Criança ciumenta: como ajudá-la a lidar com esse sentimento

Especialistas explicam os motivos que podem levar o filho a sentir ciúmes do brinquedo ou do irmão que acabou de chegar, e dão orientações sobre o assunto

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Mãe distraída no computador enquanto filha chateada e enciumada senta ao seu lado.
O ciúmes infantil pode aparecer de diversas formas na vida das famílias

Ciúmes do irmão mais novo, do brinquedo favorito, dos amigos, da mãe, do pai… O ciúmes é um sentimento natural e inerente do ser humano, que se manifesta desde a infância em diversas situações. Embora, muitas vezes, os pais achem que se trata de uma bobagem e não levem os filhos muito a sério, é importante ajudá-los a lidar com esse sentimento. “O ciúmes se manifesta quando a criança se sente ameaçada a perder algo de que gosta, como um brinquedo ou uma pessoa, por exemplo. Ele é uma manifestação de aversão a algo que pode ser tirado de você” diz a psicóloga Lucy Perez.

Até por volta dos cinco, seis anos de idade, é comum que as crianças tenham ciúmes de seus brinquedos, principalmente, daqueles que elas são mais apegadas e levam junto para a cama e todos os lugares que vão. São brinquedos que dão uma sensação de segurança por remeter à casa e à família numa fase em que os pequenos estão descobrindo sua individualidade e nem sempre têm a mãe por perto para atender suas necessidades.

“A criança vê o brinquedo como uma extensão de si mesma, ela tem dificuldade de entender que aquilo não está atrelado a sua existência”, comenta Perez. E ao ver que aquilo lhe foi tirado, ela vivencia uma sensação desagradável e expressa isso por meio do ciúmes. À medida que cresce e amplia seus relacionamentos e vínculos com outras pessoas, ela se torna mais flexível e passa a emprestar seus objetos, bem como se interessar pelos dos amigos. A mediação dos pais nesse período, incentivando a troca momentânea de brinquedos pode facilitar a mudança de comportamento.

Já o ciúmes do irmão que acabou de chegar, está relacionado ao medo de perder espaço dentro da casa e ter que passar a dividir a atenção que até então era exclusiva. “A criança não imagina que vai apenas dividir o pai e a mãe numa dimensão física, ela entende que vai ter que dividir amor”, afirma Sirlene Ferreira, psicóloga e terapeuta familiar.

Perez acrescenta que esse comportamento pode ser fruto da falta de vivência com os pais e de uma relação distante com eles. “Hoje em dia, existem escolas em tempo integral, pais que se ausentam o dia inteiro. Isso tudo mexe muito no vínculo que as crianças têm com os pais. Quando os irmãos chegam, os problemas com aquele vínculo, que muito provavelmente já tinha algumas questões a serem pontuadas, ficam mais intensos. Então é mais fácil sentir ciúmes de um irmão no sentido de que ele aparece como um obstáculo para ter proximidade com os pais”, diz a psicóloga.

Ela alerta que quando as crianças não adquirem um vínculo seguro com os pais, podem apresentar comportamentos emocionais disfuncionais para o resto da vida, que surgem a partir de sinais como excesso de choro, insegurança de ficar em locais sozinhas ou mesmo se engajar em comportamentos destrutivos. Segundo a psicóloga, essas situações servem para evidenciar para os pais a necessidade de se refazer esse vínculo e reconquistar a criança.

Mais presença e afeto

Para Lucy Perez, entender a necessidade de afeto da criança e passar mais tempo com ela são algumas formas de fortalecer a relação, principalmente, para as crianças menores, de até 3, 4 anos, que entendem melhor os atos do que as falas. “Se a gente percebe a criança com ciúmes, insegura, carente, vai tentar elaborar isso junto com ela, não através da fala, mas do direcionamento do coração da criança, o que significa que vai dar mais segurança para ela, vai estar mais presente, fazer coisas juntos, inserindo-a no dia a dia da família”, orienta a psicóloga. Ela diz que esse contato consciente que os pais promovem com o filho é fundamental.

Para evitar o ciúmes do irmão recém-nascido, Sirlene Ferreira recomenda que a aproximação entre irmãos comece no pré-natal. “Eu conheço crianças que durante muitos anos foram filhos únicos, mas a gestação foi tão bem compartilhada que, ao invés de ter ciúmes, tinha uma grande expectativa por parte da criança para receber o irmão”, conta Ferreira. Ela sugere convidar o filho a sentir a barriga da mamãe e até conversar com o bebê para estreitar vínculos. Tirar fotos com a mãe grávida e pedir sugestão para nomes também são formas de envolver o filho nesse momento de espera pelo irmão. “Eu costumo dizer que não é a mãe que fica gestante, é a família que fica”, afirma Ferreira, referindo-se à importância de participação de todos os integrantes da casa com a gestação e o nascimento do bebê.

Perez ressalta que o ciúme desaparece à medida que ocorre uma maturidade emocional e o desenvolvimento biológico do cérebro, o que não necessariamente ocorre com a idade. O adulto, como tem caminhos neurológicos mais amadurecidos, é mais capaz de lidar com suas emoções e situações que lhe trazem insatisfação. Já para as crianças, isso é mais difícil – o que é esperado – mas ainda assim há adultos que são bem parecidos com as crianças nesse sentido, comenta a especialista.


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