“Não consigo ser a mãe que gostaria”: você também se sente assim?

Sobrecarga não é apenas uma questão de organização, mas também um resultado da má distribuição das responsabilidades relacionadas ao cuidado

Quando eu trabalhava fora, acreditava que, no dia em que conseguisse ficar em casa, com meus filhos, integralmente, a vida estaria resolvida e eu teria tempo para tudo. Mas quando isso aconteceu, percebi que essa não era a resposta e que, ainda assim, eu continuava nadando, nadando, nadando, sem chegar no lugar onde eu queria. E que lugar era esse? Um ponto em que eu me sentiria realizada como mãe, cumprindo meu papel, sem sentir que nenhum pratinho estava no chão. Mas sabe qual pratinho estava no chão? Eu! E sem este pratinho especificamente nenhuma das minhas outras funções poderia ser cumprida. Pelo menos não de forma eficaz e funcional. Na verdade, o lugar ao qual eu queria chegar, nadando a braçadas, por vezes me afogando no caminho, não existe. E é por isso que eu nunca o alcançaria. Nem eu, nem você, nem outras mães mundo afora.

Uma reportagem publicada recentemente pelo Guardian ouviu mães da geração millennial que descrevem justamente esse sentimento. Mesmo em famílias nas quais os dois adultos trabalham, muitas mulheres continuam assumindo uma parcela maior do cuidado e da organização da vida doméstica. Ao mesmo tempo, creches caras, horários escolares incompatíveis com a jornada de trabalho e pouca flexibilidade tornam a equação ainda mais difícil.

Muitas vezes, a gente acredita que a solução seja organizar melhor a agenda e a prioridade. Mas o buraco é muito mais embaixo.

No Brasil, um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) mostrou que as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,8 horas semanais a mais do que os homens ao trabalho de cuidado não remunerado.

Na maternidade, a diferença fica ainda mais evidente. Segundo o mesmo levantamento, metade das mulheres deixa o mercado de trabalho até dois anos depois do nascimento do primeiro filho, enquanto os homens, em média, aumentam seus rendimentos nesse mesmo período. A chegada de um bebê interfere no tempo disponível, na trajetória profissional e na renda — e os efeitos não são distribuídos igualmente entre homens e mulheres.

Dados do IBGE mostram que, em 2022, mulheres que estavam no mercado de trabalho dedicavam em média 17,8 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11 horas entre homens ocupados. Entre as mulheres que não estavam, a média chegava a 24,5 horas. Tudo isso revela uma diferença estrutural que ajuda a entender por que tantas mães descrevem a sensação de estar sempre administrando alguma coisa, com a chamada carga mental.

Escola em período integral ou parcial, atividades extracurriculares, esportes, aulas de idiomas, consultas médicas, terapia, festas de aniversário, compromissos sociais e tarefas escolares. Uma criança se beneficia com tudo isso. Mas o que acontece quando a soma de tantas atividades e necessidades depende de uma só pessoa para acontecer?

Em uma das histórias contadas na reportagem do Guardian, uma mãe chegou a recorrer a um programa de IA para tentar organizar horários de trabalho, escola, cuidados e atividades dos filhos. Ela ficou surpresa quando se deu conta de que nem a inteligência artificial conseguiu produzir uma solução que coubesse na realidade da família. Isso mostra que a gente não precisa de mais uma técnica de produtividade, mas de mais tempo, o que só é viável a partir de uma divisão de responsabilidades e apoio.

Isso sem falar na camada emocional que vem “de brinde” com a maternidade contemporânea. Quando uma mulher se torna mãe, a sociedade espera que ela acompanhe a escola, estimule, brinque, cuide para que a criança tenha uma alimentação impecável, fique longe das telas. A mãe precisa estar física e emocionalmente presente, entregue, disponível. A casa tem de funcionar. Ah, e não pode esquecer de zelar pela carreira e pelo relacionamento!

As redes sociais acrescentam um peso extra, com aquela impressão de que outras famílias conseguem fazer tudo de maneira organizada e bonita. Quanto mais a gente tenta fazer, mais coisas percebe que falhou. A culpa não necessariamente significa que você esteja fazendo pouco. Talvez seja justamente um efeito de uma expectativa impossível de cumprir.

O que pode mudar essa equação?

A resposta não está apenas em ensinar mães a dizer “não” ou a organizar melhor a agenda. Embora essas estratégias possam ajudar individualmente, elas não são capazes de resolver a vida. A discussão passa por questões maiores: licença parental, horários de trabalho, creches, escola, transporte, rede de apoio, divisão das tarefas dentro de casa e participação efetiva dos pais na rotina dos filhos.

Também passa por uma mudança de expectativa. A gente precisa entender que uma família não precisa oferecer uma infância cheia de atividades e que uma mãe não precisa estar disponível o tempo todo para ser presente. Passa por deixar de perguntar: “Como dar conta de tudo?” e passar a questionar: “Por que todo mundo espera que eu dê conta de tudo? E sozinha?”.

A sobrecarga materna não é um problema individual de organização, mas uma consequência de como trabalho, cuidado e responsabilidades familiares estão distribuídos. Reconhecer isso pode ser um primeiro passo para tirar da mãe uma culpa que, muitas vezes, não deveria ser só dela.

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