Obesidade infantil: pediatras americanos lançam diretriz para combater doença

Documento reconhece que o tratamento da obesidade é mais complexo do que apenas a recomendação de mudanças na alimentação e na prática de exercícios físicos e sugere uso de medicamentos

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Criança obesa sem camisa segura na gordura da cintura
A obesidade hoje é considerada uma doença crônica e multifatorial
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Por Agência Einstein – A Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou um documento com a primeira diretriz para o tratamento da obesidade infantil. O texto enfatiza que a intervenção médica contra a doença crônica em crianças passa a ser mais ampla e complexa do que apenas recomendar mudanças na alimentação e na prática de exercícios físicos. De forma inédita, os autores indicam o uso de medicamentos como parte do tratamento. Eles sugerem, ainda, o encaminhamento de adolescentes obesos com mais de 13 anos para cirurgia bariátrica nos casos considerados graves.

O documento foi publicado no site da AAP e tem como base uma extensa revisão de estudos, relatórios técnicos e recomendações sobre o tema, reconhecendo que a obesidade é uma doença. Antes disso, prevalecia o último texto publicado em 2007, que era mais genérico e baseava todo o tratamento somente na mudança comportamental, com foco na alimentação e no exercício físico. 

“É a primeira vez que temos um documento voltado para pediatras. Traz atualizações e orienta o manejo do tratamento da obesidade na população pediátrica. Tudo o que existia até agora era pautado apenas na mudança de estilo de vida, como se a obesidade fosse uma escolha. A partir de agora, a obesidade infantil passa a ser reconhecida como uma doença crônica e deve ser tratada como tal, com todas as ferramentas disponíveis, incluindo os medicamentos”, explicou Daniel Servigia Domingos, endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein. 

As diretrizes continuam recomendando as medidas comportamentais, mas reconhecem que elas sozinhas podem não ser suficientes e, por isso, indicam o acompanhamento médico e o uso de medicamentos. “Mudamos a visão sobre o que é a obesidade. Hoje, nós sabemos que ela é uma doença crônica e multifatorial e que envolve fatores genéticos, sociais, comportamentais, metabólicos e ambientais. Cada pedacinho desses contribui para o problema”, explicou o endocrinologista.

Medicamentos para o tratamento

Por muito tempo, crianças e adolescentes não tinham nenhuma terapia disponível para tratamento da obesidade, mas, nos últimos anos, vários medicamentos seguros e com bons resultados foram lançados. Segundo Domingos, no Brasil, está aprovada a medicação liraglutida para uso em crianças com mais de 12 anos e com obesidade. Os outros medicamentos — como sibutramina, metformina e orlistate — ainda são usados fora da bula, dependendo do caso.

Para o especialista, a diretriz é um avanço porque uma boa parte das crianças com obesidade será formada, no futuro, de adultos obesos, caso elas não se tratem da doença. E o sobrepeso ou obesidade podem levar ao surgimento de hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes e outras complicações de saúde mais cedo. 

O médico ressalta que é preciso acabar com o mito de que bebê gordo é bebê saudável e, também, de que a criança obesa vai crescer e emagrecer sozinha. “Estudos recentes apontam que o tratamento farmacológico da obesidade associado com mudanças de estilo de vida alcança resultados superiores às medidas baseadas apenas em dieta e mudanças comportamentais”, disse.

Com relação à cirurgia bariátrica, a diretriz reconhece que o paciente com obesidade grave e com mais de 13 anos pode ser encaminhado para um serviço especializado em cirurgia bariátrica e metabólica. “Não é que a diretriz faça a recomendação para fazer a cirurgia, mas ela sugere que o paciente seja avaliado por um serviço que tenha essa expertise”, pontuou Domingos.

Tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, a recomendação para crianças com menos de 12 anos continua sendo o tratamento intensivo de mudança de comportamento e estilo de vida focado na família, que tem papel essencial para o sucesso do paciente. 

“Nesses casos é preciso ter um acompanhamento multiprofissional com nutricionista, educador físico, pediatra, endócrino infantil, psicólogo. A diretriz recomenda um contato mais próximo com o paciente, com retornos mais frequentes, e acompanhamento com consultas presenciais e contato mínimo de 26 horas por ano”, afirmou.

Ministério da Saúde lançou manual

Segundo o Ministério da Saúde, em 2020, de todas as crianças acompanhadas no Sistema Único de Saúde (SUS), 15,9% dos menores de 5 anos e 31,8% das que tinham entre 5 e 9 anos tinham excesso de peso. Dessas, 7,5% das menores de 5 anos e 15,8% das entre 5 e 9 anos estavam obesas. Quanto aos adolescentes, 31,9% apresentavam excesso de peso e 12% obesidade.

O aumento dos casos de obesidade é um problema de saúde pública. O governo brasileiro lançou em agosto de 2022 o primeiro manual sobre o tema, que condensa orientações sobre como promover uma alimentação saudável e recomendações para reduzir o sedentarismo. Além disso, apresenta um panorama sobre a magnitude e as repercussões da obesidade. O material faz parte da campanha do governo chamada “Vamos prevenir a obesidade infantil: 1,2,3 e já!”.

Domingos ressalta que a nova diretriz americana tem um grande impacto na condução dos tratamentos da obesidade na infância, com informações essenciais para os médicos. “Não existe obesidade saudável. Com certeza esse documento passará mais segurança para os profissionais para que eles prescrevam medicamentos para os seus pacientes desde a infância, desde que tenha indicação. Você tratando desde a infância, você reduz o risco de comorbidades e reduz o risco de ser um adulto obeso”.

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