A febre dos animes e como afetam crianças e adolescentes

Formato de mídia originário do Japão já se popularizou no Brasil há décadas e ainda hoje fascina crianças e adolescentes; especialistas e integrantes da comunidade anime explicam motivos para essa atração e influência, sobretudo entre adolescentes

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A influência dos animes na vida de crianças e adolescentes
Naruto é um exemplo de animes que se tornou popular entre crianças e adolescentes no Brasil

Há anos os animes se popularizaram entre as crianças no Brasil. Vindos do Japão, esses desenhos sempre atingiram sucesso entre os mais novos, tomando o imaginário de crianças e adolescentes e se tornando o programa favorito de muitos deles. Décadas depois do início dessa popularização em massa com animes, representada por Naruto e Dragon Ball, ainda hoje os animes fazem sucesso neste público, aparecendo com frequência nos catálogos de serviços de streaming e também se espalhando pela internet.

“Anime” é uma palavra japonesa que se refere a animações. No dialeto nipônico, toda animação é um anime. Porém, no contexto ocidental, o termo é usado para se referir às animações provenientes do Japão. Vale ressaltar também que animes não são um estilo de desenhos animados, mas sim um formato de mídia. Existem filmes, curtas, clipes, séries, etc. em formato de anime.

Eles começaram a aparecer por volta dos anos 80, quando surgiram filmes clássicos como Akira e Meu Amigo Totoro. Mas foi por volta dos anos 90 e 2000 que se popularizaram pelo ocidente e pelo Brasil, muito graças à TV Manchete, que transmitia o famoso Cavaleiros do Zodíaco. Atualmente, os animes já estão presentes e bombando em streamings como a Netflix e Amazon Prime. A plataforma Crunchyroll, dedicada exclusivamente a esse conteúdo, tem crescido expressivamente.

Para o psicólogo Ricardo Chagas, criador do canal Minutos de Sanidade no YouTube, “crianças e adolescentes já são naturalmente introvertidos e geralmente apreciam mais o consumo de obras ficcionais, já que ler um livro ou assistir a um filme ou série é uma atividade de cunho introvertido e até mesmo reflexivo”.

“Comunidade” anime: eventos, música, moda e estilo

 A comunidade dos fãs de animes é outro fenômeno à parte. Vários eventos foram criados por todo o Brasil para abarcar esses fãs, sendo o Anime Friends, que ocorre anualmente em São Paulo, o mais notório.

A moda também sofre forte influência do estilo dos animes, assim como a música. Os adeptos dos animes criaram ainda um novo tipo de arte, os cosplays, quando um artista cria uma fantasia para imitar a aparência de um personagem que admira. 

Por serem produzidos e roteirizados numa realidade e cultura tão distante, chega a ser intrigante os animes fazerem tanto sucesso e terem uma comunidade tão expressiva no Brasil.

Para a cosplayer e influenciadora conhecida como Magic Phyra, a explicação é mais simples do que parece. Ela conta que começou a se interessar pelos animes por volta dos 10 anos, e explica: “Eu não fazia muita distinção entre os conteúdos que eu consumia, eram apenas desenhos, como os outros que passavam na TV. Eu gostava das cores, das lutas, das magias, das lições e das histórias”.

O atrativo dos animes, sustenta a artista, está na união entre a estética da arte do desenho e as lições e conflitos dos roteiros. Esse formato de mídia funciona, segundo ela, de forma extremamente versátil e não se resume a algo de caráter infantil.

“Animes são um formato que atende a vários públicos, desde crianças que aprendem biologia por historinhas contadas por personagens que representam células do corpo humano, até adultos que estão assistindo a policiais num futuro distópico, tentando descobrir o que houve com a sociedade”, define a cosplayer Magic Phyra.

 Ainda nessa amplitude de temáticas e de faixas etárias, Magic Phyra dá a sua visão do porquê os mais novos, sobretudo os adolescentes, tendem a desenvolver uma admiração e apego emocional por personagens do seus animes favoritos. “Acho que a maioria dos personagens mais amados são heróis com grandes sonhos. Nos identificamos com eles, porque eles nos encorajaram. Quanto aos adolescentes, talvez isso os dê forças para seguirem seus sonhos ou até não terem tanto medo do futuro.”

A conexão entre a vida real e a ficção

O psicólogo Ricardo Chagas, que no seu canal no YouTube discute assuntos ligados à cultura pop, explica que o contato com o ficcional é atraente para a nossa psique: ”O contato com a ficção é um processo terapêutico, assim como a psicoterapia; e a vida, assim como a ficção, é puro conflito. Quando se resolve um problema na ficção, se resolve outro na vida. Essa é a mágica de ir para outros mundos”.

 Chagas acredita na força do simbólico nas histórias dos personagens como um dos motivos que os torna tão atraentes para nós e para as crianças. Para ele, é através de arcos de histórias que acompanhamos que encontramos virtudes para nossa própria psique. “A espada é simbólica, mas as virtudes do herói funcionam como um incentivo para a resolução dos problemas reais e cotidianos”, explica o psicólogo. Ele acrescenta que é essencial que tenhamos personagens favoritos ao longo da nossa formação, uma vez que eles nos ajudam a resolver questões na vida cotidiana.

Para a psicóloga e coach Soraya Sartori, que vem adotando os animes em seu consultório para se comunicar com os pacientes, a explicação para a preferência das crianças e adolescentes por animes, em vez de desenhos animados ocidentais, está na construção das histórias. Ela observa que nas histórias clássicas ocidentais sempre há uma condição extraordinária que transforma o personagem principal em herói, e os roteiros normalmente são maniqueístas. Já nos animes, as histórias apresentam personagens com arquétipos mais comuns, da vida cotidiana, que precisam treinar para chegar a posição de heróis, o que aumenta a identificação. 

“Todo feito que é narrado na ficção trata de experiências comuns, mas os animes trazem algo diferente, com um pouco mais de humanização”, afirma a psicóloga Soraya Sartori.

A especialista usa o exemplo de Naruto, eleito o anime mais assistido da última década no Brasil por uma pesquisa da plataforma Crunchyroll devido a humanização do protagonista. “O Naruto é um tipo desatento, hiperativo, uma criança que tem dificuldade em estudar, mas que tem um treinamento muito árduo até desenvolver suas habilidades. E isso conta muito”, explica a psicóloga sobre a identificação das crianças com o personagem. 

Sexualização nos animes

É importante ressaltar a questão da sexualização nos animes. Alguns desses seriados vêm sendo duramente criticados por conterem cenas e/ou personagens com apelo sexual, como o anime Nanatsu no Taizai (Os 7 Pecados Capitais) no centro desse debate.

Soraya Sartori reforça que é importante que os pais conheçam e se interessem pelos conteúdos que os filhos estão consumindo, que olhem o que eles estão assistindo e busquem conferir a faixa etária indicada e o enredo dos animes.

“Isso está muito mais conectado com o quanto os pais estão dentro da vida dos seus filhos, do que eles estão falando, e do quanto eles se permitem assistir junto. Não apenas um momento de discussão do que pode ou não pode”, opina a psicóloga. Embora seja importante ressaltar, de acordo com ela, que esse é um objeto de análise individual das famílias, com cada criança e com cada anime que ela deseja consumir.  

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