Pais vacinados, filhos não vacinados: como a fica a rotina da família agora?

Aniversários, shopping, viagens... O que podemos fazer com segurança? Um infectologista da UFPR e um pediatra da Unicamp esclarecem as principais dúvidas dos pais neste momento

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Pais vacinados, crianças não vacinadas: como fica a rotina da família agora?
Apesar do avanço da vacinação, tem crescido a proporção de casos de infecção por Covid-19 de crianças e adolescentes, exigindo portanto cautela dos pais

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Muitos pais e mães já receberam as duas doses da vacina contra a Covid-19 e aos poucos retomam as atividades presenciais do dia a dia, como o trabalho, a volta às aulas dos filhos e pequenos eventos com interações sociais entre amigos e ou familiares. Porém, as crianças abaixo de 12 anos ainda não estão vacinadas, o que tem gerado muitas dúvidas nas famílias quanto a o que é seguro fazer agora ou não. Festas de aniversário, shoppings e viagens, por exemplo, são indicados neste momento?

Para o infectologista Bernardo Montesanti Machado de Almeida, do Serviço de Epidemiologia Hospitalar do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a melhora da situação da pandemia, de fato, permite alguns encontros, desde que tomados os devidos cuidados. “Comparado ao momento que já vivemos, de grandes restrições, dá para relaxar, mas ainda não na normalidade completa”, afirma. O infectologista ressalta que estamos em um período de queda da Covid-19, o que é muito bom, mas a circulação do vírus ainda é intensa. “Encontros podem ser feitos mas com um número limitado de pessoas e seguidas as medidas básicas de cuidado, principalmente, em relação aos ambientes, que devem ser sempre ventilados”.

O pediatra Roberto Teixeira Mendes, professor doutor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, reforça que o momento pede cautela. “Pais mesmo vacinados podem se infectar e transmitir para os filhos. É importante lembrar isso porque as pessoas acham que ao estarem vacinadas não precisam mais se proteger, mas não é assim, o risco de se infectar é menor mas existe”, pontua o médico.

Mendes recorda que a obrigação dos pais é manter os filhos em segurança. “As crianças, vacinadas ou não, estão expostas ao vírus, e o adulto responsável, seja pai, mãe, professora ou cuidadora, tem que proteger e não colocar as crianças em risco, evitando, logo, ambientes e pessoas que possam estar infectadas”, relata o médico. A seguir, os especialistas esclarecem algumas das dúvidas mais comuns que as famílias têm tido neste momento de volta à vida quase normal.

Encontros em ambientes fechados com amigos e familiares já vacinados são permitidos agora?

O ideal é que esses programas sejam feitos em lugares amplos e ventilados, ao ar livre, preferencialmente – e não em lugares fechados. Tanto adultos quanto crianças devem usar máscara. “Se for dentro de casa, é importante abrir todas as janelas e deixar o ar circulando, mantendo certo distanciamento, se possível. As reuniões devem se limitar a cerca de 20 pessoas, no máximo, orienta o infectologista. Ele lembra que país está em um momento epidemiológico favorável, mas ainda há quem contraia a doença mesmo com a vacina e cresce o número de pessoas infectadas pela variante delta. Some-se a isso o fato de que a imunidade fornecida pela vacina cai ao longo tempo, tanto que já estão sendo dadas doses de reforço nas pessoas de mais idade, o que exige portanto a manutenção dos cuidados básicos como distanciamento, uso de máscara e higienização constante das mãos.

Festas de aniversário infantil são permitidas?

Sim, desde que em pequenos grupos e seguidos os protocolos básicos de cuidado. “É importante saber onde será realizada a festa, se o local é aberto e permite ventilação, quantas pessoas foram convidadas e se elas estão usando máscara”, aconselha o professor da Unicamp. Para evitar aglomerações, uma alternativa é convidar apenas as crianças mais próximas e sem os adultos – ficando os pais encarregados de levar e buscar os filhos, o que diminui significativamente o número de pessoas na festa.

Podemos levar as crianças para restaurantes ou shoppings?

Depende. Se o restaurante oferece espaço ao ar livre, é mais seguro. No entanto, lugares fechados e não ventilados ainda não são recomendados, na opinião dos especialistas. Para Almeida, se a ida ao shopping ou a outro ambiente fechado for indispensável, que seja feita de forma o mais breve possível e sem as crianças, seguindo as medidas de proteção. “Nos fins de semana, os shoppings estão lotados. Se preciso, o melhor é ir nesses locais em dias e horários mais vazios como a segunda-feira de manhã”, sugere o pediatra.

É verdade que as crianças estão mais suscetíveis a contrair a Covid-19 agora?

Recentemente, a diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Carissa F. Etienne, chamou a atenção para o impacto da pandemia nas crianças. “À medida que mais adultos recebem suas vacinas contra a Covid-19, as crianças – que ainda não são elegíveis para vacinação na maioria dos países – representam uma porcentagem maior de hospitalizações e até mortes por Covid-19”, ressaltou a diretora da OPAS em coletiva de imprensa. De fato, com vacinação da população adulta, a proporção de casos de infecção de crianças e adolescentes aumentou significativamente. E é natural que isso aconteça, explica o infectologista da UFPR. “À medida que elas não estão imunizadas, a chance de contraírem a infecção é maior comparado aos pais, mas o risco de complicações é baixo”, ressalta ele.

Com professores e funcionários vacinados, os surtos nas escolas deixaram de ocorrer?

Provavelmente, não, mas como as crianças são muitas vezes assintomáticas e não são feitos exames de confirmação da doença, nem sempre sabemos se elas contraíram o vírus. De acordo com o infectologista, dados mostram que 55% das crianças com Covid-19 não apresentam sintomas, dificultando detectar a doença. A falta de testagem regular, em especial, em crianças, devido ao desconforto que o exame provoca, também prejudica a identificação de casos nos pequenos. “O ideal seria fazer o teste uma a duas vezes por semana na população em geral, para identificar inclusive casos leves ou assintomáticos que passam batido. A gente tem indícios de que somente 20 a 30% das infecções do coronavírus são detectadas. Ou seja, 70% dos casos não são diagnosticados. O tamanho da pandemia é muito maior do que imaginamos. Há estatísticas que indicam que mais de 40% da população brasileira já contraiu a infecção”, analisa o infectologista da UFPR. Esse percentual é bem maior do que o numero de casos confirmados no país hoje, em torno de 10% da população, segundo o site congressoemfoco.uol.com.br, que usa dados das secretarias estaduais de saúde de todo o país.

As escolas têm seguido protocolos sanitários seguros?

Para Almeida, a principal medida de contenção do coronavírus nas escolas – a ventilação dos ambientes – nem sempre é seguida. “Já é consenso que as escolas devem funcionar, porém com medidas para minimizar a circulação do vírus. A ventilação das salas de aulas é uma das medidas mais importantes para diminuir o impacto da doença nessa população de crianças não vacinadas, mas não tem sido muito valorizada. As escolas não foram readaptadas. Já passamos um ano de pandemia com escolas fechadas, que tiveram portanto a oportunidade de adaptar salas aulas e fazer algo para maior circulação e recirculação de ar nos ambientes, porém muitas não fizeram nada”, lamenta o infectologista.

Viagens com crianças são recomendadas?

Sim, preferencialmente, de carro e para locais ao ar livre, como o campo ou a praia. “Se for uma viagem em família com os mesmos indivíduos que vivem juntos, dá para relaxar no sentido de que não vai ter interação com outras pessoas”, diz Almeida. Deve-se prezar por viagens que façam com que as ações – como compras e atrações – sejam sempre em áreas externas. “Outro tipo de passeio, como um show em local fechado eu não recomendaria de forma alguma. Os pais têm que caracterizar muito bem as viagens e interações em geral”, avalia o infectologista. Já viagens de avião ou ônibus pedem o uso de mascara por todo período. E por ser um ambiente fechado o ideal é usar máscaras de qualidade superior, como as cirúrgicas, utilizadas em ambiente hospitalar, ou a PFF2 ou N95, recomenda especialista da UFPR.  

Como lidar com a retomada de atividades e de interações sociais após mais de um ano evitando-as?

“O principal é puxar realmente pela consciência. Entendo que estão todos cansados, a mobilidade está praticamente normalizada, já demos um salto enorme, tivemos uma avanço considerável do ponto de vista de tender ao retorno, ao normal, mas ainda estamos em processo importante de controle do vírus, é preciso não atropelar as etapas de modo a garantir que a pandemia siga trajetória otimista para manutenção dessa melhora”, pondera Almeida.


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