão delicado, que requer persistência e treinamento. Fora que muitas dessas crianças nem têm acesso a internet, ou internet com qualidade, para obter as orientações online com segurança. Além disso, muitas vivem em casas muito cheias, com muitos irmãos, parentes, sem nenhum espaço tranquilo para se dedicarem às atividades escolares. E acima de tudo isso tem o estresse dos pais, sem renda, sem emprego, com medo de ficarem doentes e pegarem covid-19. São, portanto, muitos fatores conjuntos atuando, que fazem com que essas crianças, muitas delas, não consigam aprender a ler e a escrever e com que tenham problemas de desenvolvimento na infância. Toda a interação saudável que teriam na creche, na pré-escola, com colegas, cuidadores, com o espaço necessário, não estão tendo. Isso vai prejudicar o desenvolvimento psicológico e motor dessas crianças.

Estamos vendo uma geração de crianças, que nasceram e estão crescendo neste período da covid, que terão problemas bastante sérios de desenvolvimento se nada for feito para atenuar isso em termos de políticas públicas.

Esses problemas de desenvolvimento serão muito mais graves nas crianças de classes pobres, pela enorme vulnerabilidade. No entanto, crianças que frequentam escolas privadas também sofrerão muitos obstáculos.

N.M.F – Sim, os relatos dos pais são de muitas dificuldades para lidar com essa situação, apoiar os filhos, fazer com que permaneçam nas aulas online, frequentem as aulas. Isso vai prejudicar também o aprendizado e desenvolvimento das crianças de maior renda e que estão em escolas privadas. Há uma falta de interações com colegas. Jovens e crianças estão sofrendo bastante.

Em uma de suas sugestões de políticas públicas, você cita a atuação de equipes de saúde da família, que poderiam atuar e auxiliar sobretudo as famílias de baixa renda, crianças que frequentam a rede pública. Falando de maneira geral de todas as escolas, públicas e privadas, citaria alguma política pública que amenizou ou minimizou essas dificuldades tremendas?

N.M.F – As redes estão tentando oferecer o ensino à distância, e é a única coisa que está sendo feita em termos de aprendizado. E aí há uma variabilidade muito grande. Há redes que estão conseguindo fazê-lo e outras não, porque não têm organização suficiente nem para atingir os alunos. Em termos de agentes da saúde da família, pelo que eu pude acompanhar, as visitas estão muito mais escassas, por causa da pandemia. Os agentes têm receios de visitar os domicílios e contrair coronavírus, principalmente agora, com os hospitais lotados. Os relatos são de que as visitas estão paradas e as consultas foram adiadas. Enquanto não houver vacinação em massa, isso tudo vai ficar parado.  Não tem jeito. Mesmo as aulas presenciais, que voltaram a ser suspensas. Enquanto não vacinarmos, não há jeito. Temos que ficar parados mesmo.

O governo de São Paulo anunciou o início da vacinação de profissionais da educação. É uma política pública que mostra alguma luz no fim do túnel, pode reduzir a angústia dos pais?

N.M.F – Sim, a medida é muito boa. Realmente temos que vacinar os professores. E o bom é que a vacina do [Instituto] Butantan tem um intervalo de apenas um mês entre as duas doses. E aí, tendo tomado as duas doses, as aulas tendem a retornar. Porque as chances de hospitalização são quase nulas. Os professores podem ainda continuar a transmitindo o vírus, para as crianças e os pais. O que a vacina evita é a hospitalização e morte. Vai melhorar, mas precisamos ter a vacinação em massa, a imunização de rebanho e parar de circular o vírus e as novas variantes. Mas é uma boa ajuda, com isso poderemos retornar às aulas, sobretudo os professores que não são do grupo de risco.

Em relação à evasão escolar, há um risco grande?

N.M.F – Vai ter evasão, principalmente das pessoas que estão para concluir o ciclo, o nono ano e o terceiro ano do ensino médio. Muitas delas não vão voltar para a escola. Mas a minha impressão, olhando os dados da PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios] contínua e da PNAD Covid, ela não é tão grande assim. Não temos o fenômeno da evasão em massa. O que acontece é que esses jovens que, como eu disse, estão no último ano do ensino médio e são mais velhos, vão abandonar de vez a escola. Isso terá um efeito na escolaridade. O que vai diminuir são os anos de escolaridade. E haverá impacto sobre a desigualdade. O mais sério é a falta de aprendizagem. Os jovens e as crianças estão na escola, mas não estão aprendendo. Pode aumentar bastante a desigualdade no país.

O que vai diminuir são os anos de escolaridade. E haverá impacto sobre a desigualdade. O mais sério é a falta de aprendizagem. Os jovens e as crianças estão na escola, mas não estão aprendendo. Pode aumentar bastante a desigualdade no país.

Sobre a mensuração da aprendizagem, há uma sugestão sua para que os governos, os gestores públicos, possam medir o que as crianças e jovens estão aprendendo no ensino remoto. Vê avaliações ocorrendo neste sentido?

N.M.F – Não está havendo avaliação. Houve algumas tentativas, mas não foram bem-sucedidas. As coisas só vão se resolver quando tiver a vacinação. Não tem jeito. Você vai ficar indo, voltando, alguns alunos vão [para o presencial], outros o pais não deixam. Só vamos conseguir avaliação mais sistemática no segundo semestre, quando vacinarmos os professores, os grupos de risco e as aulas retornarem. E temos o problema também de que o INEP [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais] está muito confuso, não sabemos mais se vai ter o SAEB [Sistema de Avaliação da Educação Básica], que analisava o aprendizado no país inteiro. Isso é gravíssimo, porque você não pode fazer política pública sem saber o estágio em que as crianças estão, quem aprendeu a ler, quem esqueceu, quem sabe o básico de matemática, quem teve atividade online, quem não teve. Será muito ruim se não tivermos mais Saeb, ou algum exame. Precisamos ter um diagnóstico, ou vamos ficar às escuras.

Você escreveu um artigo no segundo semestre de 2020 [no livro “Legado de um da pandemia”], alertando sobre os problemas de desenvolvimento das crianças. Hoje está mais pessimista ou mais otimista? Como vê o cenário da educação no país?

N.M.F – Acho que a gente vai conseguir retornar em agosto, principalmente em São Paulo, agora que estamos vacinando professores, e isso vai ter reflexo em outros Estados. O governo federal se guia muito a partir do que está sendo feito em São Paulo. Prevejo que em agosto a gente retorne. Minha visão é a seguinte: não acho que é o fim do mundo, que essas crianças estão perdidas, e também não acho que a gente vai conseguir recuperar tudo o que foi perdido. Haverá desigualdade muito grande entre os Estados. No Ceará, por exemplo, todas as crianças tiveram aulas online, houve contato com as famílias, a gestão é muito melhor. Ao passo que em outros Estados, o Pará, por exemplo, não teve quase nada. A recuperação vai ser mais difícil e organizar essa recuperação vai ser muito mais complexo. Então a desigualdade vai aumentar, e disso não há dúvidas. A geração que tem 0 a 6 hoje, e mais um pouco, vai crescer mais desigual do que outras gerações. Podemos tentar recuperar. Eu tenho a proposta de colocar as crianças para estudar no primeiro ano de manhã e de tarde o ano anterior. Fazer as crianças cursarem dois anos em um. Temos possibilidade de fazer isso porque o número de crianças caiu muito no Brasil. Então as escolas estão lá, a infraestrutura está lá, está tudo pronto. Então no primeiro ano do ensino fundamental teve 15 alunos, e agora vai ter 30. Quem estuda à tarde, faz o ano anterior de manhã. Dobra o tamanho das salas e vai acompanhando as crianças. Eu faria essa medida extraordinária por um ano. Depois voltamos ao normal.

Mas isso exigiria organização e uma decisão de política pública que nem todos os governos estarão dispostos a tomar. N.M.F – Claro. Em muitas redes já há isso, educação em tempo integral. É preciso ter coragem. A questão é muito grave, então é preciso tomar medidas ousadas. Tem que providenciar merenda, para todas as crianças. Acho possível fazer. Mas conhecendo o Brasil, acho difícil que isso aconteça essa minha proposta. Seria possível. O que vai acontecer é isso: não vai prejudicar dramaticamente a vida das crianças, mas não vamos recuperar o aprendizado perdido, e isso é ruim, porque nossas crianças já aprendem muito pouco. Há um estudo do Banco Mundial que aponta que 50% das crianças brasileiras não conseguem ler um texto simples, estruturado. Isso vai aumentar nessa geração. Pelo menos vamos vacinar e tentaremos retomar as aulas, para minimizar os efeitos de tudo isso.

Malu Delgado
Malu Delgado é mãe da Nina, 8 anos. Jornalista, tem mais de 20 anos de experiência em coberturas políticas para veículos como “Valor Econômico”, “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, revista “piauí”, “Jornal do Brasil”, “iG” e “Globonews.com”. Pós-graduada em Gestão de Políticas Públicas, atua no momento como colaboradora da Deutsche Welle Brasil, freelancer e consultora de comunicação da Canguru News.

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