Sentir necessidade de ficar um tempo longe dos filhos não tem nada a ver com amar menos

Ainda assim, quando a gente sente que precisa de um respiro, a culpa insiste em nos sufocar

No último fim de semana, meus dois filhos foram convidados para aniversários de amigos da escola. As duas festas eram à tarde, no mesmo dia e no mesmo horário. Eu deixaria cada um em um local e depois voltaria para buscar – porque são pais que eu conheço e em quem confio. Eu fiquei feliz por poder ter uma tarde sozinha, enquanto sabia que eles estariam bem cuidados e se divertindo. Mas, por alguns instantes, parecia que admitir isso era errado. Fui invadida pela culpa. Eu estava feliz por ficar longe dos meus filhos? Que tipo de mãe eu sou?

Aos poucos, fui refletindo e entendendo que não há absolutamente nada de errado nisso. Como eu disse, meus filhos estavam bem e se divertindo. Eu também precisava de um tempo sozinha em casa, sem que ninguém me pedisse nada, chamasse “mamãe” de minuto em minuto, sem me preocupar em fazer comida, sem precisar estar disponível.

Nesse ponto, já até sei que muita gente vai ler e dizer: “Se você soubesse como passa rápido, não pensaria assim” ou “Um dia você vai sentir falta de ouvir ‘mamãe’ dos seus filhos pequenos”. E os argumentos estão corretíssimos. Eu sei de tudo isso – e concordo! O ponto é que uma coisa não anula a outra. O fato de eu apreciar um intervalo ou um tempo só para mim não significa que eu ame menos os meus filhos. Pelo contrário. Aproveitando essa pausa, me preparo para reencontrá-los feliz, descansada, com saudade e pronta para oferecer o que eles mais precisam, que é a minha presença, por inteiro.

É um pouco maluco pensar, mas a ideia de que uma mãe precisa estar permanentemente disponível faz com que até uma pausa seja acompanhada de culpa. Mas a própria Academia Americana de Pediatria (AAP) trata a necessidade de afastamento temporário dos filhos como algo normal. Em orientação publicada no HealthyChildren.org, a organização afirma que todos os pais precisam de tempo para si e que fazer uma pausa pode beneficiar tanto o adulto quanto a criança.

É claro que isso não significa deixar crianças sozinhas ou sem supervisão. A AAP ressalta que, durante a pausa, os filhos precisam estar em um ambiente seguro e sob os cuidados de outro adulto responsável (como foi o meu caso, nesse exemplo).

Por que o descanso da mãe parece precisar de uma justificativa?

Imagine um pai dizendo que vai jogar futebol por duas horas no sábado. É comum que isso seja entendido como um compromisso pessoal, um momento de lazer. Mas a reação não é exatamente a mesma quando se trata de uma mãe dizendo que vai passar duas horas sozinha em um café, encontrar uma amiga ou simplesmente ficar em casa, sem ninguém precisar dela.

Não demora para surgirem as perguntas: Mas quem vai ficar com as crianças? Você não vai sentir falta? Não dava para levar os filhos?

Em um texto sobre autocuidado, a pediatra Whitney Casares, da AAP, conta que, no início da maternidade, ela mesma se sentia culpada por usar seu tempo livre para descansar — e acabava preenchendo essas horas com tarefas domésticas. O resultado era quase paradoxal: ela conseguia se afastar fisicamente dos filhos, mas não conseguia realmente sair do lugar de cuidadora.

Outra armadilha no discurso do autocuidado é a produtividade. Você quer transformar toda pausa em uma tarefa, que nem precisa ser doméstica. Pense em atividades como exercício físico, meditar, terapia, organizar a agenda, preparar uma refeição saudável, ler um livro sobre parentalidade.

É óbvio que tudo isso pode ser ótimo, mas às vezes você pode simplesmente não fazer nada. Você tem todo o direito de reservar momentos que sejam verdadeiramente para o seu descanso e para o seu prazer, sem precisar produzir nada. Simplesmente silêncio, um café quente, bater papo com uma amiga, dormir, maratonar uma série, tomar um drink, ouvir seu disco favorito.

Sentir vontade de ficar sozinha de vez em quando é diferente de estar tão exausta que a pessoa sente que não consegue mais cuidar dos filhos. O burnout parental é outro contexto. A condição pode envolver exaustão intensa, distanciamento emocional e sensação de ineficácia no papel parental. A literatura também aponta consequências para a relação conjugal e familiar quando o quadro não é reconhecido e cuidado.

O principal é lembrar que, não, a criança não precisa de uma mãe disponível 24 horas por dia. Ela também se beneficia dessa pausa, descobre novos mundos, aprende a se relacionar com outras pessoas – e, para isso, uma rede de apoio é fundamental e não luxo. A criança precisa de adultos responsáveis, presentes e capazes de cuidar dela.

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