Os riscos da automedicação na infância

Uso excessivo e sem orientação médica de remédios para abaixar a febre, anti-inflamatórios e até vitaminas pode ter consequências graves para as crianças, alertam médicos; hábito de muitos pais se agravou na pandemia

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Mãe dá remédio para filha
Muitos pais medicam as crianças, sobretudo com antitérmicos e anti-inflamatórios, sem consultar médicos
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Hábito bastante comum entre os brasileiros, a automedicação também atinge boa parte das crianças. Os pais, ao se depararem com pequenos sintomas em seus filhos, muitas vezes automedicam as crianças sem antes pedirem orientação a um profissional especializado.

Segundo Ana Cristina Loch, pediatra especializada em infectologia pediátrica, ao medicarem seus filhos sem orientação médica, os pais, além de expor as crianças a uma possível intoxicação, também podem mascarar sintomas de uma doença mais grave. Na maioria dos casos, esses sintomas são mascarados pelo uso de anti-inflamatórios, os quais são vendidos em farmácias por todo Brasil sem a exigência de receita. Segundo o CFF (Conselho Federal de Farmácia), os anti-inflamatórios, antitérmicos e analgésicos representam 50% dos medicamentos mais usados para automedicação no Brasil.  

“O uso excessivo e sem necessidade de antitérmicos e analgésicos, queridinhos dos pais quando se fala em febre e dor, sempre levam a alguma consequência, como por exemplo, uma intoxicação hepática. Ibuprofeno e Dipirona, remédios que aparentam ser inofensivos, podem trazer sérias consequências para medula, rins e fígado”, relata a médica. 

A médica ainda explica que, ao habituarem seus filhos a tomarem remédio diante de qualquer sintoma de dor, os pais podem estar criando adultos hipocondríacos e resistentes a certas dosagens de medicação. “Muitas vezes, problemas como dor de cabeça e febre, que podem ser resolvidos com repouso, são tratados com medicação desnecessária e doses erradas. Essas crianças se tornam adultos resistentes a baixas dosagens, cada vez mais dependentes de remédios mais fortes. Essa dependência pode até desencadear quadros de hipocondria.” 

Quando se fala sobre a ingestão de doses erradas de medicação, o neuropediatra especialista em comportamento infantil Marcone Oliveira joga luz sobre a possibilidade de acontecer uma interação medicamentosa. Nesses casos, a criança está usando um outro medicamento antes prescrito e, com o uso de um remédio automedicado pelos pais,  o remédio sem prescrição médica pode potencializar ou diminuir o efeito do outro. 

“Também precisamos levar em conta o quanto a pandemia aumentou a busca por automedicação. Temos uma estrutura médica que não consegue atender a população e, após a pandemia, com essa série de restrições, houve um aumento daqueles casos de pais que vão à farmácia e se orientam com profissionais não especializados” relatou Marcone.

Os preferidos dos pais

Vale lembrar que os anti-inflamatórios e antibióticos não são os únicos vilões quando se fala em automedicação. Até as vitaminas, que parecem ser inofensivas, quando usadas em altas doses e de maneira desenfreada, podem representar um risco para as crianças. Por serem remédios associados à alta da imunidade, vitaminas C e D costumam fazer sucesso entre os pais.

A pediatra Ana Cristina alerta que as vitaminas também podem representar casos de intoxicação, a chamada hipervitaminose. De acordo com a médica, nenhum remédio deve ser ingerido sem o devido acompanhamento de um especialista, por mais que já tenha sido prescrito em outras ocasiões. 

De acordo com a Adriana Monteiro de Barros Pires, pediatra, presidente do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo, os riscos da automedicação não param por aí. A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alerta que 23% dos casos de intoxicação infantil estão ligados à ingestão acidental de medicamentos armazenados indevidamente. 

Os pais que têm como hábito medicar seus filhos sem prescrição médica normalmente possuem grandes estoques de medicamentos em casa. “Muitos medicamentos são coloridos e adocicados, o que pode atrair a atenção da criança, que pode fazer seu uso quando um responsável não estiver por perto. Muitos responsáveis oferecem medicamentos para as crianças dizendo se tratar de balas, o que pode fazê-las pensar que se trata de algo inofensivo e que pode ser consumido sem nenhum problema” afirma Adriana Pires.

A médica ainda reforça que os filhos sempre tendem a seguir os passos dos pais. Os menores observam e percebem tudo. “Pais que tendem a medicar qualquer sintoma por conta própria, abrindo caixas de remédios na frente dos filhos estão deixando exemplos claros da necessidade de medicar, mesmo que ela na verdade não exista”.

O recomendado é que qualquer tipo de medicação, pareça ela inofensiva ou não, somente seja usada em caso de prescrição médica. O uso sem orientação, ao invés de ser benéfico, pode ser a fonte de outros problemas futuros. 


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