Maternidade depois dos 40 cresce 71,8% em 20 anos no Brasil

Levantamento do IBGE mostra aumento expressivo no número de mulheres que têm filhos nessa fase da vida, marcada por mudanças na carreira, na saúde, nos relacionamentos e na forma de viver a maternidade

Se há algumas décadas, uma gestação aos 40 era considerada “tardia”, hoje, virou a experiência mais comum. Dados do IBGE mostram que o número de nascidos vivos de mulheres com 40 anos ou mais passou de 59,9 mil, em 2004, para 102,8 mil, em 2024, um aumento de 71,8%. A mudança acompanha uma transformação mais ampla no calendário reprodutivo: mulheres estão deixando a maternidade para depois, enquanto investem em outras áreas da vida primeiro.

A mudança demográfica costuma ser apresentada pelo lado da fertilidade e dos riscos obstétricos. Viver a maternidade aos 40 é diferente de viver aos 20, aos 30. Não quer dizer que seja melhor ou pior, porque isso depende de vários fatores e também das condições e avaliações individuais de cada uma.

Mas não dá para negar que, nessa faixa etária, boa parte das mulheres podem estar em uma fase importante da carreira, cuidando dos próprios pais, começando a sentir mudanças hormonais e revendo o que deseja para os próximos anos. A idade transforma a maneira como uma mulher chega à maternidade.

Algumas relatam maior segurança financeira, mais experiência profissional e uma percepção diferente sobre prioridades. Outras enfrentam justamente o contrário: precisam conciliar os cuidados com um filho pequeno com uma carreira já estabelecida e, em alguns casos, com responsabilidades de cuidado de pais idosos, na famosa “geração sanduíche”. Reduzir a conversa à “gravidez tardia” acaba simplificando e generalizando demais, quando, na verdade, cada experiência é única.

Quando a maternidade e a perimenopausa se encontram

Para mães que decidem engravidar aos 40, duas transições se aproximam: a maternidade e a perimenopausa. Puerpério e climatério. O período que antecede a menopausa é marcado por várias alterações hormonais, que costumam provocar irregularidade menstrual, ondas de calor, mudanças no sono, alterações de humor e outros sintomas.

Não é fácil lidar, ao mesmo tempo, com uma criança pequena ou adolescente e com as transformações que acontecem no próprio corpo. É uma combinação que merece mais atenção porque os sintomas podem ser confundidos com outras coisas. Cansaço constante pode ser atribuído à maternidade. Irritabilidade pode parecer apenas estresse. Alterações no sono podem ser colocadas na conta da rotina dos filhos. Mas, para algumas mulheres, tudo pode ser também desencadeada pelos hormônios.

Cadê o pique?

Uma mulher que se torna mãe aos 40 certamente receberá opiniões e conselhos que nunca foram solicitados sobre a própria idade, ouvir que “parece avó” ou sentir que está fora do padrão esperado para a maternidade.

Ao mesmo tempo, pode existir também uma preocupação íntima: “Quantos anos terei quando meu filho fizer 20?”. E isso não quer dizer que você tem medo. Talvez seja parte da reflexão sobre envelhecimento e maternidade. E tudo bem!

Mas já parou para pensar que também pode ser muito positivo chegar à maternidade com uma identidade profissional e pessoal mais consolidada e menos disposição para seguir expectativas externas?

Além disso, a ideia de que mães mais velhas necessariamente têm menos disposição é um estereótipo que não explica a realidade individual. Uma mulher de 42 anos pode ter mais energia e suporte do que tinha aos 28. A idade cronológica não conta a história inteira. O que pode fazer diferença é a combinação entre saúde, sono, rede de apoio, condições de trabalho, situação financeira e divisão dos cuidados.

A carreira também entra na equação

A maternidade aos 40, para muitas, vem depois de anos de investimento profissional. Em alguns casos, isso significa ter mais estabilidade para se afastar temporariamente do trabalho. Em outros, é um desafio sentir que não pode desacelerar justamente naquele momento.

E outro ponto: no Brasil, um estudo da OIT mostrou que metade das mulheres deixa o mercado de trabalho até dois anos depois do nascimento do primeiro filho. As mulheres também dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado. Ou seja: ter um filho aos 40 não elimina os desafios que outras mães enfrentam. Eles só mudam de lugar na trajetória profissional.

Ter um filho aos 40 não é uma categoria de maternidade

Diante de tudo isso, não dá para negar que a expressão “mãe mais velha” pode esconder uma enorme diversidade. Há mulheres que sempre quiseram ter filhos e adiaram a maternidade, outras encontraram novos relacionamentos; há quem tenha enfrentado infertilidade ou decidido mesmo ter outro filho depois de anos.

A estatística do IBGE mostra uma transformação demográfica, mas não explica as histórias por trás dela, que são diversas. Não existe uma idade única para viver a maternidade, nem uma maneira única de ser mãe aos 40. Ninguém “está velha” para ter filhos. O que a sociedade tem de garantir é que, independente da fase, a mulher tenha saúde, apoio e condições para gerar, parir e criar seus filhos.

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Veja Também

Galinha Pintadinha, agora no cinema

Primeiro filme da personagem estreia nesta quinta-feira (1º) e apresenta a Popó em animação 3D, com uma história criada especialmente...