Gravidez na adolescência: falta diálogo e sobram preconceitos

Para as especialistas, a escuta e o estímulo ao diálogo, evitando a culpabilização e julgamentos das meninas, são ferramentas importantes para lidar com o desafio da gravidez na adolescência

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Gravidez na adolescência
Gravidez de adolescentes ainda apresenta altos patamares no Brasil, apesar de queda nas últimas 2 décadas

Por Laura Redfern Navarro* – Os elevados índices de gravidez na adolescência do Brasil despertam atenção mundial, ainda que tenha sido registrada uma queda de 37,2% de gestações precoces nas duas últimas décadas, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Ainda assim, cerca de 19 mil nascimentos, ao ano, são de bebês cujas mães têm entre 10 a 14 anos, alerta o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Segundo a ONU, o Brasil está bem acima da média mundial: são 53 adolescentes grávidas a cada mil, no mundo são 41.“As taxas vêm diminuindo nos últimos anos, embora permaneçam altas”, afirma a psicóloga comportamental Aline Couto, que atualmente cursa Doutorado em Psicologia Clínica pela USP (Universidade de São Paulo). As estimativas, acrescentam, apontam que 6,8% das meninas enfrentarão a gestação entre os 10 e 19 anos.

Além de ser uma questão urgente e complexa, a gravidez precoce também traz consequências nefastas às vidas dessas adolescentes. Mães adolescentes apresentam uma maior propensão a abandonarem os estudos e, consequentemente, a acessar o mercado de trabalho. Segundo dados do MEC, cerca de 18% dos casos de evasão escolar acontecem em decorrência da gravidez precoce (levantamento feito em 2016). 

Na Semana Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, no início de fevereiro, a ministra Damares Alves, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, fez um pronunciamento polêmico em torno do assunto, ao associar a incidência de gravidez na adolescência ao uso da rede social TikTok. Para a ministra, a plataforma estimula a produção de conteúdos voltados à erotização infantil. O ministério interdita qualquer debate sobre a interrupção da gravidez, mesmo nos casos de gestação precoce.

Para Aline Couto, a ministra fez uma simplificação grosseira do problema, ignorando fatores como o acesso a recursos materiais, a visão sobre o casamento infantil e a complexidade da erotização infantil. “A sexualização de meninas e mulheres no país é um fenômeno arraigado e muito anterior às redes sociais como o TikTok, que só amplificam a mesma na cultura”, afirma. 

Para a psicóloga comportamental Fernanda Negri Smith, especializada em Saúde da Mulher pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), a sexualização infantil em rede social não é a causa primária da gravidez na adolescência, mas ambos estão relacionados à pouca conscientização da menina sobre seu corpo, em geral estando associada à baixa escolaridade, baixa renda e a uma maior vulnerabilidade social. Segundo ela, a menina nessa situação “pode não estar consciente que está grávida, pode não entender o processo, pode não ter estrutura psicológica e cognitiva para entender a complexidade do que é uma gravidez ou do que é um abuso.”

“A própria historicidade da construção da necessidade de vigilância da infância acaba por tornar estas crianças e adolescentes ainda mais vulneráveis quando não os empodera sobre o próprio corpo e possibilidades de iniciar decisões sobre quais são os limites esperados.”, acrescenta a psicóloga Fernanda smith.

A importância da escuta e o fim da “culpabilização”

Para as especialistas, a escuta e o estímulo ao diálogo, evitando a culpabilização, são ferramentas importantes para lidar com o desafio da gravidez na adolescência. A participação do adolescente na construção de sua corporeidade, da sua compreensão em relação aos papéis de gênero e seus limites, são outros aspectos. Entretanto, as discussões sobre educação sexual, sexualidade e gênero nas escolas parecem estar cada vez mais interditadas no atual momento.

A professora Samara Belchior, que leciona em escolas da rede pública desde 2013, afirma que no país para lidar com o tema são superficiais e que ainda há um longo caminho a percorrer. 

Ela menciona que há, sim, uma abertura para a discussão, principalmente por meio das parcerias entre as Unidades Escolares e as Unidades Básicas de Saúde (UBS), que realizam palestras, por exemplo, em torno da prevenção contra o HPV. Porém, rodas de conversa, seminários e trabalhos escolares mais substanciosos, que estimulem a maior participação dos alunos, ainda são vistos como tabu. “Em uma das unidades escolares da prefeitura de São Paulo na qual trabalhei, um grupo de professores enfrentou um enorme embate com a gestão escolar na tentativa de realizar uma exposição, dentro de uma feira de ciências aberta à comunidade, que apresentasse métodos anticoncepcionais e sua eficácia”, diz. 

Vida escolar interrompida

Belchior  também afirma já ter tido alunas que engravidaram precocemente, “no oitavo, no nono ano e no Ensino Médio”. Ela observa que, nesses casos, as meninas tendem a ser julgadas pelos próprios professores, o que contribui para a sua culpabilização. O processo de evasão escolar também é uma narrativa comum, iniciando-se com o recolhimento da adolescente e à opção pelo estudo à distância. “Elas entregam as atividades de casa”, diz. “E, muitas vezes, não chegam a retornar à escola.”

A culpabilização e o isolamento dessas meninas também afeta a maneira como acessam o Sistema Público de Saúde nessa situação. Smith conta que, em geral, as adolescentes atendidas apresentam um perfil resistente ao tratamento.  Segundo ela, “não são raros os casos em que não são realizados da maneira esperada os atendimentos de pré-natal”. “De maneira semelhante, pode ser difícil o estabelecimento de vínculo entre a paciente e/ou sua família e companheiro junto aos profissionais.”

A intervenção de um psicólogo e de uma equipe multidisciplinar auxilia no estabelecimento de vínculos seguros a essas meninas, reforçando a escuta e o acolhimento de maneira não punitiva, sustentam as especialistas. E isso inclui, ainda, o investimento em procedimentos médicos seguros, como exames pré-natais e partos. 

“Pensa-se muito em proteção à infância e adolescência, chegando-se ao ponto de culpabilizar as próprias crianças e adolescentes sobre uma gravidez”, critica Smith. Encarar o debate para além de seus estigmas, sobretudo no que tange às políticas públicas, é a maneira mais responsável de prevenção e conscientização do assunto, alerta a psicóloga.

(*) Esse texto foi feito sob supervisão para processo seletivo de estágio na Canguru News


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