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Colesterol alto na gravidez: quando é normal e quando merece atenção?
A gravidez transforma o corpo de muitas maneiras. Algumas delas aparecem nos exames de sangue. É comum, por exemplo, que, a partir do segundo trimestre, os níveis de colesterol e triglicérides subam. Para muitas gestantes, o resultado pode assustar, principalmente quando os números aparecem acima dos valores de referência habituais. Mas, na maioria das vezes, é uma mudança esperada, que faz parte da adaptação do organismo à gestação.
Uma revisão sistemática publicada em 2025, que reuniu dados de 13 estudos com mais de 54 mil gestantes, mostrou que o colesterol total pode aumentar cerca de 30% a 50% ao longo da gravidez. Já os triglicérides podem subir de 50% a 100%. Isso acontece porque o organismo se adapta para garantir energia e nutrientes destinados ao crescimento do bebê, a formação da placenta e a produção de hormônios.
Por isso, em gestantes, um colesterol acima do valor de referência para adultos não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde. O resultado precisa ser interpretado levando em conta o trimestre da gestação, o histórico da mulher e a presença de outros fatores de risco.
“Na prática clínica, considero importante tranquilizar as gestantes: o aumento do colesterol durante a gravidez, na maioria das vezes, faz parte das adaptações fisiológicas do organismo necessárias ao desenvolvimento do bebê”, explica a endocrinologista Lizanka Marinheiro, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz).
A especialista lembra que não é recomendado tomar decisões com base apenas no resultado de um exame — e muito menos iniciar ou interromper medicamentos por conta própria. “Precisamos olhar para a gestante como um todo, e não apenas para um resultado laboratorial. Na maioria das gestantes, uma elevação isolada do colesterol faz parte das alterações fisiológicas da gravidez e não representa, por si só, indicação de tratamento”, afirma.
A situação muda quando a mulher já apresentava colesterol elevado antes da gravidez, tem histórico de hipercolesterolemia familiar, doença cardiovascular ou apresenta alterações muito importantes nos triglicérides. Nesses casos, o acompanhamento precisa ser individualizado.
Quando o colesterol alto merece mais atenção
O histórico de saúde da gestante é uma das principais pistas para diferenciar uma alteração esperada de uma situação que exige investigação. “Dislipidemia prévia, hipercolesterolemia familiar ou doença cardiovascular e, especialmente, elevações importantes dos triglicerídeos ajudam a identificar as situações que merecem maior atenção”, explica Lizanka.
A nutricionista Julyane Sobrino, também do IFF/Fiocruz, destaca que mulheres que já começam a gestação com alterações no colesterol podem apresentar maior risco de algumas complicações, como diabetes mellitus gestacional e pré-eclâmpsia.
Outros fatores também entram nessa avaliação, como obesidade, hipertensão, diabetes gestacional, sedentarismo e ganho de peso acima do recomendado durante a gravidez.
A médica clínica da Área da Gestante do IFF/Fiocruz, Simone de Almeida Leite, acrescenta que a presença de dislipidemia antes da gestação pode estar associada a eventos como hipertensão induzida pela gravidez, diabetes gestacional, parto prematuro e macrossomia — quando o bebê apresenta peso elevado ao nascer.
Por isso, o pré-natal tem um papel importante não apenas para acompanhar a evolução da gestação, mas também para identificar fatores de risco e orientar mudanças que podem proteger a saúde da mãe e do bebê.
O que comer para controlar colesterol na gravidez?
Se o colesterol aumentou durante a gravidez, a solução não é cortar gorduras ou fazer uma dieta restritiva. A recomendação é melhorar a qualidade da alimentação. A nutricionista orienta priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como:
- frutas;
- verduras e legumes;
- feijão e outras leguminosas;
- cereais integrais;
- sementes e oleaginosas;
- abacate;
- azeite de oliva extravirgem;
- peixes ricos em ômega-3, como sardinha e salmão.
Também vale reduzir o consumo frequente de ultraprocessados, bebidas açucaradas, carboidratos refinados e alimentos ricos em gorduras saturadas. Mas nada de exageros! “Não se recomenda a restrição excessiva de gorduras ou colesterol durante a gestação, uma vez que esses nutrientes são fundamentais para a síntese hormonal, o desenvolvimento placentário e o adequado crescimento e desenvolvimento cerebral do bebê”, afirma Julyane.
A ideia não é fazer uma dieta para “baixar o colesterol” a qualquer custo, mas construir uma alimentação equilibrada, capaz de atender às necessidades nutricionais da gestação.
Trocas simples podem ajudar a melhorar a qualidade da alimentação sem transformar as refeições em uma lista de proibições. “Substituir frituras por preparações assadas, trocar alimentos refinados por integrais, incluir oleaginosas e consumir peixes ricos em ômega-3 mostra-se uma estratégia mais eficaz e segura do que a adoção de restrições alimentares desnecessárias”, orienta Julyane.
A suplementação de ômega-3 pode ser indicada em algumas situações, mas não deve ser iniciada por conta própria. A necessidade deve ser avaliada individualmente pelo profissional que acompanha a gestação.
“Informação de qualidade reduz a ansiedade e evita tanto o excesso quanto a falta de tratamento. O objetivo não é medicalizar uma alteração fisiológica da gravidez, mas reconhecer precocemente as exceções que realmente precisam de cuidados especializados”, resume Lizanka.
E o cuidado não termina com o nascimento do bebê. Segundo Simone, o pós-parto também é uma oportunidade para manter o acompanhamento da saúde cardiovascular e metabólica da mulher.
Canguru News
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