Desafios violentos no Discord e em outras redes sociais: dicas para um uso seguro

Automutilaçao, pedofilia e práticas cruéis contra animais se tornaram comuns em grupos virtuais; entenda por que isso ocorre e veja sugestões de especialista para proteger os filhos nesses ambientes

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Mãos seguram um celular e na tela está escrito
Fale com seu filho sobre os perigos existentes na internet
Buscador de educadores parentais
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Uma reportagem exibida no Fantástico, no último domingo (30), deixou telespectadores chocados com o nível de violência a que adolescentes estão sendo submetidos em plataformas sociais como o Discord. A matéria mostrou conteúdos perturbadores que incentivam a automutilação, exposição sexual, compartilhamento de conteúdo pornográfico e até ações cruéis contra animais, servindo de alerta a pais, responsáveis e a toda sociedade sobre os riscos do uso das redes sem controle nem supervisão.

As imagens foram enviadas ao programa por ativistas que acompanham redes sociais para identificar e denunciar crimes e mostram cenas em que criminosos anônimos desafiam os integrantes dos grupos a praticar violência contra si ou contra animais.

Em um dos vídeos mostrados, uma garota usa uma lâmina para escrever o nome do servidor em seu corpo. Ela faz isso “ao vivo” orientada por um jovem de 20 anos, numa sessão de tortura psicológica. Segundo a reportagem, fotos e vídeos de pessoas ferindo o próprio corpo são comuns nesse ambiente. Uma outra adolescente de 13 anos torturou um gato da vizinhança e colocou fogo em sua residência – tudo isso durante transmissão “ao vivo” em uma comunidade do Discord que tem 16 mil membros. A plataforma, popular entre gamers, é dividida em servidores ou salas de bate-papo e permite conversas em tempo real em texto, áudio ou vídeo.

As práticas revelam uma nova modalidade de atuação dos adolescentes no Discord e outras em redes sociais no papel de agressores e vítimas que se expõem a situações degradantes.

De forma anônima, esses jovens são impelidos a seguir o grupo ou “rebanho”, tendo dissolvida a capacidade de se regular e saber o que é certo ou não, explica a psicanalista Bebel Soares. Em meio a uma massa de gente, diz ela, eles se sentem isentos de responsabilidades, sendo compelidos a compactuar dos crimes praticados.

Na matéria para a TV, a psicanalista Vera Iaconelli, faz uma comparação dos smartphones com o fogo – ambos são perigosos quando mal utilizados. “O fogo é maravilhoso, mas você tem que ensinar como é que mexe nisso para não se queimar. A gente deu o fogo na mão das crianças e estamos vendo os resultados”, destacou Vera.

O médico hebiatra Felipe Fortes avalia que a adolescência é particularmente vulnerável aos perigos das redes. “Eles estão num momento em que precisam da aprovação do grupo e de si mesmos, ao mesmo tempo que ainda não amadureceram a região do cérebro responsável pelo juízo crítico, pelo controle de impulsos, pelo discernimento do que pode ser mais perigoso a curto e longo prazo”. Assim, segue Felipe em post em rede social, está montada a situação perfeita para que crimes sejam feitos com nossos filhos, pois os criminosos sabem como fazer isso. Usam do desafio, da “adrenalina”, da transgressão típicas do “estar adolescente no mundo” para atuar.

A ativista para erradicação da violência sexual e professora de comunicação, Sheylli Callefi diz que, por mais perigoso que seja esse universo, não se trata de proibir os adolescentes e as crianças de terem acesso ao celular ou aplicativos sociais. “Você precisa conversar sobre isso, pois independentemente de permitir ou não, eles terão acesso a esse tipo de conteúdo”.

Sheylli ressalta que essa não deve ser uma conversa pontual, mas sim constante, um assunto comum entre pais e filhos, sejam eles adolescentes ou crianças. Quanto à idade com que essas medidas devem ser postas em prática, ela diz que depende do uso que a criança faz da internet e do que ela já acessou a esse respeito. Embora redes sociais como o Discord, Instagram e Tiktok determinem a idade mínima de 13 anos para a criação de uma conta, muitas crianças abaixo dessa idade utilizam os aplicativos, com ou sem supervisão dos pais. A seguir, veja outras dicas da especialista sobre como orientar os filhos para um uso seguro da internet.

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Pergunte o que ele já sabe

Antes de começar qualquer conversa sobre o assunto, pergunte o que seu filho já sabe sobre os riscos da internet e ouça-o com interesse e sem julgá-lo. Tente descobrir o que ele conhece sobre alguns conceitos, palavras e termos relacionados a práticas criminosas no ambiente virtual. Lembre-se de manter a calma porque você pode se surpreender com as coisas que ele já viveu e acredita. É uma conversa e não uma aula! Crie um ambiente de confiança e tranquilidade. Colocar medo na criança não vai adiantar, o foco é a segurança e o apoio entre vocês, ok?

Crie analogias com a proteção no mundo físico

Comente que existem criminosos virtuais assim como existem riscos e perigos na rua, devido a ladrões e sequestradores, por exemplo, e que igualmente precisamos nos proteger deles. Ressalte que:

  • Não é para passar dados pessoais nem bancários;
  • Não é para conversar nem aceitar amizade virtual com estranhos;
  • Não é para falar da família, dar o endereço de casa nem dizer onde estuda em nenhuma hipótese.

Fale sobre “os amigos na internet”

É importante explicar ao seu filho que:

  • Nem todas as pessoas que conhecemos na internet são nossos amigos;
  • Há pessoas que mentem e dizem ser crianças para fazer coisas ruins como roubar ou mandar vírus, por exemplo;
  • Ele sempre pode contar com você para ajudar a descobrir se o “amigo da internet” é de verdade e para dividir dúvidas se achar algo estranho que aconteça com ele ou com algum amigo;
  • Não devemos mandar fotos paras pessoas na internet nem atender chamadas de vídeo, e caso isso ocorra é importante contar aos pais;
  • Assim como falamos que ninguém pode encostar no nosso corpo porque é íntimo, diga que online é parecido: ninguém pode pegar nossas fotos sem a nossa permissão nem conversar com crianças sobre temas que são de adultos.
  • Da mesma forma, ninguém pode ver uma criança pelada ou fazer fotos dela sem roupa porque isso é invadir a intimidade. Só na hora do banho e de trocar de roupa, quem cuida da criança poderá vê-la despida.

Oriente a não guardar segredos

Avalie ensinar para que seu filho não guarde segredo das experiências online – os criminosos, no geral, pedem isso. E reforce que ninguém pode ameaçá-lo dizendo que fará algo com ele ou com sua família caso ele não atenda aos pedidos do criminoso. Diga ainda que se isso acontecer é importante ele contar.

Fale sobre os crimes virtuais

Você pode começar falando de crimes cometidos contra adultos, para mostrar que os mais velhos também estão vulneráveis ao mundo virtual e podem ser enganados. Um dos golpes que você pode citar é o do WhatsApp, onde uma pessoa finge ser outra para pedir dinheiro. Em seguida, cite alguns crimes e peça para a criança dizer o que sabe ou não a respeito.

Assédio sexual
Você pode explicar que é quando alguém tenta encostar ou beijar à força.

Assédio virtual
Assim como o assédio sexual, explique que o assédio virtual é parecido e ocorre quando alguém tenta uma aproximação mesmo que a criança não queira e pode consistir no envio de mensagens ou fotos não solicitadas ou chamada por vídeo, por exemplo.

Pornografia
Explique que são imagens de pessoas namorando sem roupa e que são para adultos, mas tem quem tente mostrar para crianças. Se você já explicou sobre como os bebês são concebidos (perguntas que podem surgir a partir dos cinco anos) pode até ser mais específica sobre o assunto. Vale conferir e respeitar o que a criança já assimilou.

Dê o exemplo

Para ensinarmos essas coisas precisamos praticá-las. Se beijamos nossos filhos sem pedir permissão ou fazemos ameaças como “se você não comer, fica de castigo”, vai ser difícil ensinar esses valores. Se pedimos que a criança dê um beijo na avó ou abrace um primo quando ela não quer, também será difícil ensinar limites da intimidade. O que fazemos nesses casos é tão importante quanto a nossa fala.

PL das Fake News

O Marco Civil da Internet, que regulamenta o uso da internet no país, não responsabiliza as plataformas pelos conteúdos ali divulgados. Elas são obrigadas a retirar publicações do ar apenas sob ordem judicial. Mas o debate sobre a regulamentação tem crescido no mundo todo.

Foi suspensa esta semana, na Câmara dos Deputados, a votação sobre o projeto de lei 2630, popularmente conhecido como PL das Fake News, que pretende instituir a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet.

O projeto busca reforçar a regulamentação e fiscalização sobre plataformas digitais, como redes sociais, aplicativos de trocas de mensagens e ferramentas de busca.

A discussão da matéria tramita na Câmara desde 2020, após ser aprovada no Senado, e voltou a ganhar destaque depois dos recentes ataques violentos em escolas e da invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro.

Defensores da proposta dizem que a nova lei vai melhorar o combate à desinformação, ao discurso de ódio e a outros conteúdos criminosos no ambiente digital. O projeto de lei também é defendido por especialistas da infância: o PL tem um capítulo específico sobre proteção de crianças e adolescentes, que obriga os provedores a criar mecanismos de controle parental e verificação etária e a adequar seus serviços ao “melhor interesse” desses usuários. Já opositores do projeto se mostram receosos de as novas regras ferirem a liberdade de expressão.

Em nota ao Fantástico, o Discord disse estar colaborando ativamente com o governo e agências de aplicação da lei no Brasil e nos Estados Unidos, enquanto trabalha para o objetivo comum de prevenir danos.

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