Mães precisam pedir “permissão” para dormir? Pesquisa revela o peso da culpa e da carga mental

Levantamento com 1.000 mães mostra que 62% sentem que precisam da autorização de outra pessoa para priorizar o próprio sono; estudos científicos ajudam a entender por que descansar pode ser tão difícil na maternidade

Você já colocou as crianças para dormir, organizou a cozinha, separou as roupas do dia seguinte, respondeu uma última mensagem da escola e finalmente chegou à cama — só para perceber que sua cabeça continua à mil por hora? Talvez você tenha cogitado dormir mais no sábado, mas lembrou que alguém precisava levar o filho ao futebol, preparar o café da manhã ou resolver alguma pendência em casa.

Mais do que a falta de tempo para dormir, para muitas mães o problema é sentir que qualquer momento para o descanso precisa ser justificado. É o que aponta uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com 1.000 mães de 25 a 45 anos. Entre as participantes, 62% disseram sentir que precisam da “permissão formal” de outra pessoa para priorizar o próprio sono sem culpa. O levantamento foi realizado pela Wakefield Research a pedido da empresa de produtos para sono Naturepedic.

De acordo com a pesquisa, 48% das mães dormem menos de sete horas por noite e 83% acordam normalmente com a sensação de que não tiveram uma boa noite de sono, independentemente de quanto tempo passaram na cama.

Sempre alerta

A Naturepedic usa o termo “maternal vigilance”, ou vigilância materna, para descrever um estado de alerta aumentado diante das necessidades dos filhos. Outro estudo, publicado em 2023 na revista Sleep, acompanhou 232 casais desde a gravidez até os 12 meses depois do nascimento do bebê. Os pesquisadores avaliaram o sono durante sete noites em diferentes momentos, usando actigrafia — um método que monitora os períodos de atividade e repouso —, diários de sono e uma escala de sintomas de insônia.

Os resultados mostraram que as mães apresentaram pior qualidade de sono do que os pais em todas as avaliações, embora os pais tenham apresentado, em alguns momentos, menor duração total do sono. Cerca de 70% das mães apresentaram pelo menos sintomas de insônia subclínica nas diferentes avaliações.

Mesmo quando a criança dorme, a mãe pode continuar em alerta, ou seja, o sono da mãe não é necessariamente determinado apenas pelo comportamento dos filhos. A própria percepção de que é preciso estar disponível já impede o descanso total.

Sabe quando você estava contando as horas para o seu filho dormir e isso finalmente acontece? Em vez de aproveitar a oportunidade de descansar, seu cérebro começa a percorrer uma lista mental. Você se identifica? É uma sensação que muitas mulheres conhecem bem: a ideia de que sempre existe algo mais importante para fazer antes de descansar. E, quando finalmente sobra um tempo, o corpo e a cabeça nem sempre conseguem acompanhar.

O levantamento da Naturepedic mostrou que 90% das mães têm dificuldade para acalmar a mente na hora de dormir. Entre as preocupações que aparecem nesse momento estão tarefas do dia seguinte, horários das crianças, compromissos, compras e tudo aquilo que precisa ser lembrado. É como se o expediente da maternidade terminasse para o resto da casa, mas continuasse dentro da cabeça da mãe.

 

Entre mães de crianças de até 2 anos, o cenário foi ainda mais intenso. Elas dormiam, em média, 5,9 horas por noite, contra 6,5 horas entre todas as mães entrevistadas. Além disso, 89% delas disseram acordar sem se sentir descansadas.

Não é só uma questão de “organizar melhor o tempo”

Todo mundo olha para uma mãe cansada e sugere que ela “durma mais”. Mas essa recomendação ignora uma parte importante do problema: quem assume as tarefas enquanto ela dorme?

Na pesquisa, quando as mães foram questionadas sobre o que realmente ajudaria a melhorar o sono, as respostas apontaram justamente para a divisão das responsabilidades: 59% disseram que gostariam que alguém assumisse mais tarefas domésticas e 58% gostariam simplesmente de poder dormir até mais tarde.

Outros desejos incluíram ter um colchão ou roupa de cama mais confortável (54%), alguém assumir a rotina noturna das crianças (49%) e criar um ambiente mais relaxante no quarto (48%).

A pesquisa também relaciona essa dificuldade ao chamado “permission gap”, ou “lacuna da permissão”: a distância entre saber que precisa e merece descansar e sentir que tem autorização para fazer isso sem culpa.

Você pensa: “Vou dormir depois que terminar tudo”. Mas tem um detalhe: na maternidade, “tudo” quase nunca termina. Quando você acredita que só tem direito ao descanso depois de cumprir todas as obrigações, o descanso vira uma recompensa. É preciso lembrar que se trata de uma necessidade básica.

E mais do que isso: dormir mal pode afetar a relação com o filho. Outro estudo publicado na revista Sleep em 2022 acompanhou 151 mulheres desde a gravidez, avaliando seu sono por sete noites quando os bebês tinham 4 e 8 meses. Os resultados mostraram uma associação entre pior qualidade do sono e sentimentos menos positivos em relação ao cuidado com o bebê.

Quando uma mãe dormia pior do que era habitual para ela em determinada noite, relatava menos paciência com o bebê no dia seguinte. O estudo também encontrou associações entre pior sono e mais raiva e menor desejo de estar com o bebê.

É claro que uma noite ruim não vai transformar você em uma mãe menos amorosa ou vai determinar a qualidade da sua relação com o seu filho. O que o estudo mostra é uma associação entre variações no sono e sentimentos relacionados ao cuidado, e não uma relação de causa e efeito simples. Mas isso já pode ajudar a entender por que o descanso materno não deveria ser tratado como luxo.

Embora tenha sido feita com mães americanas e encomendada por uma empresa do setor de sono, a pesquisa aponta resultados que dialogam com estudos acadêmicos que mostram como o sono materno pode ser particularmente prejudicado no período após o nascimento dos filhos. É importante para lembrar não apenas que as mães precisam de descanso, mas que esse descanso não precisa ser negociado e muito menos autorizado.

Se uma família tem duas pessoas adultas responsáveis pelos filhos, por exemplo, o descanso de uma não deveria depender da boa vontade da outra. As tarefas precisam ser distribuídas de maneira que todos tenham a oportunidade de dormir e recuperar as energias.

Cuidar de si não é abandonar os filhos e dormir não é prêmio: é necessidade.

 

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