Meu filho não quer comer carne. E agora?

A recusa pode fazer parte de uma fase de seletividade alimentar, mas é importante ficar de olho na variedade da dieta e em nutrientes como ferro, zinco e vitamina B12

Tem dia em que a criança olha para o prato e separa a carne para o cantinho. Em outro, nem deixa o alimento chegar perto da boca. Para muitas mães e pais, começa então a preocupação: “Será que ele está comendo proteína suficiente?”, “E o ferro?”, “Preciso insistir até ele comer?”.

E não adianta simplesmente colocar mais carne no prato — nem entrar em uma batalha a cada refeição. A recusa de determinados alimentos pode acontecer na infância e, quando a criança continua comendo uma variedade razoável de outros alimentos, isso nem sempre é um problema.

Por outro lado, a carne é uma fonte importante de alguns nutrientes, especialmente de ferro e zinco. Então, vale observar o conjunto da alimentação e entender como oferecer alternativas sem transformar a hora de comer em uma disputa.

Primeiro: por que ele não quer carne?

Antes de pensar em como fazer a criança comer, pode ser útil tentar entender o motivo da recusa. Algumas crianças não gostam da textura mais fibrosa da carne, têm dificuldade para mastigar ou se incomodam com o cheiro, a aparência ou a temperatura do alimento. Outras simplesmente estão passando por uma fase de maior seletividade.

A seletividade alimentar é relativamente comum na primeira infância. O comportamento de “comer seletivamente” é frequente nessa fase e pode estar associado a fatores como dificuldades alimentares anteriores, introdução tardia de diferentes texturas e pressão para comer. Estudos também chamam  atenção para a possibilidade de menor ingestão de alguns nutrientes quando a variedade alimentar fica muito limitada. Uma coisa é a criança dizer que não gosta de carne. Outra, bem diferente, é recusar uma série de grupos alimentares e ter uma alimentação cada vez mais restrita.

Mas a criança precisa comer carne?

Não necessariamente. A carne não é a única fonte de proteína ou de ferro. O próprio Ministério da Saúde recomenda uma alimentação diversificada, com alimentos de diferentes grupos. Entre eles estão feijões e outras leguminosas, cereais, raízes e tubérculos, legumes, verduras, carnes e ovos.

Se seu filho não quer carne, isso não quer dizer que ele ficará automaticamente sem proteína. O ferro merece atenção especial. As carnes, principalmente as vermelhas e as vísceras, fornecem ferro em uma forma que é mais facilmente absorvida pelo organismo. Feijão, lentilha, soja, ovos e alguns vegetais também contêm ferro, mas com menor absorção. Uma recomendação de 2026 da SBP sobre prevenção da deficiência de ferro reforça a importância de oferecer regularmente alimentos fontes de ferro de boa biodisponibilidade, especialmente carnes bovinas, suínas, aves e peixes, associando-os, quando possível, a alimentos ricos em vitamina C, que favorecem a absorção do ferro.

O Ministério da Saúde também destaca a importância da prevenção da deficiência de ferro na infância e mantém recomendações específicas de suplementação para determinadas faixas etárias. Mas atenção: ela deve ser feita de acordo com a orientação de um profissional de saúde. Não ofereça ferro por conta própria.

Feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha são boas opções para ampliar a oferta de ferro e proteínas. O ovo também fornece proteína, ferro e outros nutrientes. A SBP lista carne, miúdos, ovo, feijão, grão-de-bico, espinafre e couve entre os alimentos que podem contribuir para a ingestão de ferro.

Uma dica simples é combinar outras fontes de ferro com alimentos ricos em vitamina C. Por exemplo: feijão com tomate, lentilha acompanhada de brócolis ou uma fruta rica em vitamina C depois da refeição. A vitamina C ajuda na absorção do ferro presente nos alimentos vegetais.

Varie a apresentação

Às vezes, o problema não é exatamente o sabor da carne, mas a forma como ela chega ao prato. Para crianças pequenas, você pode oferecer carnes em pedaços pequenos e com consistência adequada ao desenvolvimento. Preparações cozidas, assadas ou desfiadas podem ser mais fáceis de consumir.

Vale experimentar diferentes preparações, sem transformar nenhuma delas em obrigação, como carne moída com molho caseiro, carne desfiada misturada ao feijão, almôndega caseira, hambúrguer caseiro, frango desfiado, peixe bem desfiado e sem espinhas, carne preparada em ensopados e em recheios de tortas ou panquecas caseiras.

Atenção: a ideia não é “enganar” a criança para que ela coma carne, mas oferecer experiências diferentes. Assim, fica mais fácil descobrir quais texturas e preparações são mais confortáveis para ela.

Misturar alimentos pode ser uma forma legítima de variar as preparações, mas é interessante que a criança também tenha contato visual e sensorial com os alimentos separadamente. Isso porque a relação com a comida também envolve aprendizado.

Então, em vez de pensar “como faço para ele comer sem perceber?”, pode ser mais produtivo pensar: “Como posso oferecer esse alimento de uma maneira que seja confortável e agradável para ele?”.

E se ele simplesmente não quiser?

Pode acontecer — e tudo bem! Transformar cada refeição em uma negociação é cansativo e ineficaz. Esqueça frases como: “Só sai da mesa quando comer”, “se comer a carne ganha sobremesa” ou “você não vai brincar enquanto não terminar”. Isso só aumenta a pressão em torno da comida.

O ideal é oferecer e permitir que a criança participe desse processo. Coloque uma pequena quantidade no prato, junto de alimentos que ela já aceita, sem exigir que coma. Se recusar, tudo bem. Em outra oportunidade, o alimento pode ser oferecido novamente, de outra forma.

Quando a recusa merece uma investigação?

Vale conversar com o pediatra e, se necessário, com um nutricionista infantil quando a recusa de carne fizer parte de uma restrição alimentar mais ampla ou quando houver sinais de que a alimentação não está sendo suficiente.

Procure avaliação especialmente se a criança:

  • aceita pouquíssimos alimentos;
  • elimina progressivamente grupos alimentares;
  • apresenta perda de peso ou não está crescendo como esperado;
  • demonstra dificuldade para mastigar ou engolir;
  • apresenta cansaço, palidez ou falta de apetite persistente;
  • tem grande sofrimento ou ansiedade diante das refeições;
  • apresenta uma alimentação muito pobre em fontes de ferro.

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