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“Quiet quitting” ou divórcio silencioso: você sabe o que é isso?
Talvez o casamento ainda esteja de pé. Pelo menos aparentemente. As contas são pagas, as crianças vão para a escola, o jantar acontece, a agenda da família continua funcionando e, por fora, parece que está tudo bem. Mas alguma coisa está diferente. Já não existe vontade de conversar sobre a relação, os planos a dois foram desaparecendo, o carinho diminuiu e até as tentativas de resolver os problemas acabam. Mas romper é muito desafiador, então, o “quiet quitting” ou o “divórcio silencioso”, tem se tornado uma realidade comum na vida de alguns casais.
O termo vem do mundo do trabalho. A expressão ganhou popularidade para descrever profissionais que permanecem no emprego, mas passam a fazer apenas o mínimo necessário, sem se envolver além das obrigações básicas. Quando foi transportada para os relacionamentos, ganhou outro significado: continuar na relação, mas deixar de investir nela emocionalmente.
Acontece quando uma pessoa continua cumprindo as responsabilidades práticas, mas se distancia afetivamente. Ela está presente, mas não necessariamente disponível para a relação. O parceiro deixa de se esforçar para manter o relacionamento, mas também não toma a iniciativa de terminá-lo. Entre as possíveis razões estão medo do confronto, culpa, comodismo, dificuldade de comunicação e receio de magoar o parceiro.
E existe uma diferença importante: quiet quitting não é simplesmente passar por uma fase de menos romantismo. Todo casamento muda com o tempo e isso é completamente normal. A paixão do começo pode dar lugar a uma relação mais tranquila, especialmente depois de anos de convivência e com a chegada dos filhos. Ter menos encontros românticos em uma determinada fase ou passar por períodos de maior cansaço não significa, por si só, que alguém esteja desistindo da relação.
O sinal de atenção está na combinação entre distanciamento, falta de investimento e ausência de vontade de reconstruir a conexão.
Modo automático
O termo é uma expressão que se popularizou, sobretudo nas redes sociais, e não é uma categoria clínica. Ainda assim, há alguns sinais que podem indicar afastamento. Um deles é quando as conversas sobre o relacionamento simplesmente deixam de existir. A pessoa não reclama, não pede mudanças, não demonstra interesse em resolver os conflitos. Parece ter desistido até de tentar.
Outro sinal é a diminuição do envolvimento afetivo. Menos carinho, menos intimidade, menos interesse pela vida do parceiro e menos vontade de fazer planos juntos podem aparecer nesse processo.
Também pode acontecer de o casal continuar funcionando muito bem como uma equipe doméstica, mas cada vez menos como casal. Vocês decidem quem busca a criança na escola, quem paga a conta de luz e o que precisa comprar no supermercado, mas ninguém pergunta: “como nós estamos?”.
Os filhos viram “desculpas”
A chegada dos filhos pode tornar esse tipo de afastamento mais difícil de perceber. A rotina familiar exige tanto dos adultos que o casamento pode acabar sendo colocado no final da lista. Primeiro vêm as crianças, o trabalho, a casa, as contas, os compromissos e as necessidades de todo mundo. Quando sobra algum tempo, muitas vezes o casal está cansado demais para conversar.
O problema não acontece necessariamente quando o casal vive na correria e tem menos tempo para namorar. A questão é quando a falta de tempo vira falta de interesse e, principalmente, quando ninguém mais parece disposto a mudar a situação.
Quiet quitting é o mesmo que querer se separar?
Não necessariamente. Uma pessoa pode estar emocionalmente afastada e ainda ter dúvidas sobre o futuro do casamento. Em alguns casos, o comportamento pode ser uma forma de evitar uma decisão difícil. Em outros, pode representar cansaço depois de muitas tentativas frustradas de diálogo.
O quiet quitting pode ser menos uma decisão consciente do tipo “vou abandonar meu casamento aos poucos” e mais o resultado de um processo gradual de desligamento.
A pessoa para de pedir, para de reclamar, para de esperar mudança. E, quando percebe, já não está mais tentando.
O termo “quiet quitting” oferece um nome para uma situação que pode ser difícil de explicar: não é exatamente uma separação, não é necessariamente uma briga e também não é apenas uma fase de rotina. É a sensação de que alguém continua presente, mas deixou de estar verdadeiramente envolvido.
Por isso, o conceito viraliza com facilidade. Quem lê pode reconhecer a própria relação — ou a de alguém próximo.
Cansaço nem sempre é desistência
Um casal com filhos pequenos pode estar exausto. Pode passar meses sem um jantar a dois, conversar principalmente sobre a rotina das crianças e ter pouca energia para sexo ou programas românticos. Isso não significa automaticamente que o amor acabou. Também é normal que relacionamentos tenham períodos de maior distância, conflitos e mudanças na dinâmica.
A pergunta mais importante é: ainda existe vontade de cuidar da relação? Se os dois reconhecem que estão afastados e existe disposição para conversar, fazer ajustes e reconstruir a conexão, há uma diferença importante em relação à desistência silenciosa.
O que fazer?
Se você perceber que o seu relacionamento está indo por esse caminho, o primeiro passo é falar sobre o que está acontecendo sem transformar a conversa em uma acusação. Em vez de “você não liga mais para mim”, pode ser mais produtivo dizer: “Tenho sentido que estamos muito distantes e sinto falta de nós dois”. A ideia é abrir espaço para entender o que aconteceu com cada um.
Também pode ser necessário olhar para questões práticas. Existe sobrecarga? Falta de divisão das tarefas? Cansaço extremo? Falta de tempo individual? Problemas financeiros? Dificuldades sexuais? Ressentimentos antigos? Alguma questão que nunca foi realmente resolvida? Às vezes, o afastamento emocional é consequência de problemas que foram se acumulando durante anos. Quando o casal não consegue conversar sozinho, a terapia de casal pode ser uma possibilidade.
O casamento não precisa voltar ao que era no começo. Isso, dificilmente, vai acontecer em uma relação de 10, 15, 20 anos. É esperado que a relação se transforme.
O objetivo não é voltar ao passado, mas descobrir se ainda existe um “nós” que os dois querem construir no presente. A questão pode nem ser escolher entre “ficar” ou “terminar”, mas primeiro reconhecer o que está acontecendo. Em muitos casamentos, o afastamento não começa quando alguém vai embora, mas muito antes — quando alguém ainda está ali, mas simplesmente para de tentar.
Canguru News
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