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Por que os pais (e não só as mães) deveriam evitar o álcool antes da gravidez
Quando um casal decide ter um bebê, a maioria das orientações costuma ser direcionada à mulher. Parar de beber álcool, tomar ácido fólico, adotar uma alimentação equilibrada e controlar doenças crônicas fazem parte dos cuidados amplamente conhecidos antes mesmo da gravidez acontecer.
Mas e o pai? Será que os hábitos dele antes da concepção também podem influenciar a saúde do bebê? A pergunta tem despertado cada vez mais o interesse da ciência. Uma reportagem publicada recentemente pela revista The Atlantic, nos Estados Unidos, reuniu algumas pesquisas que podem fazer os homens repensarem o tema.
Um estudo conduzido pelo pesquisador Michael Golding, da Texas A&M University, nos Estados Unidos, começou com uma pergunta simples: a equipe queria descobrir se o consumo de álcool por camundongos machos, antes do acasalamento, poderia provocar alterações no desenvolvimento dos filhotes, mesmo quando as fêmeas nunca haviam ingerido álcool.
O resultado surpreendeu. Os pesquisadores notaram que os fetos gerados por machos expostos ao álcool apresentaram alterações no desenvolvimento facial, incluindo mandíbulas menores e mudanças semelhantes às observadas em alguns casos da síndrome alcoólica fetal, condição tradicionalmente associada ao consumo de álcool durante a gestação pela mãe.
Desde então, o grupo publicou outros estudos mostrando que, em camundongos, o consumo paterno de álcool antes da concepção também esteve associado a alterações na placenta, maior inflamação, lesões no fígado, sinais de envelhecimento acelerado, alterações na retina e redução das taxas de sucesso da fertilização in vitro (FIV).
Mas isso também acontece em humanos?
Estudos com camundongos são importantes porque permitem compreender mecanismos biológicos que não poderiam ser investigados diretamente em seres humanos. Pesquisas envolvendo pessoas ainda são poucas e, em geral, são observacionais.
A ciência já apontou associações entre o consumo de álcool pelo pai antes da gravidez e alguns desfechos, como maior risco de determinadas alterações congênitas e problemas no desenvolvimento fetal. No entanto, essas pesquisas não conseguem provar que o álcool seja a causa direta desses problemas, já que outros fatores, como alimentação, tabagismo, idade e condições de saúde, também podem influenciar os resultados.
Por isso, novas pesquisas ainda precisam ser realizadas antes que as recomendações oficiais sejam modificadas.
O papel do pai começa antes da gravidez
Apesar das incertezas, uma ideia já é consenso entre especialistas em saúde reprodutiva: a saúde do pai também faz parte do planejamento da gravidez. Nos últimos anos, estudos mostraram que fatores como obesidade, tabagismo, exposição a poluentes, estresse crônico e consumo excessivo de álcool podem alterar características dos espermatozoides, inclusive por meio de mecanismos conhecidos como alterações epigenéticas, ou seja, mudanças que influenciam a forma como determinados genes se expressam, sem modificar o DNA em si.
Isso significa que o estilo de vida do homem antes da concepção pode, sim, exercer algum impacto sobre a fertilidade e, possivelmente, sobre o desenvolvimento do futuro bebê.
O que dizem as recomendações atuais?
Até o momento, nenhuma entidade médica recomenda que homens parem completamente de consumir álcool por causa dessas pesquisas específicas.
Entretanto, diversas sociedades científicas orientam que casais que estão tentando engravidar adotem hábitos de vida mais saudáveis, que incluem:
- reduzir ou evitar o consumo de álcool;
- parar de fumar;
- manter peso adequado;
- praticar atividade física regularmente;
- controlar doenças crônicas;
- buscar acompanhamento médico antes da concepção.
Uma mudança de olhar
Durante décadas, quase toda a responsabilidade pela preparação para uma gravidez recaiu só sobre as mulheres. É claro que o cuidado materno é essencial, mas, agora, a ciência passa a ampliar o foco para os futuros pais.
Ainda é cedo para afirmar exatamente qual é o impacto do álcool consumido pelos homens antes da concepção sobre a saúde dos filhos. Mas é importante reforçar a mensagem de que o planejamento da gravidez é uma responsabilidade compartilhada.
Cuidar da saúde antes da chegada de um bebê deixa de ser apenas uma recomendação para as mães e passa a incluir também quem estará ao lado delas desde o início dessa jornada.
Canguru News
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