Seletividade alimentar: qualidade da dieta pode importar mais que a variedade, mostra estudo

Nem sempre uma criança que aceita poucos tipos de alimentos tem uma alimentação pior. Estudo brasileiro mostra que a qualidade do que vai ao prato pode ser mais importante do que a quantidade de alimentos diferentes que ela aceita, uma descoberta que acalma o coração de muitas mães
Criança que não quer comer Foto: Magnific

 

 

Poucas coisas na maternidade são mais estressantes do que uma criança que não come ou que come pouco. Não é por mal. A nutrição é essencial para a saúde e para o desenvolvimento saudável, ainda mais nos primeiros anos de vida. Aquela criança “difícil para comer”, como dizem, leva pais e a mães a se desdobrarem para tentar fazê-la aceitar novos alimentos, novos formatos, pensar em truques… Um sufoco que só quem passa sabe!

A preocupação com a seletividade alimentar faz parte da rotina de muitas famílias e um dos motivos é a sensação de que a criança precisa aceitar “de tudo” para ter uma alimentação saudável. Agora, um novo estudo brasileiro traz uma perspectiva importante: ter um cardápio variado não significa, necessariamente, ter uma alimentação de melhor qualidade. Em alguns casos, acontece justamente o contrário.

A pesquisa foi conduzida por especialistas do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), do Instituto Pensi, e publicada na revista científica Recent Progress in Nutrition. Os resultados foram apresentados em artigo da nutricionista Raquel Ricci, no site The Conversation.

Os pesquisadores analisaram o repertório alimentar de 237 crianças e adolescentes com dificuldades alimentares. A expectativa era simples: quanto maior a variedade de alimentos aceitos, melhor seria a qualidade da dieta. Foi então que veio a surpresa: as crianças maiores, que aceitavam um número maior de alimentos, também consumiam mais ultraprocessados, como salgadinhos, biscoitos recheados, chocolates, sobremesas industrializadas e bebidas açucaradas. Já os menores de 2 anos, apesar de aceitarem menos alimentos, apresentavam uma alimentação proporcionalmente mais rica em frutas, legumes, verduras e preparações simples. Isso significa que o problema não é quantos alimentos a criança come, mas quais alimentos fazem parte desse repertório.

A pressão para “comer de tudo” pode estar no lugar errado

Mães e pais de crianças seletivas fazem festa quando a criança amplia o cardápio, por menor que seja a diferença. E deveriam mesmo, porque isso, de fato, é uma conquista importante. Mas os pesquisadores alertam: se essa ampliação acontece principalmente com alimentos ultraprocessados, ela não representa um ganho nutricional.

Uma criança pode passar a aceitar 30 alimentos diferentes, mas boa parte deles ser composta por bolachas, batatas fritas, doces e produtos industrializados. Enquanto isso, outra criança que ainda come poucos alimentos pode manter um prato baseado em arroz, feijão, frutas, legumes e carnes — e ter uma alimentação muito mais equilibrada.

Segundo os pesquisadores, existe uma explicação biológica para isso. As crianças nascem com preferência natural por sabores doces e alimentos previsíveis em textura e aparência. Entre aquelas que apresentam dificuldades alimentares, essa tendência costuma ser ainda mais intensa.

No estudo, os alimentos mais aceitos tinham características parecidas: eram doces, crocantes, claros ou fáceis de mastigar. Já frutas mais ácidas, verduras e vegetais amargos apareciam com menor frequência, especialmente conforme a idade aumentava.

Mas a biologia não explica tudo. O ambiente familiar também influencia. Quando a criança recusa muitos alimentos, é natural que os adultos passem a oferecer apenas aquilo que sabem que ela vai aceitar. No entanto, muitas vezes, isso inclui produtos ultraprocessados, ampliando o repertório alimentar justamente na direção menos saudável.

O que fazer?

O estudo reforça uma orientação que pediatras e nutricionistas repetem há anos: a ampliação do repertório alimentar deve acontecer com paciência e sem pressão. As melhores condutas são:

  • oferecer repetidamente frutas, legumes e verduras, mesmo que a criança recuse nas primeiras vezes;
  • evitar substituir refeições por alimentos que ela prefere apenas para que “coma alguma coisa”;
  • limitar a presença de ultraprocessados no dia a dia;
  • respeitar o ritmo da criança, entendendo que experimentar novos alimentos é um processo gradual.

Menos culpa, mais qualidade

Para muitas mães, a pesquisa traz um grande alívio. Em vez de contar quantos alimentos o filho aceita, talvez faça mais sentido olhar para o conjunto da alimentação.

Se o prato ainda é pequeno, mas inclui alimentos nutritivos e adequados para a idade, isso pode representar um caminho mais saudável do que um cardápio enorme, mas recheado de produtos ultraprocessados.

Na alimentação infantil, qualidade e variedade caminham juntas, mas, quando é preciso escolher onde concentrar os esforços, é melhor ampliar o repertório de alimentos saudáveis do que apenas aumentar a lista de alimentos aceitos.

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