Como, quando e por que falar sobre drogas com crianças e adolescentes

Conversas didáticas, serenas e constantes, com bastante escuta, são fundamentais e contribuem para formar jovens mais conscientes sobre os riscos dessas substâncias; pesquisas mostram que consumo tem ocorrido cada vez mais cedo e, para especialistas, pais devem ser exemplos para os filhos

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Pai e filho conversando sobre drogas na infância sentados no sofá
Conversar o quanto antes sobre drogas na infância contribui para formar jovens mais conscientes sobre o consumo de álcool e outras drogas

Leia em 6 minutos

Ao longo do desenvolvimento dos filhos, alguns temas que fazem parte da vivência em sociedade acabam surgindo aos poucos na vida das crianças, e podem pegar os pais de surpresa. Abordar questões como o uso de álcool e drogas na infância e adolescência, por exemplo, pode ser um momento complexo e se tornar até um tabu, mas ao ser feito a partir da abordagem correta, pode contribuir para que as crianças se conscientizem sobre os riscos e pontos de atenção em relação ao tema e refletir numa postura mais consciente na adolescência e vida adulta.

De acordo com dados da quarta edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada em 2019, de um universo de 11,8 milhões de estudantes de 13 a 17 anos, 34,6% tomaram a primeira dose de álcool com menos de 14 anos e 13% já haviam experimentado alguma droga ilícita. Segundo João Paulo Becker Lotufo, coordenador do Núcleo de Estudos do Combate ao Uso de Drogas por Crianças e Adolescentes da Sociedade de Pediatria de São Paulo, esse cenário evidencia uma necessidade de apresentar o tema desde a infância, e não esperar até os filhos chegarem aos 14 ou 15 anos para só então debater a questão das drogas. “Os filhos vão entrar em contato com as drogas cada vez mais cedo. Hoje, a experimentação de álcool e tabaco já começa com 9, 10 anos, e as outras drogas, por exemplo, a maconha, tem seu pico de experimentação aos 14 anos. A droga está solta em todos os momentos, então a gente tem que trabalhar essa questão desde cedo. Temos que conversar de maneira didática”, explica o especialista.

A importância de uma conversa aberta sobre drogas

João Paulo Lotufo ressalta que, mesmo se os pais estiverem abertos para conversar sobre a questão das drogas na infância e adolescência caso haja uma iniciativa por parte dos filhos, pode ser que esse assunto não chegue na família tão rapidamente: “De forma voluntária, o assunto vai demorar para ser colocado para os pais, ele aparece primeiro na roda de amigos”, pontua. Assim, é importante que desde a infância o tema seja inserido nas conversas, para que na adolescência a criança tenha consciência dos riscos e dos impactos em sua qualidade de vida que as drogas podem causar.

“Não adianta pegar um garoto de 14 anos que chegou alcoolizado em casa e tentar dar bronca. A conversa tem que ser serena, é preciso ouvir muito os jovens, mas se você faz esse esquema desde pequeno, fica fácil você fazer isso na adolescência também, onde começa a experimentação de droga e a posição do jovem de querer experimentar coisas diferentes ou de querer passar para a vida adulta”, diz Lotufo.

Guilherme Trevisan Kortas, médico psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio Libanês, também enfatiza que a conversa e conscientização por parte dos pais é um ponto positivo para as crianças e jovens, que podem, assim, ter informações confiáveis ao invés de descobrirem mais sobre a questão pela internet.

“O conhecimento sobre os riscos do uso de drogas por crianças e jovens é muito importante para os pais poderem dar as informações corretas para seus filhos, pois hoje em dia, com a tecnologia, eles são expostos a diversas fontes de informação, redes sociais e muitas dessas fontes não são confiáveis”, pontua o psiquiatra.

Dr Guilherme Trevisan Kortas, médico psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio Libanês
Guilherme Trevisan Kortas, médico psiquiatra do Núcleo de Álcool e Drogas (NAD) do Hospital Sírio Libanês | Imagem: arquivo pessoal

Impactos no desenvolvimento

O contato precoce dos jovens com o consumo de álcool e drogas pode gerar impactos em sua saúde e desenvolvimento e é considerado de alto risco, como explica Guilherme Trevisan: “O cérebro é um órgão muito complexo e termina sua fase de desenvolvimento por volta dos 25 anos de idade. Até lá, o controle de impulsos não está totalmente maduro. O uso precoce de álcool e outras drogas pode afetar esse neurodesenvolvimento: quanto mais cedo a experimentação, maior o impacto na saúde dos jovens”.

Ele também cita o risco de doenças como a hepatite, além de uma maior probabilidade de dependência na fase adulta e um maior risco de acidentes, alterações de comportamento, diminuição no desempenho escolar, e maior risco de gravidez precoce.

Nesse cenário, o exemplo dos pais e adultos com os quais a criança ou o jovem convive também influenciam diretamente na relação que irão construir com essas substâncias. Para Guilherme Trevisan, o exemplo dos pais vale até mais do que o discurso sobre a conscientização: “Se a criança crescer num ambiente regado à bebida, onde ela é exposta precocemente, ela terá mais chances de seguir o exemplo dos adultos”.

“É importante evitar que as crianças e os adolescentes façam a associação entre consumo de álcool e outras drogas com a diversão e também é essencial um bom vínculo dos cuidadores com as crianças, porque eles exercem um grande fator preventivo”, completa o psiquiatra.

Por isso, é importante os pais passarem mais tempo com as crianças, criarem um bom canal de comunicação, apoiá-los e supervisioná-los. 

Como abordar o tema?

Mesmo conscientizados sobre a relevância de abordar as drogas na infância e adolescência com os filhos, a forma de abordar a questão ainda pode gerar dúvidas entre os pais. Segundo os especialistas, a conversa pode ser feita de forma leve, lúdica e natural.

João Paulo Lotufo estuda e recomenda o método de conversar todo dia ou toda semana um pouco sobre o tema com os filhos. “O método que eu pesquiso e trabalho é o aconselhamento breve. Ou seja, gastar alguns minutos para conversar todo dia um assunto, todo dia ter um minuto. Com criança pequena, por exemplo, você pode contar histórias”, explica. No caso dos pequenos, o especialista trabalha com materiais que abordam a questão de forma didática, por meio de narrativas em livretos com personagens que envolvem a questão do consumo de álcool e drogas. 

Essa diferenciação da linguagem ao abordar o tema com crianças é apontada por Guilherme Trevisan como fundamental para que a mensagem seja transmitida de uma forma consciente, respeitando a capacidade de compreensão de cada faixa etária. 

“É fundamental adequar o que vai ser dito com a linguagem e capacidade da criança de entender, E com a maturidade dela de acordo com determinada faixa etária. Tendo isso em vista, o quanto antes puder falar do assunto, melhor”, diz Guilherme Trevisan.

O psiquiatra exemplifica algumas formas possíveis de conversar e lidar com o conhecimento sobre álcool e drogas, seguindo determinados grupos etários:

Aos 3 anos: É importante a criança receber orientações dos pais caso alguma situação entre no contexto, além de não ter contato nem com cerveja sem álcool, como era comum entre os pais antigamente, para não desenvolver o paladar e ter uma associação, que aumenta a chance do consumo. “Por exemplo, uma criança de 3 anos que vê os pais bebendo cerveja em casa e na hora da brincadeira vai dar cerveja pra sua boneca, é uma oportunidade dos pais intervirem, explicar brevemente que isso não é adequado, que isso vai fazer mal pra boneca e criança não pode beber nem de brincadeira, nem de mentirinha”, explica. 

Aos 6 anos: Por volta dessa idade, o assunto já pode ser abordado de forma mais desenvolvida, mas com cuidado para não dar uma “aula”. “É importante avisar dos riscos, de que quem bebe fica alterado, embriagado, que não pode dirigir. Já ir alertando sobre os riscos de acordo com a idade”, diz Guilherme. 

Na adolescência: Nessa faixa mais avançada, já é possível abordar informações mais técnicas, de preferência embasadas cientificamente com fontes confiáveis. Guilherme Trevisan diz que é importante “incentivar os hábitos sociais para enfrentamento de situações evitando a experimentação precoce, e evitar que futuramente haja uma relação nociva com álcool e drogas”. 

Em conjunto, ao fortalecer a relação e vínculo com os filhos na infância, se torna mais possível ter conversas abertas sem tratar o tema de forma preconceituosa ou moralista, perceber alguma necessidade de conversa e moldar um cenário em que se evite uma relação nociva com drogas e álcool na adolescência.

“Dar limites em casa, almoçar junto com os filhos, verificar o que os filhos fazem nas horas vagas, acompanhar os deveres. Todas são atitudes simples que você pode ter em casa pra evitar não só a experimentação de drogas, mas também beneficiar o relacionamento entre pais e filhos”, pontua o Dr João Paulo Lotufo.


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