Do treino à Seleção: como o colégio Eduardo Gomes está ajudando mães a retomar o esporte

Em São Caetano do Sul, escola oferece atividades esportivas para pais desde 2004 e transformou a quadra em espaço de convivência, saúde e pertencimento para as famílias. No handebol, mães foram convocadas para a Seleção Brasileira Master e vão disputar o Mundial de Clubes, na Croácia. Confira:

Depois que a gente vira mãe, pensar em si mesma pode se tornar um verdadeiro desafio. A rotina fica tomada pela agenda dos filhos, trabalho, casa, família e uma infinidade de tarefas. No meio de tudo isso, encontrar tempo para respirar já é difícil, quanto mais para voltar a praticar um esporte que fazia parte da vida ou descobrir uma nova modalidade.

Para muitas mulheres, o esporte acaba ficando em segundo plano. E, quando conseguem encaixar uma atividade física na rotina, nem sempre encontram um ambiente em que possam conciliar a prática esportiva com os desafios dessa fase da vida.

É justamente nesse cenário que uma iniciativa do Colégio Eduardo Gomes, em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, chama a atenção. Desde 2004, a escola oferece atividades esportivas, como natação, handebol, vôlei, também para os pais dos alunos. Ao longo de mais de duas décadas, o projeto cresceu e passou a reunir famílias em diferentes modalidades.

A proposta vai além de simplesmente disponibilizar uma quadra para as mães. A ideia é criar um espaço que elas possam praticar esporte, cuidar da saúde, fazer amizades e, em alguns casos, voltar a competir. No colégio, as atividades são acompanhadas por profissionais de educação física e professores ligados ao esporte, muitos deles com experiência na formação e treinamento de atletas de alto rendimento e de seleções brasileiras.

Segundo Janice Guizelini, diretora do Colégio Eduardo Gomes, a iniciativa nasceu justamente do desejo de aproximar ainda mais as famílias da escola. “Unir a família e a escola sempre foi o nosso desejo. Em 2004, percebemos que o afeto que nascia nas arquibancadas, enquanto os pais esperavam os filhos, poderia ir para dentro da quadra. Foi assim que abrimos nossas portas para que a escola se tornasse um espaço vivo de saúde e convivência para todos, passando a oferecer diversas atividades esportivas para os pais.”

Quando a mãe também volta a jogar

Adriana Guerreiro D’Assumpção, de 54 anos, mãe de Isabela Guerreiro, aluna do Ensino Médio do colégio, voltou a fazer vôlei, depois de ter praticado na adolescência. “Eu conheci o grupo de vôlei do colégio há sete anos e, desde então, ele se tornou parte essencial da minha vida. Jogar vôlei aqui é mais do que praticar um esporte: é uma verdadeira terapia, um momento de alegria e bem-estar. Para mim, é muito especial poder resgatar esse esporte que não tive oportunidade de praticar depois da adolescência.”

Para Adriana, o espaço criado pelo colégio representa também a possibilidade de construir novas relações e, ao mesmo tempo, cuidar da própria saúde. “O fato de o colégio abrir espaço para que mães possam viver essa experiência é maravilhoso, pois fortalece vínculos, promove saúde e mostra que nunca é tarde para realizar sonhos.”

Adriana de camiseta azul claro (líbero) com o time de vôlei das mães do colégio Eduardo Gomes

Uma rede de apoio que nasce dentro da quadra

É justamente essa possibilidade de criar vínculos que a direção do colégio considera um dos principais resultados do projeto. “Mais do que a prática esportiva, esse projeto voltado para os pais fortalece a rede de apoio e o sentimento de pertencimento. O impacto vai além do bem-estar físico: ele constrói pontes e reforça laços afetivos com o colégio. Em casa, a dinâmica também se transforma: ver os filhos torcendo pelos pais e compartilhando uma rotina saudável cria uma cumplicidade inspiradora”, afirma Janice.

Na prática, a quadra acaba se tornando um espaço de encontro. Mães que inicialmente chegam apenas para praticar uma modalidade passam a compartilhar experiências, criar amizades e construir uma rede que continua existindo também fora dos treinos. Para quem vive uma rotina marcada por compromissos dos filhos, ter um horário reservado para si pode representar muito mais do que uma atividade física. É um momento em que a mãe não está apenas levando o filho para uma atividade. Ela também está fazendo alguma coisa por ela mesma.

Da quadra da escola para a Seleção Brasileira

A história do handebol no Colégio Eduardo Gomes também já ultrapassou os limites da escola. Mães que praticam a modalidade no colégio já foram convocadas para a Seleção Brasileira Master para disputar a Copa América da categoria. Este ano, Renata Menezes, de 46 anos, foi convocada para a categoria 44+, e Lygia Galvão, de 39 anos, para a categoria 30+. Elas vão representar o Brasil entre os dias 3 e 7 de setembro, em Natal, no Rio Grande do Norte.

“Sou muito grata ao Colégio Eduardo Gomes por abrir as portas para que as mães pudessem treinar handebol. Se não fosse essa iniciativa, eu não teria conhecido e sido treinada pelo Hula (técnico de seleção brasileira), que resgatou em nós, mães, esse desejo de treinar, competir e acreditar que sonhos não têm prazo de validade. Se não fosse pelo Colégio EG, pelo Hula e pelo Master EG, jamais estaria realizando este sonho, que é vestir a camisa da Seleção Brasileira”, diz Renata Menezes.

O fato mostra como a prática esportiva pode ganhar novos significados depois da maternidade. O que começa como uma atividade para cuidar da saúde, se divertir e encontrar outras mulheres pode se transformar em treinamento, competição e até na oportunidade de vestir a camisa da Seleção Brasileira.

“Depois que minha filha nasceu, eu parei de jogar handebol. Só que fiquei sabendo desse grupo de mães, vim treinar no colégio e agora estou aqui, também realizando um sonho”, conta Lygia Galvão, que também é professora de natação do colégio.

Para essas mulheres, a maternidade não significou o fim da vida esportiva. Em alguns casos, representou justamente o começo de uma nova fase. “Na verdade, para mim, é algo que eu nunca achei possível. Quando a gente é mais nova, a gente tem esse sonho, mas, depois de uma certa idade, acha que não é mais possível. A Seleção Master veio para transformar esses sonhos em algo possível”, afirma Lygia.

Renata e Lygia, mães do colégio foram convocadas para disputar a Copa América 2026, em Natal (RN)

 

Do primeiro treino ao Mundial de Clubes

A história de Natashy Santarelli, de 38 anos, mãe de Luisa, de 11 anos, e Thomas, de 8, mostra como essa experiência pode ganhar novos contornos. Ela entrou no handebol há cerca de um ano, depois de matricular os filhos no Colégio Eduardo Gomes e descobrir que a escola também oferecia esportes para os pais. A escolha da modalidade foi imediata. “Quando eu vi o handebol no folheto, não pensei duas vezes porque é o esporte que amo. Mas a turma estava lotada e tive que ficar na lista de espera.”

Quando finalmente surgiu uma vaga, Natashy chegou ao grupo como uma mãe recém-chegada à escola e que ainda não conhecia ninguém. “Quando me ligaram, eu fui com a cara e coragem de quem é mãe recente na escola. Foi uma grata surpresa e não dá para explicar, mas, como é tudo mãe, a gente se entende nas dores e nos amores.”

A identificação com as outras mulheres veio rapidamente. Natashy percebeu que muitas delas também precisavam fazer malabarismos para conseguir manter aquele compromisso na agenda. “Percebi que algumas mães faziam um corre danado para estar lá e que largam tudo para ir. Eu também tenho que deixar meus filhos com a babá para poder ir. Pensei que se elas conseguiam eu também conseguia. Eu não perco o treino por nada, porque me faz tão bem.”

O que começou como uma oportunidade de voltar a praticar o esporte que ama acabou se transformando em um desafio muito maior: a equipe recebeu a notícia de que disputaria o Mundial de Clubes Master, em maio de 2027, na Croácia. Para Natashy, a possibilidade de uma equipe que começou com mães da escola chegar a uma competição internacional parecia inimaginável. “E, se já não bastasse a alegria de estar em um grupo como este, veio a notícia de que iríamos jogar no Mundial de Clubes, na Croácia. Difícil acreditar que nós, mães da escola dos nossos filhos, vamos ter uma oportunidade que nem quando a gente não era mãe teríamos.”

Para ela, a experiência de jogar handebol na Europa mistura ansiedade, expectativa e felicidade. “Tenho sentido um mix de tudo, frio na barriga e ansiedade. Mas estou muito feliz com a oportunidade de não só fazer um esporte que gosto, relaxar a mente e ainda poder ir competir em lugares que nunca imaginei e com as amigas que fiz dentro de quadra. Agora é treinar bastante para representar o Brasil.”

 

Mães do hand Master EG rumo à Croácia!

Pais e filhos como parceiros de esporte

De acordo com Janice, o crescimento do projeto também tem sido acompanhado por um número cada vez maior de pais. “A adesão tem crescido de forma surpreendente a cada ano, com turmas cada vez maiores e mais animadas. O que mais nos impressiona é ver a mudança no relacionamento entre pais e filhos, que passam a ser parceiros de esporte. Essa dinâmica ganha uma nova cumplicidade, e as famílias criam laços de amizade entre si que transbordam o ambiente escolar.”

Essa relação pode criar uma experiência diferente para as crianças. Em vez de serem apenas aquelas que participam das atividades esportivas, elas passam a acompanhar os pais também na posição de atletas.

Pais e filhos podem conversar sobre treinos, jogos, campeonatos, vitórias e derrotas. Os filhos torcem pelos pais, enquanto os pais passam a dividir com eles uma experiência que tradicionalmente costuma ser associada à infância e à adolescência.

É uma mudança de perspectiva: a quadra deixa de ser apenas o lugar onde os filhos praticam esporte e passa a ser também um espaço em que a família inteira pode construir memórias.

Um projeto que continua crescendo

Depois de mais de 20 anos, a proposta do Colégio Eduardo Gomes mostra que oferecer esporte para os pais pode produzir efeitos que vão muito além da atividade física.

Existe o cuidado com a saúde, mas também a convivência, a criação de vínculos, a sensação de pertencimento e a possibilidade de recuperar sonhos que ficaram adormecidos durante os anos de dedicação à família.

Para algumas mães, pode ser simplesmente uma hora da semana para respirar e se divertir. Para outras, o início de uma nova paixão. E, para algumas, pode significar voltar a competir, vestir a camisa da Seleção Brasileira e viver experiências internacionais que jamais imaginaram depois da maternidade.

No fim, talvez seja justamente esse o maior valor de iniciativas como essa: lembrar que a mãe continua sendo uma mulher com interesses, sonhos, amizades e desejos próprios. Ser mãe pode continuar sendo uma parte enorme da vida, mas não precisa ser a única.

No Colégio Eduardo Gomes, a quadra que antes era ocupada principalmente pelos alunos também passou a ser um lugar onde mães podem correr, jogar, errar, acertar, competir, rir e, principalmente, lembrar que elas também fazem parte dessa história.

Porque cuidar dos filhos não deveria significar deixar de cuidar de si. E, às vezes, tudo o que uma mãe precisa para voltar a se encontrar é uma bola, uma quadra, um grupo de mulheres dispostas a jogar juntas e um técnico que acredita que elas podem (e conseguem!).

E, como mostra a trajetória dessas mães, às vezes esse primeiro passo, como a iniciativa do colégio Eduardo Gomes, pode levar muito mais longe do que elas próprias imaginavam.

Pode levar à Seleção Brasileira. À Copa América. E até ao Mundial de Clubes, na Croácia.

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