Porque você deveria parar de dizer para o seu filho “tomar cuidado”

Embora a frase seja usada com a intenção de proteger, orientações mais específicas podem ajudar as crianças a desenvolver autonomia, percepção de risco, autoconfiança e capacidade de tomar decisões seguras por conta própria

Se meus filhos ganhassem uma moeda de R$ 1 a cada vez que ouvem de mim ou do pai a palavra “cuidado!”, eles já estariam prontos para comprar um imóvel ou para pagar todas as mensalidades de um curso completo na faculdade. É instintivo, quase automático. No parquinho, quando correm, sobem em um brinquedo, andam descalços, usam talheres, tentam uma nova habilidade… Poucas palavras são tão frequentes na rotina de quem convive com crianças. Por isso, sei que isso não acontece só aqui em casa. Mas você já parou para pensar em quão “vazia” é essa recomendação?

A intenção é sempre a melhor possível: proteger. Nós, adultos, enxergamos perigos que as crianças ainda não conseguem identificar. Mas a frase é vaga demais para ajudar a criança a entender exatamente o que precisa fazer.

Quando um adulto diz apenas “cuidado”, a criança pode não saber se deve parar, diminuir a velocidade, mudar de direção ou prestar atenção em algum obstáculo específico. Em alguns casos, a expressão também pode transmitir insegurança, fazendo com que ela passe a depender constantemente da avaliação dos adultos para decidir o que é seguro ou não.

Subir, pular, correr, escalar, equilibrar-se e explorar novos ambientes são comportamentos naturais da infância. Quando acontecem em contextos adequados à idade e sob supervisão, essas experiências ajudam a desenvolver habilidades importantes.

Ao testar seus limites, a criança aprende sobre o próprio corpo, melhora a coordenação motora, fortalece a autoconfiança e desenvolve a capacidade de resolver problemas. Também começa a compreender, aos poucos, quais riscos consegue administrar sozinha e quando precisa pedir ajuda.

Isso não significa ignorar situações perigosas ou deixar que a criança faça qualquer coisa. O papel do adulto continua sendo fundamental. A diferença está na forma como essa orientação é oferecida.

Troque o alerta genérico por orientações concretas

Em vez de dizer apenas “cuidado”, especialistas sugerem usar frases que direcionem a atenção da criança para aspectos específicos da situação.

Alguns exemplos:

  • “Vá mais devagar.”
  • “Olhe onde vai colocar os pés.”
  • “Segure firme com as duas mãos.”
  • “Veja se tem alguém atrás de você antes de jogar a bola.”
  • “Você sente que seu corpo está preparado para isso?”
  • “Estou aqui se precisar de ajuda.”

Essas orientações ajudam a criança a observar o ambiente, refletir sobre suas ações e tomar decisões mais conscientes. Com o tempo, ela passa a internalizar esse processo e desenvolve sua própria capacidade de avaliar riscos.

Encontrar o equilíbrio entre segurança e autonomia não é fácil para os pais. O medo de acidentes, muitas vezes, leva os adultos a interromperem as tentativas das crianças de explorar o mundo. É preciso fazer um esforço, eu sei, mas é importante que a gente tente se lembrar que crescer envolve experimentar, errar, ajustar estratégias e tentar novamente. É justamente nesse processo que surgem a confiança, a persistência e a resiliência.

Quando uma criança recebe espaço para enfrentar desafios compatíveis com sua idade, ela aprende uma lição valiosa: dificuldades fazem parte da vida e podem ser superadas. No lugar de apenas ouvir “cuidado”, ela começa a construir uma mensagem ainda mais poderosa dentro dela: “Eu consigo lidar com isso”. E essa talvez seja uma das maiores habilidades que os pais podem ajudar os filhos a desenvolver.

Fonte: Institute of Child Psychology

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