Dois portos seguros, dois estilos: a riqueza das diferenças entre mãe e pai na criação do adolescente

Se você vive em uma casa com um adolescente e divide a criação com um parceiro ou parceira, é muito provável que já tenha se deparado com essa situação: seu filho pede para ir a um evento inédito, voltar um pouco mais tarde ou tomar uma decisão importante sobre sua autonomia. De um lado, um de vocês sente um frio na barriga e quer cercá-lo de cuidados; do outro, o parceiro reage com um natural “deixa ele ir, ele precisa aprender”.

Nesse momento, é fácil cair na armadilha de achar que um está sendo “superprotetor” e o outro, “negligente” ou descompromissado. Mas a verdade por trás dessas lentes diferentes é muito mais bonita, e necessária, do que parece.

Na adolescência, os filhos não precisam de pais que pensem exatamente igual em tudo. Eles precisam de complementaridade. Vamos entender como essa engrenagem funciona e por que as diferenças de estilo entre mãe e pai são o combustível que seu filho precisa para voar com segurança.

O ninho e o mundo: as forças que impulsionam o jovem

A psicologia nos mostra que a transição para a vida adulta exige duas forças que parecem opostas, mas são complementares.

  • A força do ninho (associada ao materno): É o porto seguro. A mãe, historicamente e pelo vínculo de gestação e primeiros cuidados, costuma ser a guardiã do contorno emocional. É quem decifra o olhar triste, quem acolhe no choro, quem garante que o adolescente saiba que, não importa o tamanho do erro lá fora, existe um lugar quente para voltar.
  • A força do mundo (associada ao paterno): É o vetor de tração externa. O pai presente, de forma geral, tende a atuar como aquele que incentiva o risco calculado. É o que desafia o jovem a resolver o próprio problema, que lida de forma mais prática com as frustrações e que empurra o filho para testar os próprios limites fora de casa.

Claro que esses papéis não são rígidos. Há mães superconectadas com o “empurrão para o mundo” e pais que são o puro colo da casa. O importante não é o gênero de quem desempenha, mas a presença dessas figuras seguindo na mesma direção. O adolescente precisa do colo para não se sentir desamparado, mas precisa do empurrão para não se tornar um adulto inseguro e dependente.

O perigo do “fogo amigo”: quando a diferença vira divisão

Se a diferença é saudável, onde mora o perigo? Mora na falta de alinhamento.

O adolescente é um excelente “leitor de frestas”. Se ele percebe que uma discordância entre os pais pode ser usada a seu favor, ele vai usar, não por maldade, mas porque testar limites faz parte do pacote da idade. Se a mãe diz “não” e o pai diz “deixa que eu resolvo”, quebra-se a autoridade de ambos.

Quando um dos pais desautoriza o outro na frente do filho, a mensagem silenciosa que o jovem recebe é: “Não preciso respeitar as regras daqui, porque elas não são firmes”. Isso gera ansiedade no próprio adolescente, que, no fundo, precisa de limites claros para se sentir seguro enquanto seu próprio mundo interno está em ebulição.

Como fazer essa engrenagem jogar no mesmo time?

Para que as diferenças de estilo trabalhem a favor do seu filho, e não contra os pais ou a paz familiar, três atitudes práticas são fundamentais:

1- Discordem no quarto, apoiem na sala: Essa é a regra de ouro da parentalidade. Se o seu parceiro tomou uma decisão com o filho que você não concorda, não interfira na hora. Espere o adolescente sair, conversem a sós, alinhem os pontos e, se necessário, voltem juntos para falar com o jovem: “Conversamos melhor e decidimos ajustar o combinado”. O adolescente precisa ver uma parede sólida e unida à sua frente.

2- Valide o estilo do outro: Em vez de criticar o jeito mais “descontraído” ou mais “estruturado” do parceiro, reconheça o valor dele. Se o pai quer ensinar o filho a andar de transporte público sozinho e você está morrendo de medo, combine as regras de segurança com ele, mas valide a iniciativa. Deixe que o pai transmita essa coragem que talvez você, no seu papel de proteção, tenha mais dificuldade de dar.

3- Incentivem rituais exclusivos de conexão: O adolescente precisa construir memórias e dinâmicas individuais com cada um dos pais. Pode ser o pai que leva para o treino de futebol e come um sanduíche na volta, ou a mãe que senta para assistir à série favorita do momento ao lado dele. Esses momentos a sós fortalecem os canais de diálogo individuais, facilitando a cooperação nos momentos difíceis.

Criando pontes, não barreiras

No final das contas, educar um adolescente é como uma dança de salão: às vezes um conduz, às vezes o outro dá o passo atrás para o parceiro brilhar, mas ambos se movem na mesma música.

As diferenças entre vocês não são defeitos de fabricação; são as ferramentas complementares de que seu filho precisa. Um ensina a acolher as próprias fraquezas; o outro ensina a descobrir as próprias forças. E, juntos, vocês mostram que o mundo é um lugar grande e desafiador, mas que eles têm tudo o que precisam para conquistá-lo.

E na sua casa, como funciona essa dinâmica? Vocês costumam jogar no mesmo time ou ainda batem muita cabeça na hora de definir os limites do adolescente?

Danielle Bassotto

É psicóloga, neuropsicóloga, orientadora parental e especialista em adolescência. Seu trabalho tem como foco o desenvolvimento de adolescentes, o fortalecimento das relações familiares e a saúde mental da mulher

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