Artigos
Menos horas no trabalho, mais tempo com os filhos: o legado da pandemia para a paternidade
Os homens estão trabalhando menos horas e dedicando mais tempo aos filhos. Pelo menos, é o que sugere um novo estudo, feito com pais nos Estados Unidos. Conduzido pelo economista Ariel Binder e publicado pelo American Institute for Boys and Men (AIBM), o trabalho analisou dados da pesquisa nacional de uso do tempo dos Estados Unidos e identificou uma mudança significativa após a pandemia de Covid-19. Entre pais com ensino superior e filhos pequenos, houve redução média de seis horas semanais de trabalho remunerado e aumento de mais de quatro horas por semana em atividades como cuidados com as crianças e tarefas domésticas.
Embora tenha sido feito com um público específico e de outro país, o dado chama atenção porque rompe uma tendência observada nas duas décadas anteriores à pandemia. Até então, mesmo com a crescente participação feminina no mercado de trabalho, o tempo que os pais dedicavam ao cuidado dos filhos avançava lentamente. Agora, a mudança parece estar acelerando.
Mais do que uma redistribuição das tarefas da casa, os pesquisadores observam um aumento do envolvimento paterno direto com os filhos. Entre casais com crianças menores de seis anos, aproximadamente metade do crescimento do tempo dedicado pelos pais em casa ocorreu em atividades de cuidado infantil, e a outra metade em tarefas domésticas.
Ainda está longe de ser suficiente para um equilíbrio, mas a descoberta reforça algo que a ciência do desenvolvimento infantil vem apontando há anos: a participação ativa do pai tem impacto positivo sobre o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças. Estudos já demonstraram que crianças que contam com pais envolvidos tendem a apresentar melhor desempenho escolar, maior autoestima, mais habilidades socioemocionais e menor incidência de problemas comportamentais. O benefício não está apenas em “estar presente”, mas em participar efetivamente da rotina, brincar, conversar, ajudar nas tarefas, dar banho, preparar refeições, colocar para dormir e acompanhar desafios do dia a dia.
A convivência diária também ajuda a construir um vínculo de segurança emocional. Quando a criança percebe que pode contar com diferentes figuras de cuidado, amplia sua rede de apoio afetivo e desenvolve mais confiança para explorar o mundo. Além disso, a participação paterna influencia diretamente a forma como os filhos entendem relações, responsabilidades e igualdade de gênero. Meninos e meninas observam o que acontece dentro de casa e aprendem, desde cedo, o que significa cuidar, colaborar e dividir tarefas.
Nesse sentido, um pai que participa ativamente da rotina não beneficia apenas a criança no presente, mas impacta na maneira como a próxima geração enxergará a parentalidade.
Os pesquisadores investigaram algumas hipóteses para tentar explicar a mudança. O crescimento do trabalho remoto certamente contribuiu. No entanto, segundo a análise, a maior flexibilidade profissional responde por uma parcela relativamente pequena da mudança observada. Para os autores, a transformação é mais profunda: muitos pais parecem estar reavaliando o equilíbrio entre carreira e vida familiar. A experiência da pandemia, que levou milhões de famílias a passarem mais tempo juntas dentro de casa, pode ter acelerado esse processo.
Embora o estudo tenha sido realizado nos Estados Unidos, especialistas observam tendências semelhantes em diversos países. As novas gerações de pais demonstram maior desejo de participar da criação dos filhos e não apenas de exercer o papel tradicional de provedor financeiro.
Isso não significa que a divisão do cuidado tenha se tornado igualitária. O próprio estudo mostra que as mulheres continuam realizando uma parcela significativamente maior do trabalho doméstico e dos cuidados familiares. Entre casais com filhos pequenos, as mães ainda dedicam cerca de 15 horas semanais a mais que os pais às atividades não remuneradas.
Mas os pesquisadores consideram que o movimento é relevante justamente por representar uma mudança de direção. Pela primeira vez em muitos anos, a aproximação entre os papéis masculinos e femininos dentro da família está sendo impulsionada principalmente pelos homens. Para as crianças, essa pode ser uma das consequências mais positivas deixadas pelo período pós-pandemia: mais tempo compartilhado, mais vínculos construídos e uma paternidade cada vez mais presente no cotidiano.
Canguru News
Desenvolvendo os pais, fortalecemos os filhos.
VER PERFILAviso de conteúdo
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.
Veja Também
Por que os pais (e não só as mães) deveriam evitar o álcool antes da gravidez
Um número crescente de estudos sugere que os hábitos do futuro pai antes da concepção também podem influenciar o desenvolvimento...
Colo não estraga: o que a ciência sabe sobre os benefícios do toque e do contato físico para os bebês
Ao contrário daqueles “palpites” que a gente costuma ouvir, pesquisas reforçam que colo, carinho e contato físico ajudam a fortalecer...
Cuscuz pode aumentar o leite materno? Estudo brasileiro aponta possível relação com ganho de peso do bebê
Pesquisa com mulheres que estavam em aleitamento exclusivo observou maior ganho de peso dos bebês quando as mães consumiram cuscuz...
Agenda imperdível: Tudo o que vai rolar na Comunidade Caru em setembro
A Comunidade Caru é um espaço criado para acolher mães e mulheres em diferentes momentos da maternidade, promovendo informação, conversas,...










