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Cuscuz pode aumentar o leite materno? Estudo brasileiro aponta possível relação com ganho de peso do bebê
Se você está amamentando, provavelmente já ouviu uma lista de alimentos que “aumentam a produção de leite”. O cuscuz de milho aparece com frequência, especialmente em famílias das regiões Norte e Nordeste do Brasil. Mas será que existe alguma evidência científica por trás dessa tradição?
Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Sobral, resolveram investigar. Em um estudo, eles acompanharam 30 mulheres em aleitamento materno exclusivo, com bebês saudáveis, nascidos a termo e entre 30 e 120 dias de vida. Os resultados sugerem que, sim, existe uma possível relação entre o consumo diário de cuscuz pela mãe e o ganho de peso dos bebês.
A pesquisa foi publicada no Journal of Tropical Pediatrics e partiu de uma observação comum na prática pediátrica: mães que relatavam perceber aumento da produção de leite depois de consumir cuscuz. “Na prática pediátrica, era muito comum mães relatarem aumento na produção de leite quando consumiam cuscuz. Então surgiu a inquietação de provar esse fato à luz da ciência”, conta o pediatra Francisco Plácido Arcanjo, professor titular da UFC em Sobral e um dos autores do estudo.
O que o estudo descobriu?
As 30 participantes foram divididas em dois grupos. Durante 20 dias, um deles consumiu 70 gramas de cuscuz diariamente e depois passou outros 20 dias sem o alimento. O segundo grupo fez o caminho inverso. Os bebês foram pesados antes e depois dos períodos de consumo e de suspensão do cuscuz.
Durante a fase em que as mães consumiram o alimento, os bebês ganharam, em média, 33,7 gramas por dia, o equivalente a cerca de 1 quilo por mês. Quando as mesmas mulheres deixaram de consumir cuscuz, o ganho médio caiu para 24,6 gramas por dia, ou aproximadamente 738 gramas no mês.
A diferença correspondeu a um aumento de 37% no ganho de peso durante o período de consumo do alimento. As próprias mães também relataram perceber mudanças na produção de leite. Entre elas, 60% disseram que o leite “aumentou muito” durante o consumo do cuscuz, enquanto 33% perceberam um aumento moderado.
Mas o cuscuz realmente aumenta o leite?
Calma: os resultados não significam que comer cuscuz seja uma receita para produzir mais leite. Uma das limitações do estudo é justamente que os pesquisadores não conseguiram medir diretamente o volume de leite produzido. Por questões éticas e logísticas, eles utilizaram o ganho de peso dos bebês como uma medida indireta.
Além disso, a pesquisa teve uma amostra pequena, com apenas 30 mulheres, e investigou especificamente o consumo de cuscuz durante um período determinado. Portanto, os resultados são interessantes, mas, por enquanto, ainda não permitem afirmar que o alimento, sozinho, seja responsável pelo aumento da produção de leite ou pelo maior ganho de peso.
Segundo o ginecologista e obstetra Rômulo Negrini, do Einstein Hospital Israelita, a produção de leite depende principalmente da frequência e da eficiência das mamadas. Quanto mais o bebê mama, maior tende a ser o estímulo hormonal para a produção. A alimentação da mãe funciona como suporte para que o organismo consiga sustentar esse processo.
A recomendação não é consumir um alimento “milagroso”, mas garantir uma alimentação variada e equilibrada. Durante a amamentação, o organismo materno tem uma demanda energética elevada. Dietas muito restritivas, jejuns prolongados, desidratação ou consumo insuficiente de calorias podem prejudicar o bem-estar da mãe e dificultar a manutenção da amamentação ao longo do tempo.
Nutrientes como proteína, ferro, cálcio, vitamina B12, vitamina D e ômega-3 são fundamentais nessa fase. Uma alimentação adequada contribui para a energia, a recuperação depois do parto e a saúde da mulher, fatores que também favorecem a continuidade da amamentação.
No caso do cuscuz, uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que, por ser rico em carboidratos, ele possa ter funcionado como uma fonte adicional de energia para mães que apresentavam ingestão calórica insuficiente. A lactação aumenta bastante o gasto energético do organismo e, por isso, melhorar a alimentação como um todo pode favorecer o processo.
Outros alimentos que aumentam o leite
Alguns alimentos, como aveia, sementes, vegetais verde-escuros e castanhas, já foram associados a um possível estímulo da lactação. Também existem relatos tradicionais envolvendo feno-grego, cevada e erva-doce. Mas isso não significa que você precisa consumir esses alimentos em grandes quantidades ou que eles tenham efeito garantido. “Não existe um alimento milagroso para aumentar o leite materno e nenhum alimento substitui a sucção frequente do bebê”, destaca Negrini.
Também vale atenção ao excesso de ultraprocessados, álcool, dietas radicais e cafeína. O consumo exagerado de cafeína, por exemplo, pode, em alguns casos, deixar o bebê mais irritado e alterar seu sono.
Se você tem a impressão de que sua produção de leite está baixa, antes de tentar incluir um alimento específico na rotina, vale conversar com o pediatra ou profissional especializado em amamentação. A avaliação pode ajudar a identificar se isso realmente está acontecendo e, principalmente, se o bebê está mamando de forma adequada.
A principal mensagem do estudo não é que toda mãe que amamenta precisa comer cuscuz. É que a alimentação materna faz parte dos cuidados durante o aleitamento, mas deve ser vista dentro de um conjunto que inclui hidratação, descanso, apoio e, principalmente, mamadas frequentes.
Como resume Francisco Arcanjo, o conhecimento tradicional pode ter valor, mas precisa ser analisado à luz da ciência. “Essa integração deve ser estimulada.”
Fonte: Agência Einstein
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