Ser fada do dente hoje não é nada fácil

A escritora Sheila Trindade fala das peripécias que a fada faz para não deixar de comparecer à sua casa - e se ela não vai, há quem assuma esse papel

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Ilustração da fada do dente

Eu sei, tenho um problema com estes rituais maternos. Ser mãe, profissional e estudante me toma muito tempo. Sem contar os jobs pontuais que acumulo em algumas datas especiais como Páscoa e Natal, sendo Papai Noel, coelho da Páscoa e fada do dente. É muito trabalho acumulado. Me desdobro em mil e, mesmo assim, não dou conta de tudo. Normal.

Certa vez, esqueci completamente de ser fada. Sei lá. Não sei se foi a roupa brilhante, as asas ou o ar angelical que não combinavam com meu humor, mas esqueci. E aí entrou a Luiza, minha filha, que mesmo com medo de perder sua “fama de mal”, decidiu assumir meu turno.

contei aqui que a fada do dente que cobre minha casa abusa da criatividade. Como as crianças não demonstravam interesse pelas notas de R$2 que eram deixadas embaixo do travesseiro, começamos a dar moedas de chocolate e era uma felicidade
só. Me sentia uma fada muito melhor, mais respeitada e esperada. Certa vez em uma busca desenfreada e mal sucedida por moedas de chocolate decidi variar meu cardápio lúdico e comprar M&M’s. Desde então a criatividade da fada não tem limites, transito entre uma gama enorme de guloseimas, tudo muito saudável, repare bem…

Mas naquela noite, a fada descompromissada com a causa, muito cansada, esqueceu de botar alguma coisa embaixo do travesseiro do Samuel. Fui acordada por um menininho magoado. Fingi susto, por dentro fiquei arrasada. Coloquei a culpa na fada, claro. Aquela irresponsável sem coração! Era muito cedo, ele voltou a dormir. Fui acordada horas depois, desta vez por um menino feliz da vida, mostrando um monte de chocolates que ele tinha achado embaixo do mesmo travesseiro que horas antes estava vazio.

Liguei para meu marido a fim de parabenizá-lo, feliz por finalmente ele me ajudar a ser uma fada mais aplicada e pontual, mas não havia sido ele. Duvidei da minha memória e senso, cogitei a existência de fada que no caso seria muito má por encher de doces e
estragar crianças em um nível que apenas nós pais teríamos permissão para fazer. Claro que não, elas não existem, concluí.

A única possibilidade plausível é que alguém tinha pego os chocolates no armário e colocado no lugar do dente. Passei o dia pressionando, perguntando quem era a fadinha secreta. Depois de muito lutar, lá no final do dia finalmente veio a confissão da
Luiza:

  • ‒ Eu peguei os chocolates porque o Samuel estava tão triste que até voltou a dormir. Então coloquei os chocolates para ele ficar feliz de novo. Eu não podia deixar que ele ficasse triste assim. Um “owwwnnnnn” em uníssono foi o que nos sobrou e claro, um
    abraço apaixonado entre irmãos que mesmo diante de tanto amor, continuaram a manter suas reputações intactas! Ahhh, essa fama de mau…

*Este texto é de responsabilidade do colunista e não reflete, necessariamente, a opinião da Canguru News.


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