Uma geração está sendo criada em quarentena: quais os efeitos disso?

Em casa, sozinhas, as crianças quase não veem outras crianças e fazem parte daquela que está sendo chamada de "geração Covid-19"

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'Geração covid-19': os efeitos da quarentena no desenvolvimento infantil; menina entediada olhando para tela do notebook
A tecnologia pode ajudar as crianças a interagirem com familiares distantes, mas também pode ser danosa ao desenvolvimento.

Leia em 4 minutos

A pandemia da covid-19 fez com que as crianças fossem privadas da frequência à escola, aos aniversários e aos passeios. Já se vão quase dez meses de isolamento social e isso tem deixado muitos pais – principalmente, os de crianças pequenas e que não têm irmãos – preocupados quanto aos efeitos dessa rotina no desenvolvimento infantil . Afinal, é sabido que a interação entre crianças é fator importante para que se desenvolvam bem. Ao contrário da interação, as crianças tiveram de aprender a manter distanciamento social dos amiguinhos para evitar o risco de infecção pelo coronavírus. Em casa, sozinhas, elas quase não veem outras crianças e fazem parte daquela que está sendo chamada de “geração Covid-19”.

Para diversos pesquisadores, ainda é muito cedo para publicar pesquisas sobre os impactos do lockdown, mas especialistas em desenvolvimento infantil apontam que a maioria das crianças tende a ficar bem porque, durante os primeiros anos de vida, o relacionamento com os pais é o mais importante.

Ainda sim, é sabido e comprovado por meio de um número crescente de estudos o valor da interação social para o desenvolvimento do cérebro da criança. Pesquisas mostram que as redes neurais que influenciam o desenvolvimento da linguagem e a capacidade cognitiva são construídas por meio de um processo de “dar e receber” verbal e físico — que ocorre em momentos de interação entre os pequenos, como ao ter de dividir uma bola com o amigo ou durante a troca de sons e frases simples.

Essas interações constroem “estrutura e conectividade no cérebro”, diz Kathryn Hirsh-Pasek, diretora do Laboratório de Linguagem Infantil na Universidade de Temple, na Pensilvânia (EUA) e membro sênior do grupo de pesquisa americano “Brookings Institution” ao jornal americano New York Times (NYT).

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Tecnologia – o lado bom e o ruim na pandemia

Uma das formas de promover essas trocas entre crianças é por meio de tecnologias, que são vistas pelos pesquisadores como uma oportunidade e um risco, durante a pandemia. De um lado, permitem que as crianças participem de jogos online e entrem em contato com avós, amigos da família e outras crianças, por meio de videochamadas. Mas também podem representar um risco para aqueles pais que estão constantemente checando seus aparelhos – conceito conhecido como “technoference” ou interferência tecnológica – o que atrapalha a efetividade da conversa com o filho.

Os riscos do ‘furacão social’ que é o isolamento

John Hagen, professor emérito de psicologia da Universidade de Michigan (EUA), diz ao jornal americano que estaria mais preocupado com os efeitos do lockdown sobre essas crianças da “geração Covid-19” se essa realidade “durasse anos e não meses”. “Eu apenas acho que nós não estamos lidando com algo que causará dificuldades permanentes ou a longo prazo”, diz. Contudo, Kathryn acredita que as medidas de isolamento social podem ser uma espécie de “furacão social” com dois principais riscos: crianças e bebês não estão interagindo entre si e, ao mesmo tempo, passam a ver as outras pessoas como perigosas, devido às orientações dos pais para não se aproximar de ninguém. “Nós não deveríamos ser proibidos de ver outras crianças na rua”, afirma a diretora ao jornal americano.

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As lições de eventos adversos como a Grande Depressão

Nos Estados Unidos, com o relaxamento da quarentena, pequenos grupos de vizinhos ou famílias estão se reunindo — e isso tem aliviado algumas preocupações dos pais. No entanto, regras mais apertadas em alguns estados, como Califórnia, fecharam playgrounds e reprimiram esses esforços em retomar o convívio social. O mesmo ocorreu no Brasil com o aumento de casos após as eleições e a volta de restrições em estabelecimentos.

Autoridades em desenvolvimento infantil dizem que seria útil iniciar pesquisas com a “geração Covid-19” de crianças para entender os efeitos do isolamento. Como exemplo, citam uma pesquisa publicada em 1974 que observou o crescimento de crianças que vivenciaram a Grande Depressão ou a crise econômica de 1929. “A um grau inesperado, o estudo das crianças na Grande Depressão seguiu a trajetória de resiliência anos mais tarde”, escreveu o autor da pesquisa Glen Elder, conforme destaca a reportagem do NYT.

O que bebês e crianças crescendo na era do Covid-19 precisam agora é de estabilidade, ajuda e interações amorosas com seus pais.

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Brenda Volling, professora de psicologia na Universidade de Michigan e especialista em desenvolvimento social e emocional, explica que uma lição sobre esse estudo é que crianças que se saíram melhor no futuro vieram de famílias que superaram as consequências econômicas mais prontamente e, assim, eram menos hostis, irritadas e deprimidas. Por isso, Brenda diz que o que bebês e crianças dessa “geração Covid-19” precisam agora é de estabilidade, ajuda e interações amorosas com seus pais. “Essas crianças não estão sentindo falta de interação social”, diz a pesquisadora, notando que os pequenos estão vivenciando “a mais importante” interação com seus pais.

Uma complicação, no entanto, envolve a maneira como o isolamento é sentido pelos pais e de que forma isso faz com que se conectem menos com os filhos. “Eles estão tentando gerenciar trabalho e família no mesmo ambiente”, diz Brenda. E assim os problemas surgem como uma bola de neve quando os pais se tornam “hostis, deprimidos, não conseguem responder aos filhos e ficam irritados”, caracteriza.

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