‘Segregar criança com deficiência é crime’, lembra ativista em resposta ao ministro

Fala do ministro contra inclusivismo é retrocesso e visão totalmente inadequada, avaliam especialistas

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Ministro da Educação diz que as crianças com deficiência “atrapalham”; crianças com síndrome de down usando óculos coloridos sentados em frente a uma mesa brincando
A educação inclusiva contribui para a formação de crianças mais empáticas e respeitosas

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“As crianças com deficiência não são um peso, elas são cidadãos que merecem respeito e merecem ser incluídas nas políticas de educação do país. Segregar crianças com deficiência do resto da sociedade é um crime contra a humanidade”, afirma Amira Awada, vice-presidente do Instituto Vidas Raras, numa reação dura às recentes declarações do ministro da Educação, Milton Ribeiro. Na quinta-feira (19), o titular do MEC declarou que há crianças com “um grau de deficiência que é impossível a convivência”. A afirmação provocou críticas e reações de grupos e associações de apoio às pessoas com deficiências e doenças raras em todo o país. Antes da declaração polêmica, Ribeiro havia concedido uma entrevista em que afirmou que os estudantes com deficiência atrapalham o aprendizado de outros alunos.

Para Awada, as falas do ministro refletem que o pensamento do governo em relação aos direitos das pessoas com deficiência é retrógrado e representa um retrocesso. “Para nós, como instituição, é uma fala que desestimula e decepciona. Nos sentimos desamparados, como estivéssemos vivendo um período de dar passos para trás, de destruir tudo o que a gente já construiu e todas as batalhas que a gente lutou para que a inclusão dessas crianças ocorresse de uma maneira certeira”, relata.

O ministro disse que 1,3 milhão de crianças com deficiência que estudam nas escolas públicas e que, “desse total, 12% têm um grau de deficiência que é impossível a convivência”. “O que o nosso governo fez: em vez de simplesmente jogá-los dentro de uma sala de aula, pelo ‘inclusivismo’, nós estamos criando salas especiais para que essas crianças possam receber o tratamento que merecem e precisam”, afirmou Ribeiro.


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Dificuldades não podem ser desculpa para se evitar socialização

A escola deve ser um local de aprender a conviver em conjunto e todas as pessoas podem ter algo que as tornam de difícil convivência, mesmo sem ter alguma deficiência. “Cada um pode ter o seu problema de convivência, isso não é desculpa para que crianças não sejam aceitas num ambiente onde elas possam trabalhar a socialização e aprendizagem técnica. Essa declaração é infeliz, ofensiva, ultrapassada e ultrajante”, aponta Rosely Maria, diretora de comunicação do instituto.

“Existem crianças que realmente vão precisar de uma educação excepcional, porém, ele colocou todas as crianças no mesmo balaio”, explica. Rosely Maria é tia de um menino com deficiência e mãe de um garotinho típico que convive com crianças atípicas. “Meu filho se tornou uma pessoa muito melhor, não precisei ensinar que ele precisa respeitar o direito do outro de uma maneira teórica, ele já aprendeu dentro da escola. É um tipo de ensino que jamais conseguiria pagar, porque é inestimável”, conta. 

A importância da educação inclusiva

De acordo com as especialistas, é necessário que haja uma realocação de investimentos para garantir que a inclusão dessas crianças seja feita da maneira adequada nas escolas, com treinamento de professores, diretores e profissionais do colégio para que seja possível auxiliá-las em sala de aula. “Estou falando do direito básico humano à educação e à relação interpessoal. Temos que garantir que essas pessoas se desenvolvam não só de uma forma educacional como também de uma forma humana”, diz Awada.

É fundamental que a educação inclusiva seja mais trabalhada, é importante permitir que essa pessoa esteja em sala de aula e garantir que a forma de ensinamento seja adequada. “É inclusiva também para os alunos sem deficiência, porque eles vão aprender que o diferente é normal. Não é só porque a pessoa tem uma deficiência que ela se torna incapaz ou improdutiva”, destaca. A educação inclusiva contribui para a formação de crianças e adolescentes com o instinto de igualdade, de cuidado e de respeito.

“Precisamos incluí-las na sociedade e não de uma forma forçada. A frase do ministro parece que é como se eles estivessem fazendo um favor. É importante reforçar que a gente não pode manter essas pessoas a parte da sociedade como se elas não valessem nada, como se elas valessem menos que as pessoas sem deficiência”, ressalta Amira Awada. Rosely Maria concorda que na declaração de Ribeiro faltou conhecimento e empatia com as crianças com deficiência. “Quando elas são inseridas no ambiente escolar, a deficiência passa a ser só um detalhe e elas têm todos os seus direitos reservados. A fala do ministro impede futuros, impede histórias”, conclui.


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