Por que as cesarianas continuam aumentando no Brasil? Estudo aponta os motivos

De acordo com dados do SUS, partos vaginais tiveram queda expressiva nos últimos anos, enquanto o número de cesarianas continua aumentando. Especialistas explicam o que está acontecendo
Por que tantas mulheres ainda fazem cesárea? Foto: Magnific

 

 

O Brasil continua entre os países que mais realizam cesarianas no mundo, mesmo sem indicação real. Um novo estudo mostra que, mesmo entre mulheres que poderiam ter um parto vaginal, a cirurgia tem se tornado cada vez mais frequente. A pesquisa, conduzida por pesquisadores do Centro de Estudos e Promoção de Políticas de Saúde (CEPPS), do Hospital Israelita Einstein, analisou os partos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2009 e 2023. Os resultados revelam uma mudança importante: enquanto os partos vaginais caíram 39% no período, as cesarianas registraram aumento relativo de 38%.

Os dados chamam atenção porque a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a cesariana seja realizada apenas quando houver necessidade clínica. Ainda assim, o Brasil segue com uma das maiores taxas do mundo: cerca de 55% dos nascimentos acontecem por via cirúrgica.

Segundo os pesquisadores, o crescimento das cesarianas ocorreu praticamente em todo o país. Até mesmo o Nordeste, região que historicamente apresentava menores índices desse tipo de parto, registrou aumento expressivo ao longo dos anos analisados.

Além de ser um procedimento mais caro, a cesariana também exige, em média, um período maior de internação. “Quando pensamos no volume absoluto de nascimentos no país, o aumento progressivo das cesarianas representa também um aumento importante da carga financeira e estrutural sobre o sistema de saúde”, avalia o ginecologista e obstetra Eduardo Felix Santana, professor da graduação em Medicina e da pós-graduação do Ensino Einstein e um dos autores do estudo.

Por que tantas mulheres ainda fazem cesárea?

A explicação para esse cenário é multifatorial. Questões culturais, medo da dor, mudanças na formação médica e dificuldades estruturais dos serviços de saúde ajudam a entender por que o parto normal tem perdido espaço. Para a obstetra Eliana Amaral, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (SP), a ideia de que a cesariana seria um procedimento mais moderno, seguro e confortável ainda persiste no Brasil. “Criou-se uma cultura de cesárea como parto mais seguro e indolor, além de sua valorização como um símbolo de melhor cuidado em saúde da mulher”, afirma.

O medo da dor durante o trabalho de parto também influencia muitas decisões. “Apesar de a analgesia de parto ser um direito da paciente garantido por lei, muitas vezes ela não é respeitada, e a mulher tem medo de chegar para ter o bebê e não receber alívio da dor. Isso é um problema muito grave”, observa o ginecologista e obstetra Henri Augusto Korkes, professor da PUC-SP.

A estrutura dos hospitais é outro desafio. O parto normal exige tempo, acompanhamento contínuo e uma equipe preparada para apoiar a mulher durante toda a evolução do trabalho de parto. “O médico, muitas vezes, está tão acostumado a fazer cesáreas que ele começa a ter mais receio do parto normal, que é menos previsível”, relata o ginecologista e obstetra Eduardo Zlotnik. “E é muito importante que tenha tranquilidade e ferramentas para avaliar e conduzir adequadamente o trabalho de parto”, acrescenta.

Os especialistas reforçam que a cesariana é um procedimento essencial quando há indicação médica. No entanto, quando realizada sem necessidade, aumenta o risco de complicações para mãe e bebê. Entre as mulheres, a cirurgia está associada a maior risco de hemorragia, infecção, trombose, complicações anestésicas e recuperação mais lenta. Em gestações futuras, também aumenta a probabilidade de problemas como placenta prévia e acretismo placentário.

Para os bebês, especialmente quando a cirurgia acontece antes do início do trabalho de parto, há maior risco de desconforto respiratório, necessidade de internação em UTI neonatal e alterações na formação da microbiota intestinal.

Para reduzir o número de cesarianas desnecessárias, os autores defendem ações que vão além da escolha individual da gestante. Entre elas estão campanhas de informação, melhor formação dos profissionais, investimento em equipes multiprofissionais e em infraestrutura hospitalar que favoreça um parto normal seguro e respeitoso. “Garantir um parto respeitoso e seguro, com cuidado interprofissional, é respeitar as mulheres e garantir direitos reprodutivos”, conclui Eliana Amaral.

Fonte: Agência Einstein.

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Veja Também