Quase metade dos pais e cuidadores brasileiros admite já ter dado tapas nos filhos, mostra pesquisa

Estudo do UNICEF mostra como a ideia de que bater pode ser uma forma de educar continua presente nos lares do país

Basta dar uma olhadinha na seção de comentários de qualquer vídeo desses que mostrem crianças fazendo “arte”. Tem sempre um: “Isso é falta de palmada” ou “Uns bons tapas teriam resolvido na hora”. Parece brincadeira, mas essa mentalidade que relaciona educação à violência ainda é real na sociedade brasileira. É o que discute um estudo divulgado pelo UNICEF no Brasil.

A pesquisa qualitativa ouviu 214 pessoas, entre mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção, em comunidades do Rio de Janeiro, Recife e Manaus. Nas conversas, os pesquisadores perceberam que muitos participantes fazem uma distinção entre “palmada” e violência. Bater de forma considerada leve pode ser entendido como uma estratégia de disciplina, enquanto agressões mais graves são reconhecidas como violência.

Essa percepção ajuda a entender um dado de outro levantamento, realizado pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis) em parceria com a Quaest. Na pesquisa, 49% dos brasileiros adultos disseram já ter dado tapas em crianças. Ao mesmo tempo, 91% afirmaram considerar o diálogo a melhor forma de corrigir um comportamento infantil. O levantamento ouviu 2.202 pessoas com 18 anos ou mais, em 128 municípios brasileiros.

Mesmo quando o diálogo é reconhecido como a melhor ferramenta para educar, o castigo físico ainda aparece no repertório de muitas famílias. E tem uma explicação cultural para isso.

“Só um tapinha”

A ideia de que palmada “não conta” como violência não é exclusiva do Brasil. O UNICEF aponta que normas sociais favoráveis ao castigo físico ainda estão presentes em diferentes países. Dados globais da organização mostram que pouco mais de 1 em cada 4 mães e cuidadores principais considera o castigo físico necessário para criar e educar uma criança.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), punição corporal é qualquer castigo em que a força física seja utilizada com a intenção de causar algum grau de dor ou desconforto, por menor que seja. Isso inclui tapas e palmadas, mas também beliscões, puxões de cabelo ou orelha, chacoalhões, chutes e agressões com objetos.

No Brasil, a legislação segue a mesma lógica. A Lei nº 13.010/2014, conhecida como Lei Menino Bernardo, garante a crianças e adolescentes o direito de serem educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou tratamento cruel ou degradante como forma de correção, disciplina ou educação.

Embora possa parecer inofensivo e até “positivo” para alguns adultos, dar um “tapinha” é, sim, violência. Além de tudo, de acordo com a ciência, nem mesmo é eficaz.

Em relatório técnico publicado em 2025, a OMS reuniu evidências sobre as consequências da punição corporal e concluiu que existe ampla evidência de riscos para a saúde física e mental, o desenvolvimento cognitivo e socioemocional e o comportamento das crianças. A organização afirma ainda que não há benefícios comprovados do castigo físico para crianças, pais ou sociedade.

Em uma atualização publicada em 2026, a OMS reforçou que mesmo formas consideradas leves de punição corporal estão associadas a consequências negativas e carregam um risco inerente de escalada — isto é, uma situação que começa com uma palmada pode evoluir para formas mais graves de violência.

Nem toda criança que levou palmada vai desenvolver esses problemas. A ciência trabalha com associações observadas em populações, e não com a ideia de que um episódio isolado determinará o futuro de uma criança. Mas a pergunta é: por que escolher a punição física, que não tem nenhum benefício demonstrado, se existem alternativas educativas?

Dá para colocar limite sem bater?

Talvez esta pergunta esteja por trás de muitos dos comentários nas redes sociais. As crianças desafiam os adultos o tempo todo, não de forma proposital, mas porque ainda precisam amadurecer o cérebro, o controle de impulsos e a capacidade de regulação emocional. Uma criança pequena pode se jogar no chão porque não quer ir embora, bater no irmão, morder o coleguinha, descumprir regras.

Não bater não significa deixar passar. Parentalidade protetiva é uma coisa, permissividade é outra. Educar sem violência é continuar orientando, colocando limites e ajudando a criança a entender o que pode ou não fazer, mas sem bater, gritar, humilhar ou ameaçar.

Você pode explicar claramente as regras, interromper um comportamento inadequado, retirar a criança de uma situação quando necessário e estabelecer consequências relacionadas ao que aconteceu. Também é importante considerar a idade e a etapa de desenvolvimento da criança: uma criança de 2 anos não tem as mesmas capacidades de autorregulação de uma de 10.

Aos poucos, o adulto ajuda essa criança a aprender como lidar com frustração, limites e conflitos.

Quando o adulto também está no limite

Cansaço, sobrecarga, falta de rede de apoio e estresse não justificam bater em uma criança, mas ignorar esses fatores também não ajuda a prevenir a violência. A parentalidade protetiva depende também de rede de apoio para mães, pais e cuidadores e de políticas que fortaleçam as famílias.

É uma mudança importante de perspectiva. Em vez de simplesmente dizer a um pai ou a uma mãe “você precisa ter mais paciência”, é importante questionar: essa pessoa está conseguindo descansar? Tem alguém para dividir o cuidado? Está sozinha diante de uma criança pequena durante o dia inteiro? Está enfrentando uma situação de estresse ou sofrimento que precisa de ajuda? Cuidar de quem cuida também faz parte da prevenção da violência.

“Eu apanhei e estou aqui”

Outro argumento bastante comum é aquele que aparece quase automaticamente quando o assunto é palmada: “Eu apanhei quando era criança e não morri”. Mas sobreviver a uma experiência não significa que ela tenha sido benéfica.

A OMS aponta que a punição corporal está associada, em diferentes estudos, a maior risco de problemas de saúde mental, dificuldades no desenvolvimento cognitivo e socioemocional, aumento de comportamentos agressivos e maior aceitação da violência.

Além disso, o levantamento da Infinis com a Quaest mostra como essas experiências podem fazer parte da história familiar: 65% dos entrevistados disseram ter sofrido agressões físicas durante a própria infância.

Nem sempre quem apanhou vai bater nos próprios filhos, mas o histórico ajuda a explicar como determinadas práticas podem se tornar tão naturalizadas que passam de uma geração para outra sem serem questionadas. Romper esse ciclo começa quando o adulto consegue olhar para trás e pensar: “Foi assim que fizeram comigo, mas não precisa ser assim com meu filho”. Mas não é fácil.

E se eu já bati?

Reconhecer que bater não é uma forma adequada de educar não significa que um episódio vai definir para sempre a relação entre pais e filhos. Se aconteceu, o adulto pode assumir a responsabilidade pelo que fez, pedir desculpas e explicar que a violência não foi uma forma adequada de lidar com aquela situação, sem colocar a culpa na criança.

“Eu não deveria ter batido em você. Eu estava muito bravo, mas bater não é uma forma certa de resolver as coisas”, você pode dizer.

O pedido de desculpas não tira a autoridade dos pais. Pelo contrário: mostra que adultos também são responsáveis pelos próprios atos e podem reparar quando erram.

E, se bater ou perder o controle é algo que está acontecendo com frequência, procurar ajuda é importante. O objetivo não é encontrar um culpado, mas interromper um comportamento que pode machucar a criança e também desgastar profundamente a relação familiar.

Uma criança não precisa apanhar para aprender que existe um limite. Ela precisa de adultos que estabeleçam esses limites de maneira consistente e adequada à sua idade. Precisa de orientação, previsibilidade e segurança. E precisa, sobretudo, poder confiar que aqueles que deveriam protegê-la não vão usar a força contra ela.

A pesquisa mostra que o discurso já mudou para uma parcela expressiva dos brasileiros: 91% dizem que o diálogo é a melhor forma de corrigir comportamentos. O próximo passo é transformar esse entendimento em prática.

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