‘Pais precisam perder o medo de entrar no quarto dos próprios filhos’

Por mais desafiador que seja manter-se próximo aos filhos adolescentes, é preciso persistir, diz a educadora Carolina Delboni, que acaba de lançar um livro sobre os desafios da adolescência na contemporaneidade

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A educadora e jornalista Carolina Delboni mostra a capa de seu livro Desafios da adolescência na contemporaneidade
Carolina Delboni | Foto: Silvana Garzaro/Divulgação
Buscador de educadores parentais
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Mal-humorados, viciados em telas, monossilábicos, contestadores, bagunceiros, vivem trancados no quarto e não gostam de colaborar nas tarefas da casa. A lista de queixas contra os adolescentes é extensa. Mas será que essa fase da vida se resume somente a isso? Para a educadora e jornalista Carolina Delboni, é preciso desmistificar a adolescência e aprender a ver o que ela tem de bom, porque há sim coisas boas. Mãe de três filhos adolescentes, ela lançou em fevereiro o livro Desafios da adolescência na contemporaneidade – Uma conversa entre pais e adolescentes, da Summus Editorial.

“Mesmo que já tenham crescido e ganhado autonomia, eles não são independentes e ainda precisam do contorno dos pais. Isso quer dizer: carinho e limites”, ressalta Carolina, que há quase dez anos pesquisa a adolescência e escreve sobre o tema no Estadão.

Ela lembra que educar dá trabalho e é preciso persistir e não abandonar o filho. Em vez de bater de frente, mais vale se interessar pelo universo do adolescente, valorizá-lo, até para que o filho consiga ver nos pais a admiração e assim passe a escutá-los. “Eu sempre digo: respeite para ser respeitado.” 

O processo não é fácil, sobretudo para as famílias que se apegaram demais aos filhos na infância e depois sofrem com o afastamento, quando eles passam a buscar a própria identidade. Para os pais, isso pode ser um tanto assustador, mas se o filho muda, a família tem que mudar também, refazer vínculos e prioridades e buscar outra dinâmica, afirma a psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão, no prefácio do livro. 

A obra está dividida em quatro partes e aborda os clichês ligados a essa faixa etária (sobre os quais os pais devem se desfazer), a educação dentro de casa e na escola, as relações sociais no universo adolescente, e as sequelas que a covid-19 deixou nessa geração.  

Transtornos mentais, fobia social, uso indevido das redes sociais, pressão por desempenho, educação sexual, bullying e cyberbullying, drogas, álcool, masculinidade tóxica e adolescentes transgêneros são alguns dos temas tratados no livro. 

Seja qual for o desafio, o caminho passa pela conversa. Para Carolina, é preciso entrar no quarto do filho, sentar na beirada da cama, puxar assunto e ser o exemplo que irá inspirar o comportamento do adolescente dentro e fora das redes sociais. A seguir, leia a entrevista concedida pela autora por e-mail à Canguru News

1. É possível construir uma relação saudável com os filhos adolescentes?

Sem dúvida que sim! A começar desconstruindo essa visão desafiadora da adolescência. Isso não significa ignorá-la ou não lidar com ela, mas sim entender que a adolescência é uma fase muito bacana também. É preciso desmistificar esta fase da vida e aprender a olhar o que tem de bom – porque tem – e como nós, adultos da relação, podemos contribuir para que o cotidiano seja mais saudável a todos. Sim, essa responsabilidade é do adulto. Mesmo que já tenham crescido e ganhado autonomia, não são independentes e ainda precisam do contorno dos pais. Isso quer dizer: carinho e limites. É preciso estar disposto a quebrar os estigmas e quebrar o tabu por trás do adolescer. A gente costuma “desistir” deles quando entram na idade da ilha – conhece essa brincadeira? Leva para uma ilha distante e busca 10 anos depois – e despenca uma lista de reclamações sobre eles, mas quem, com tanto dedo apontado, vai continuar te sorrindo e sendo gentil?

2. Qual a importância do diálogo com os filhos adolescentes? 

Ele é vital e é quem garante o elo entre pais e filhos. Mas nem todo adolescente está disposto a conversar como dois adultos conversam, sentados numa mesa, por exemplo. É preciso pensar em formas alternativas de dialogar, lembrando que eles melhor escutam do que falam. São bons ouvintes. E essa é uma dica para puxar uma conversa ou garantir o diálogo na relação. Fale você, adulto. Se algo está te preocupando, verbalize. Se você precisa tocar em assuntos que considera mais difíceis, como drogas e sexo, conte uma experiencia pessoal, de algo que já viveu com os colegas. O adolescente precisa perceber a vulnerabilidade dos pais. Ele já sabe que os pais não são invencíveis (o que a criança ainda acredita) e portanto precisa conhecer outro lado dos pais, para poder admirar. O adolescente vai conhecer a força dos pais também pelas fraquezas e esse é um canal de diálogo possível.

3. Há pais que, diante das dificuldades em se entender com os filhos, decidem abandoná-los, deixando-os fazer o que querem. O que dizer a esses pais? 

Não abandonem, não desistam, porque quando mais parece que eles não precisam de vocês, é quando precisam. Quanto mais enfrentam, mais querem colo. Educar dá trabalho e é preciso persistir. A gente não abandona a criança, por que abandonar o adolescente? O que eles precisam é de mais empatia e compreensão. Bater de frente, desafiar o adolescente não é uma maneira saudável e “produtiva” de construir relacionamento com eles. Brigar a todo momento faz com que a relação se desgaste ao ponto dos pais quererem desistir e aqui é preciso repensar em tudo. A começar pelas brigas. Quais valem a pena? O que eu não abro mão como pai ou mãe e quero que meu filho realmente aprenda a importância? Não dá pra brigar por tudo, querer que eles façam tudo (se portem como adultos que ainda não são), não dá para menosprezar o sentimento do adolescente, não dá para achar que as coisas que ele fala, ouve ou vê são bobas e fúteis. É preciso valorizar o que vem do universo do adolescente para que ele também consiga ver nos pais a admiração, e daí escutá-los e respeitá-los. Eu sempre digo: respeite para ser respeitado.

4. A pandemia e o isolamento social agravaram problemas de saúde mental entre os jovens. Muitos passam horas no quarto plugados à internet, mas desconectados de suas famílias. É a chamada “geração do quarto”, segundo definiu o pesquisador Hugo Monteiro Ferreira. Lidar com essa questão agora é um desafio, não? 

Sim, aqui temos um quadro bem complexo e com muitas muitas variantes. Eu diria que os pais precisam fazer o seu trabalho, que é, não só querer tirar o adolescente do quarto, mas se dispor a entrar no quarto e se relacionar com aquele universo. Por mais que adolescentes deixem as portas fechadas, eles precisam das portas abertas e isso requer movimento dos pais. O que significa? Sentar na beirada da cama do filho e puxar assunto, mostrar alguma coisa, conversar algum tema, dar um abraço. Pais precisam perder o medo de entrar no quarto dos próprios filhos.

5. Como chegar a um equilíbrio entre a supervisão do uso das telas e respeito à privacidade?

Ninguém gostaria de uma mãe ou um pai lendo os nossos diários décadas atrás, certo? O que é que autoriza os pais a fazer isso agora? A facilidade, o medo ou a falta de confiança? Não se lê conversa que não é nossa. É desrespeitoso e como já disse: respeite para ser respeitado. Se você criou uma relação de confiança e troca com seu filho, não há o que temer. Claro que ele vai acessar conteúdos que você não quer, vai usar palavrões, vai se comportar de maneira que muitas vezes os pais não aprovam, mas faça a sua parte do lado de cá: converse, estabeleça vínculo afetivo, alimente seu filho de outros conteúdos e leituras, mostre coisas que você valoriza e acha bacana, seja o exemplo. Quer que ele respeite as meninas? Mostre respeito por sua filha dentro de casa. Quer que ele entenda o que é uma relação machista? Estabeleça igualdade de tarefas domésticas. Permita que os meninos chorem, digam o que sintam sem serem tachados de gays ou o que for. São exemplos cotidianos que dizem muito das relações que os adolescentes terão nas redes sociais. É um reflexo e é um mundo só, ele só acontece em plataformas diferentes, lugares diferentes. Mas respeito é respeito em qualquer lugar da Terra.

6. Como fazer os jovens entenderem os riscos do consumo de drogas e bebidas, num país em que essas práticas são tão comuns? 

Difícil, mas conversando abertamente. Expondo os perigos e falando dos prazeres também. A bebida representa uma experiência de acesso ao mundo adulto. E como beber é uma prática comum entre adultos, serve como modelo a ser seguido pelos adolescentes e jovens. Também a possibilidade de alterar a própria consciência e experimentar novos estados psicológicos importa para os jovens, já que eles estão exatamente em uma idade de renovação da personalidade. E o álcool é uma alternativa fácil que a sociedade oferece para essa experimentação, ainda que sem orientação a respeito dos riscos. Não dá pra negar o prazer das drogas, mas é preciso falar das consequências, daquelas que fazem sentido para eles. Jovens que começam a beber mais cedo têm mais chances de se tornarem dependentes do álcool quando adultos. Os que começam a beber aos 14 anos têm probabilidade quatro vezes maior de apresentar dependência alcoólica do que aqueles que iniciam o consumo após os 21 anos de idade. O início precoce do consumo aumenta o risco de lesões corporais, o envolvimento em acidentes com veículos. Eleva também a vulnerabilidade a riscos, como gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis. Mulheres e meninas, como sempre, são as principais vítimas. Mas vale também orientar a quem pedir ajuda caso bebam e caso usem alguma droga e passem mal (porque este dia vai chegar).

7. Quais caminhos apontar para uma maior aceitação dos adolescentes LGBTQIA+?

Bom, aqui são os pais que precisam buscar caminhos para que eles aceitem melhor as escolhas sexuais e de gênero dos filhos. Estamos diante de uma geração que lida de maneira muito mais simples e natural com a própria sexualidade e a dos outros, e estão abertos a vivenciar possibilidades irrestritas de gênero. Tudo em nome da construção da própria identidade. A sexualidade e as experiências sexuais, nesta fase, têm um papel importantíssimo na constituição de quem eles são e como se apresentam ao mundo. Além da própria experimentação, ela contribui para formar o sujeito. E foi-se o tempo das experiências convencionais. Do beijo e do sexo, único e exclusivamente, entre meninos e meninas. Vale a experimentação do beijo. Vale a experimentação da relação sexual. Não importa se são duas meninas juntas ou dois meninos, ou outras configurações. E os pais estão perdidos. Muitos acham errado menino beijar menino ou meninas beijarem meninas. Muitos pais não conseguem compreender como um filho que nasceu menino não se vê num corpo masculino. Acham que é uma “pouca vergonha” esse “troca-troca” que eles fazem. Ficam indignados, não sabem lidar, querem proibir os filhos de saírem com fulano ou beltrano. A única “saída” é buscar informação, aprender, procurar entender o que acontece na cabecinha e no corpo deles. Converse com a ginecologista, com o hebiatra, pediatra, clínico geral, enfim… Use os recursos à disposição para buscar conhecimento, mas não se feche na bolha do preconceito.

 8. Como você percebe o engajamento dos jovens em causas sociais, ambientais ou feministas? 

Ele é forte, acho que como em toda adolescência e juventude. É nessa fase da vida que a gente acredita que as mudanças são possíveis de acontecer e é isso que eles buscam. Os movimentos acontecem mais nos espaços onde eles circulam do que nas ruas, como estamos acostumados a ver. São nas escolas, nas praças, nos clubes, e nas redes sociais. É uma geração engajada com as causas sociais que se fazem presente no mundo em que vivemos. E muitas vezes são eles que provocam as mudanças, basta ver os movimentos de coletivos feministas nas escolas e os avanços que tivemos quando o assunto é pobreza menstrual, por exemplo. São meninas que, conscientes de seus direitos, buscam maneiras de tê-los como garantia.

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Verônica Fraidenraich
Editora da Canguru News, cobre educação há mais de dez anos e tem interesse especial pelas áreas de educação infantil e desenvolvimento na primeira infância. É mãe do Martim, 9 anos, sua paixão e fonte diária de inspiração e aprendizados.

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