Quando faltam palavras: o que dizer — e o que NÃO dizer — para quem sofreu um aborto espontâneo

A perda gestacional é uma experiência comum, mas solitária. Ninguém sabe muito bem o que dizer para apoiar uma família que passa por isso. Entenda como acolher sem minimizar a dor de quem enfrenta esse luto

 

 

Assim que o teste de gravidez dá positivo, a gente já começa a sonhar com o bebê. Como ele vai ser? Quais são os cuidados? O nome? O sexo? O enxoval? Será que são gêmeos? Por isso, quando uma gestação termina de forma inesperada, a dor é tão grande. Por mais racionais que sejamos, não é só um acontecimento biológico. É a perda de um filho imaginado, amado, uma parte da família e do coração.

Apesar de ser relativamente comum — estima-se que entre 10% e 20% das gestações conhecidas terminem em aborto espontâneo —, o assunto traz desconforto. As famílias se sentem solitárias, porque, apesar das boas intenções, ninguém sabe muito o que dizer para consolar. Às vezes, ninguém diz nada. Às vezes, o que é dito aumenta ainda mais o sofrimento.

Existe uma tendência cultural de tentar “consertar” a dor do outro. Mas nem todo sofrimento precisa ser resolvido. Muitas vezes, o apoio mais valioso está em ouvir sem julgar, sem oferecer explicações e sem buscar um lado positivo. Uma mensagem simples, um abraço, uma refeição entregue na porta ou a disposição para acompanhar uma consulta médica podem ser gestos muito mais significativos do que discursos elaborados.

E os pais também sofrem

Embora a atenção geralmente se concentre na mulher, vale lembrar que os parceiros também podem vivenciar o luto de forma intensa. Em muitos casos, eles acabam se sentindo pressionados até para assumir o papel de apoio e acabam reprimindo as próprias emoções. Perguntar como o pai ou parceiro está se sentindo também é uma forma importante de acolhimento.

Também é importante reforçar que não existe prazo para superar uma perda gestacional. Algumas pessoas desejam falar sobre o bebê, guardar lembranças e marcar datas importantes. Outras preferem viver o luto de forma mais reservada. A melhor forma de ajudar é respeitar esse processo sem expectativas ou cobranças.

Diante de uma perda tão profunda, o que mais conforta não é uma frase perfeita, mas a certeza de não estar sozinho. Por isso, o importante é oferecer presença, escuta e validação dos sentimentos. Para ajudar, separamos aqui algumas frases que podem transmitir apoio:

O que dizer

“Sinto muito pela sua perda”

Pode parecer simples, mas reconhecer o sofrimento é uma das formas mais importantes de acolhimento. Muitas mulheres relatam que a dor aumenta quando as pessoas fingem que nada aconteceu ou evitam tocar no assunto.

“Estou aqui para o que você precisar”

A frase transmite disponibilidade sem pressionar a pessoa a falar. Algumas mulheres sentem necessidade de compartilhar a experiência; outras preferem silêncio e recolhimento.

“Você quer conversar sobre isso?”

Em vez de presumir o que a pessoa precisa, a pergunta abre espaço para que ela decida se deseja falar sobre a perda naquele momento.

“Imagino que isso esteja sendo muito difícil”

Validar a dor ajuda a pessoa a se sentir compreendida. Não é necessário dizer que entende exatamente o que ela está sentindo, especialmente se você nunca viveu situação semelhante.

“Como você está hoje?”

O luto não acaba após alguns dias. Fazer contato semanas ou meses depois demonstra que você reconhece a importância daquela perda.

O que não dizer

“Você é jovem, pode tentar de novo”

Embora a intenção seja transmitir esperança, a frase pode soar como se aquele bebê fosse substituível. Uma nova gravidez não apaga a dor da perda anterior.

“Foi melhor assim”

Não existe forma de saber o que teria sido melhor. Para quem está sofrendo, a frase costuma ser percebida como uma minimização do luto.

“Pelo menos aconteceu cedo”

A intensidade da dor não é determinada pelo tempo de gestação. Muitas famílias criam vínculos emocionais desde os primeiros dias após descobrir a gravidez.

“Acontece com muita gente”

A informação pode ser verdadeira, mas dificilmente oferece conforto naquele momento. Saber que outras pessoas passaram pela mesma situação não reduz o sofrimento individual.

“Talvez tenha sido a vontade de Deus”

Questões espirituais são profundamente pessoais. Dependendo das crenças da família, esse tipo de comentário pode gerar ainda mais sofrimento e revolta.

“Você precisa ser forte”

O luto não exige força constante. Chorar, sentir raiva, tristeza ou frustração faz parte do processo de elaboração da perda.

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