Não se acanhe quando tiver somente um colo a oferecer a seu filho

É comum que mães e pais se sintam impotentes frente aos desafios que os filhos vivenciam, mas o que parece simples demais, um colo, pode ser muito poderoso

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Pai está em pé, abraçado com a filha no colo

Se existe uma coisa que incomoda coração de pai e de mãe é não saber como ajudar um filho, né? É muito comum os pais desejarem sempre ter a resposta, o conselho, a solução ou o direcionamento do que fazer quando um filho precisa de nós. Às vezes pode ser um conflito na escola, ou uma frustração por não ser convidado para ir à casa do amigo, uma nota ruim em uma prova mesmo tendo se preparado para ela, ou até mesmo um bebê recém-nascido que não para de chorar com cólicas.

Tudo isso desperta em nós um instinto fundamental da espécie humana: proteger a cria. Isso é inerente em nós. A dor do filho, seja ela física ou emocional, gera em nós um desconforto e isso nos move para resolvê-la. Esse mecanismo é essencial para a preservação da nossa espécie. Cuidamos uns dos outros, formamos um bando, um grupo, uma família.

Quando uma criança nasce, ela é 100% dependente de alguém. Se ela não for protegida, alimentada, cuidada e amparada no que precisar, ela não vai sobreviver. Por isso, nós pais sentimos esse desconforto quando um filho precisa de nós e não sabemos o que fazer, ou não temos o que fazer para resolver o problema. Nesses momentos a sensação que nos invade é de que estamos falhando com eles.

Recentemente atendi duas mães que estão em fases completamente diferente da maternidade, mas que se sentiram de maneiras bem parecidas diante dos desafios de educar uma criança. Uma com um filho pré-maturo, naquela fase bem desafiadora dos 3 primeiros meses de vida. A fase, das madrugadas intermináveis, da luta com a amamentação, da privação de sono e das incansáveis cólicas. A outra com o filho pré-adolescente, passando por desafios de socialização na escola com o retorno das aulas presenciais. Choro, medo, crises de ansiedade e inibição social.

Atendi essas mães no mesmo dia e apesar de terem relatos tão diferentes, a dor que elas tinham era a mesma: se sentiam impotentes diante dos desafios que os filhos estavam vivendo. Já haviam tentado tudo o que podiam, mas os filhos ainda estavam sofrendo.

Como é difícil para nós aguentarmos esse desconforto, né? Quando um filho sofre queremos arrancar a dor deles e colocar em nós! Faríamos qualquer coisa para não doer neles. Mas e quando não temos esse superpoder? Quando não há mais nada a fazer?

Nesses momentos, por mais insuficiente que pareça, o melhor que podemos fazer é simplesmente estar com eles. Às vezes nem teremos o que dizer, às vezes vamos ter vontade de chorar enquanto eles choram, às vezes só temos um colo para oferecer ao filho.

O que eu disse para aquelas mães? Fiz a seguinte pergunta: Tem coisa melhor que poder chorar no colo de alguém que nos ama e é nosso apego seguro? Isso acalmou o coração delas. Nem precisei explicar que existe um experimento, uma pesquisa feita com
casais que avalia como é passar por um evento estressor sozinho ou acompanhado por alguém que confiamos. No primeiro momento, as mulheres recebiam pequenos impulsos elétricos (choques) desacompanhadas. Depois recebiam os choques estando de mão dadas com o parceiro.

As conclusões dessa pesquisa são lindas, mas vou resumir assim: quando estamos de mãos dadas com alguém que é nosso apego seguro, conseguimos passar por momentos de estresse e de dor de uma maneira mais suave. Então, não se acanhe quando só tiver um colo para oferecer a seu filho.


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Patrícia Nolêto de Campos, é mãe da Clara, 4 anos. Psicóloga, palestrante, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, trabalha há mais de 19 anos com psicologia clínica com atendimento a adultos crianças, adolescentes e pais. Desenvolveu workshop de Treinamento de pais e Treinamento de Educadores e ferramentas terapêuticas que facilitam a regulação emocional das crianças. Saiba mais em http://www.patnoleto.com.br

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